CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema»Aurora - um filme para ver, rever e nunca mais esquecer.
Por Diogo Coelho
Barreiro

Por Jornal Rostos
Aurora, de F.W Murnau é uma obra-prima do cinema clássico e cujo efeito e relevância cultural e temática ainda se repercute nos dias de hoje.
Sem entrar em grande descrição da narrativa presente no filme, direi que este filme trata sobretudo da falibilidade do ser humano e da sua necessidade e disponibilidade quase trágica e ciclica de errar e se arrepender. A personagem principal (o marido) age sempre impulsivamente e a sua própria besta interior é constantemente arrefecida pelo carácter calmo, amável e delicado da mulher que lhe oferece um porto seguro e um coração meigo. O Homem age, o Homem erra, mas o Homem arrepende-se, ele admite os erros e segue em frente. Tudo isso separa os homens dos animais, a nossa consciência. O nosso instinto primário não é a sobrevivência, é a necessidade de dar e obter amor no seu estado mais puro e claro.
É perfeitamente aceitável referir a natureza simbólica que suplanta a real neste filme, tudo parece mover-se de uma forma quase poética e subliminar, como uma fantasia, um incrivel mundo de subtextos e de acções transcendentes. Murnau pinta este quadro e revela-nos os nossos medos, ambições, desejos, impulsos, alegrias, tristezas, está tudo nesta obra, todo o nosso comportamento social e pessoal, as nossas interações, os nossos sentimentos mais profundos são personificados pelo marido, pela fiel esposa, pela amante oportunista, até pela simplicidade do pescador cuja determinação oferece ao filme um final feliz. Observamos em cada olhar, em cada expressão vazia ou cheia de vida, toda uma representação visual e emocional de cada um de nós e aí reside a força do filme, na sua capacidade de criar um laço entre o espectador e as personagens. É na identificação forte com as personagens e com as situações por elas protagonizadas que facilmente nos encontramos no espelho, reconhecendo a nossa própria semelhança e admirando o golpe de génio de Murnau em estabelecer um significativo paralelismo entre a ficção e a realidade e tornando-o quase indistinguivel.
Podemos dizer que o filme traça ainda uma ligação contemporânea de certa maneira com Adão e Eva, com o fruto proibido e todas as consequências que esta fábula de contexto dramático traz consigo, mas considero antes que este filme, tal como o seu titulo, reflecte mais na possibilidade de um novo começo, de um novo dia, como um renovar de um sentimento perdido anteriormente mas reencontrado ainda a tempo da salvação. Um filme para ver, rever e nunca mais esquecer.
Diogo Coelho













