À volta de um feriado perdidoPor Jorge Fagundes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Aproveitando este sol primaveril resolvi, esta manhã, dar uma saltada à Avenida da Praia a fim de verificar o andamento das obras de prolongamento da muralha até ao Clube Naval.
Mas, ao passar junto das esplanadas do Mercado Municipal, dei conta que o meu velho Amigo e Colega da Alfredo da Silva se encontrava sentado junto de uma das mesas, aparentemente entretido na leitura de um jornal.
Aproximei-me, não deu conta de mim e, espantado, descobri que estava a trautear uma canção que não me pareceu ser totalmente desconhecida.
“Bom dia! Estás a treinar para o Festival da Canção?”
“Bom dia! Não te vi chegar, tão entretido que estava a recordar tempos idos!”
“Tempos idos? Quais?”
“Da nossa velha Escola e, precisamente, por ser hoje o dia primeiro de Dezembro”.
“Boa! Estavas a cantarolar o Hino da Restauração!”
“É verdade! Ainda te lembras, quando andávamos no Ciclo Preparatório, que tínhamos aulas de canto coral todos os sábados, da parte da manhã?”
“Claro que me lembro! E foi nessas aulas que aprendemos a cantar o Hino Nacional, o Hino da Restauração e uma série de cantigas infantis da época e que, curiosamente, algumas ainda não passaram de moda!”
“Dizes bem, ainda se ouve cantar o “malhão, malhão”, “a saia da Carolina” e o “atirei o pau ao gato”!
“Mas, voltando ao Hino da Restauração que estavas a recordar, porque te veio essa memória a cabeça?”
“Por ser o primeiro de Dezembro, anos e anos a fio feriado, e hoje um daqueles que se foi!”
“Terá sido eliminado para agradar aos nuestros hermanos?”
“Não acho! Aliás, talvez cinicamente, eles é que deveriam ter esse dia como feriado”.
“Essa agora! Porquê?”
“Porque se libertaram dos incómodos portugueses. Se assim não fosse, a juntar aos bascos, catalães e outros tantos, ainda nos tinham à perna!”
“Tens cada uma! Já agora, até porque fizeste carreira como Oficial da Marinha Mercante, o que achas do tão falado porto de contentores no Barreiro?”
“Em boa verdade, ainda não tenho opinião formada, só dúvidas e mais dúvidas.”
“Dúvidas? Desembucha!”
“Depois de uma série sucessiva de desilusões como a cidade do cinema e a terceira travessia do Tejo, será uma mais a juntar à lista? Para além dos elevados custos, quer a nível de construção, quer de manutenção, como será resolvida a questão do impacto ambiental? Então os milhares de toneladas de resíduos de metais pesados e de pesticidas que sempre foi dito existirem nos fundo do Tejo, deixaram de constituir, por artes mágicas, qualquer problema? Olha meu Caro Amigo e Colega, como vais apreciar as obras de prolongamento da muralha, vou contigo. Mas que ideia tão estranha me ocorreu: será que as amêijoas japonesas já não têm toxinas?”
Jorge Fagundes













