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Colunistas

A Propósito da Volta à FrançaPor Manuela Fonseca
Barreiro

Amo Desporto desde miúda; de alta competição ou do mais puro amadorismo (como, entre os sete e os nove anos o que pratiquei, a Ginástica, no Futebol Clube Barreirense).
Algumas modalidades, poucas, ferem-me a sensibilidade e não lhes atribuo importância, tantas são as que me deliciam.

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A Propósito da Volta à França Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

A Propósito da Volta à França

Amo Desporto desde miúda; de alta competição ou do mais puro amadorismo (como, entre os sete e os nove anos o que pratiquei, a Ginástica, no Futebol Clube Barreirense).
Algumas modalidades, poucas, ferem-me a sensibilidade e não lhes atribuo importância, tantas são as que me deliciam.
Em relação ao Ciclismo, fugazes recordações / memórias dos duelos entre Alves Barbosa e Ribeiro da Silva, seguidos, pouco depois de um acidente, fora da competição, que vitimou o segundo, jovem campeão, orgulho do Norte, de Lordelo, a terra natal, e do Clube Académico do Porto (1) – pertencem à minha infância.
Comecei a ler, bem cedo, os jornais que, abandonados pelos passageiros, nos comboios, eram trazidos, após o trabalho, pelo meu tio Manuel Horta (para a família estar sempre informada acerca dos mais variados assuntos) e faziam parte dos rituais da família, mesmo se atrasados um ou dois dias: andavam de mão em mão o que, para a época e a nossa condição social, era interessante.
Sensível, chorei a morte de tão bom praticante, em mil novecentos e cinquenta e sete, ele que, na flor da idade, tanto (nos) prometia e já dera, cá e em países estrangeiros – foi, por exemplo, o primeiro português, em competição, exactamente no “Tour”, a chegar na frente da corrida ao ponto mais alto do Tourmalet, como a Internet, entre outros, nos ensina (1).
Um Sábio, o Professor Marçal Grilo (há pouco mais de vinte anos, geriu um módulo no meu mestrado. Obrigada, Senhor Professor, pelo que me / nos ensinou. Agora olho / olhamos para o Ministério da Educação e temos vergonha do que aquela gente faz lá, com maldade e ignorância, num lugar que o Professor honrou, assim com outras pessoas da mesma Dignidade) confirmou-o, na quarta-feira, dia 23 o corrente, na RTP2, a Marco Chagas, João Pedro Mendonça e a todos os que estávamos atentos à bela transmissão directa à Volta à França, uma das três semanas de prazer que esse Canal e a Eurosport nos proporcionam (que interessante, aqui, a rubrica “LEMOND ON TOUR”, o grande campeão norte-americano Greg Lemond e a sua eloquência, tão bom a falar como, há anos, sobre as duas rodas) e terminou no domingo, na beleza da Cidade-Luz e a expectativa, não gorada, da repetição da vitória de Marcel Kittel, com destreza, sangue-frio e categoria.
Inesquecível, quase fantástica, a imagem de um elefante a olhar, bonacheirão, no meio da multidão, uma pequena cerca e um minúsculo valado a separá-los dos heróis, no dia vinte e cinco, já perto do local do fim da décima nona etapa, Bergerac. (Tudo de bom e mau acontece, de facto, no “Tour”).
Desde a década já citada, acompanho, regularmente, como posso, provas ciclistas. Recordo: era Agosto e estava em Albufeira, em férias, em cinquenta e nove, numa habitação alugada pelos meus padrinhos, na (hoje tão alindada) Rua do Correio Velho. A Nani (Fernanda Horta) era ainda uma bebé de dois anos com quem estava sempre a falar (continuo a fazê-lo).
Adormecia a pequenita para a sesta e, então, lia, no “Diário Popular”, a travessia que, entre os dias um e vinte, os corajosos ciclistas faziam a Portugal Continental. Por esse jornal soube, terminada a competição, que Alves Barbosa ficara longe dos lugares a que estava habituado (primeiro ou segundo). Foi décimo sétimo mas triunfou nos prémios dos pontos e das metas volantes. Desconheci este, na altura (2).
Resolvi escrever ao “Tó” Alves Barbosa a felicitá-lo, através do citado periódico, para escândalo das minhas madrinhas. Fi-lo num postal dos correios – nunca soube se o ilustre ciclista e cidadão figueirense o leu.
A Figueira da Foz foi mãe deste extraordinário corredor como de José Bento Pessoa, um pouco esquecido nos tempos que correm, que, entre o fim do século dezanove e os primeiros anos do seguinte, encantou nacionais e estrangeiros – um campeão e recordista mundial bem antes de outros compatriotas (3). Também se corre sem ser nas estradas, como ele, magistralmente, fez.
