CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema»O cinema também tem um pulso cardiaco, um sinal de vida
Por Diogo Coelho
Barreiro

Por Jornal Rostos
Considero bastante complicado definir o quanto e a razão pela qual gosto de cinema. Numa primeira instância aparece a fama, o dinheiro, o poder, a consagração. E não pretendo entrar numa espiral de hipocrisia e revelar que todos esses factores não importam realmente, pois o seu relevo é um dado adquirido. Porém, pensar numa razão para apreciar uma arte e querer fazer dela um caminho de vida e um sustento profissional é infantilizar e descontextualizar a sua importância. Gostar de cinema não se explica, sente-se. E apesar de isto tudo soar desconfortavelmente falso, tenho a certeza que não estou sozinho nesta afirmação. O cinema é uma arte complexa, cara e sobretudo fisicamente destrutiva em todo o seu processo de criação. E o resultado? Pois esse nem sempre é claro e objectivo, mas quando é bom, a sensação é inexplicável. É a alegria de toda uma composição quase musical de imagens em movimento que chegam a lugares que não julgamos conhecer até o primeiro flash penetrar na retina.
É dificil encontrar uma definição para uma paixão de longa data. Arranjar-lhe um nome de maneira a torná-la vinculativa, concreta e declarada. Mas através da arte em si, é possivel transmitir a qualquer pessoa o que esta significa e encapsula. Para mim o cinema é definido por 3 filmes de épocas distintas e que compõem o quadro perfeita na apreciação desta arte. Não direi que são os melhores filmes de sempre pois não existe esse grau. Existe preferência e essa é sobretudo pessoal. Mas, para mim, estes três filmes representam visualmente e subliminarmente o que a arte das imagens em movimento é para mim: Aurora de Murnau (1927); O Bom, o Mau e o Vilão de Sergio Leone (1966) e Clube de Combate de David Fincher (1999). Três filmes completamente dispares em tema, conteúdo e forma mas ligados pela "evolução" do cinema, pela forma de contar qualquer história, moldar qualquer assunto e mostrar-nos uma visão, talvez "a" visão em toda a sua complexidade e alcance emotivo. Foram estes três filmes que moldaram a minha perspectiva do cinema, de como pode ser feito e de como qualquer história pode tornar-se incrivel e arrebatadora se os elementos que para ela contribuem foram pontuais, correctos e cirurgicos. Como uma operação médica onde tudo corre bem, onde nada falha.
Pois o cinema também tem um pulso cardiaco, um sinal de vida. E mesmo quando este parece desvanecer e toda a sua história posta em causa pelo futuro e pela sustentação desta arte com base apenas no lucro fácil e não na intelectualidade do seu conteúdo e no poder eficaz de atingir qualquer pessoa no seu âmago, haverão sempre pessoas como Murnau, como Leone e como David Fincher para revitalizar, para fazer o sonho de criança continuar em adulto e para inspirar qualquer aspirante a realizador a lutar pelos seus sonhos mesmo que eles não passem, talvez, de "ficção".
Diogo Coelho