Entretanto, chegou o tempo de Joaquim Agostinho. A propósito: há dezasseis anos, fui com dois Filipes, o meu e o amigo de Jesus, ambos adeptos do Sporting, ao Estádio de Alvalade. No Museu, estava o Sr. Mascarenhas, antigo defesa-central que também jogou no Barreirense. Reconheci-o e disse-lhe isso; perguntou-me se era professora, o que achei bem curioso e intrigou-me pela(s) marca(s) da profissão em mim observada(s)...
Sempre muito simpático, lá viu as indiscretas lágrimas que não consegui esconder, assim que reparei numa das camisolas amarelas dessa saudade. Depois dos mais chegados, evocá-lo, a Che Guevara e José Afonso provoca-me uma emoção indescritível.
E chorei até ao fim da profícua visita, após a qual, muito “pedagogicamente”, referi aos dois adolescentes que roubaram a Agostinho uma “Vuelta”, no ano do 25 de Abril; tinham maneiras diferentes de “funcionar”, em Espanha, os cronómetros dos contra-relógios, a patrioteirice aguda como reguladora da passagem dos minutos.
Setenta e nove deu o último pódio do “Tour” ao singular corredor. Razões de trabalho tinham-me, então, levado, em Julho, a Vichy, através da Universidade de Clermont-Ferrand. Acompanhei o “Tour”, de acordo com a disponibilidade e as emissões televisivas.
No hotel onde me tinham alojado e aos colegas, ao ver aquele homem, simples e valoroso, em tal lugar simbólico, exclamei para os circunstantes estrangeiros, com orgulho: “É meu compatriota, o Joaquim Agostinho, e o melhor português de sempre em cima de uma bicicleta, na estrada!” (O fora-de-série Bernard Hinault, o primeiro, Joop Zoetmelk, o seguinte, ao lado dele. Sim, é bonito ser-se povo deste País! Escrevi povo.)
(Note o estimado leitor: usei, lá, o nome do nosso campeão e não a aglutinação francesa, mais ou menos divertida (?), mais ou menos chauvinista, de que nunca gostei: “Agost’nault”.)
O homem de Brejenjas acabou, cedo, os dias: um cão, aparecido do nada, fê-lo dar a mais grave, trágica e última queda, quando liderava a Volta ao Algarve, em mil novecentos e oitenta e quatro. Portugal ficou de luto e perdeu uma enorme referência. Serviu-me / -nos um pouco de lenitivo o comentário, avisado e desportivo de Alves Barbosa que, três décadas passadas, evoco (sem garantir a ausência de lapso): “Joaquim Agostinho viveu de amarelo e morreu de amarelo.” (E assim continua, no íntimo dos admiradores que narram a vida desportiva dele aos descendentes.)
Talvez o então jovem Marco Chagas, com a ajuda do mestre, tivesse chegado longe, internacionalmente; Agostinho preparava-se para o lançar além-fronteiras quando desapareceu. Aquele foi o português que mais Voltas venceu (quatro), numa elegância inesquecível a pedalar, a mesma com que hoje comunica e explica, tão bem, o que de mais importante se passa no “Tour” e na Volta; como costuma dizer-se: “Um senhor”.
Evoco: José Maria Nicolau e Alfredo Trindade, pioneiros de classe e amor à arte velocipédica, obreiros de multidões nas estradas, modelos dos que, entre Hortas e Fonsecas, me antecederam. Um Barreirense, Joaquim Fernandes, o melhor em mil novecentos e trita e nove.
Antes de Agostinho, revejo João Roque, antes e com Agostinho Leonel Miranda.Venceslau Fernandes, figura genuína que, um pouco tardiamente, inscreveu o nome na lista dos vencedores da nossa prova-rainha, Joaquim Gomes (que excelente Director a Volta tem nele!), um campeão fino e determinado que, mais feliz, teria dobrado, por certo, as duas Voltas em que foi vencedor.
Cândido Barbosa: não chegou a ser vencedor da Volta mas, lídimo “sprinter”, levou milhares de portugueses às estradas que lhe admiravam as estonteantes pontas finais nas metas e o ar juvenil com que as executava.
O “Tour, mesmo sem Alberto Contador (o meu preferido) e Chris Froom, os pobres, foi maravilhoso. Oxalá nenhum corredor tenha querido ultrapassar Deus, com o velho, triste e conhecido truque, focado, há muito, por Roland Barthes: “Il y a une affreuse parodie du jump, c’est le dopage; doper le coureur est aussi criminel, aussi sacrilège que de vouloir imiter Dieu; c’est voler à Dieu le privilège de l’étincelle.” (4)
Pois será sem malandrices que veremos, em breve, Rui Costa, o nosso compatriota, actual Campeão Mundial de Estrada, num dos três principais lugares do “Tour” (não exprimo um desejo mas uma certeza)! (Que recupere depressa!)
O “Tour” já acabou: venha, amanhã, a Volta!

Manuela Fonseca

Referências
(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Manuel_Ribeiro_da_Silva, consultado em 26/7/2014.
(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Volta_a_Portugal_de_1959, consultado em 26///2014.
(3) http://albumfigueirense.blogspot.pt/2007/08/jos-bento-pessoa-1874-1954.html, consultado em 29/7/2014.
(4) (4) Roland Barthes, “Mythologies”, «Le Tour de France comme épopée» (pp.110-121). Paris, Éditions du Seuil, Col. Points / Civilisation, 1957, 247 [+5] pp.

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