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A faixa (conto em época de Natal)Por Jorge Fagundes
Barreiro

Levei o Kira ao atelier, arrumei o carro na garagem, e voltei a deitar-me.
Na manhã do dia seguinte fui espreitar a faixa e não é que o maroto do Kira, no canto onde queria pintar os moinhos de Alburrica, colocou,como o tem feito em muitos dos seus quadros, uma pomba branca?
Abalei, pensando : “ainda bem que o fêz. A pomba branca, ave da paz, também representa a pureza dos meus sentimentos!”

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A faixa (conto em época de Natal) Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Aquela repentina e semi-maluca ideia de colocar uma faixa na varanda de ferro forjado daquele prédio devoluto, mesmo em frente da janela do quarto DELA, andou-me a moer ao longo de vários dias.
A quem encomendar a faixa? Pensei na rapaziada das Jotas, mas, não sendo altura de eleições, devem andar destreinados e desisti. Na minha lembrança surgiu o nome daquela colega da Faculdade que, em tempos já passados,era do MR (e tinha muita prática na matéria). Mas, tendo enveredado por uma carreira na Magistratura, mesmo que alinhasse, haveria sempre (não por ela, claro) o risco de uma fuga ao chamado segredo da justiça e lá ficava eu nas bocas deste mundo!!!
“Deixa lá” disse para comigo mesmo. ! A ideia até era gira, mas... nada feito”.
Deitei-me por volta da meia noite e, quando eram três da manhã, acordei exclamando: “já sei quem me vai fazer a faixa!”
Liguei para o atelier do Kira que, hábito antigo, começa mais ou menos àquela hora o seu trabalho de pintor.
“Então, Dr, o que é que se passa? (o Kira colou, há anos, o Dr. ao meu nome e não mais o retirou).
Expliquei, sucintamente, o assunto e, obtida o sim do Kira, fui buscar o carro à garagem e arranquei. Já no atelier, saíram os pormenores: Kira, preciso que me invente uma faixa especial para colocar num prédio do Barreiro Velho. Aí por três metros de comprimento e um metro de largura. Dizendo...(e aqui entra em cena o segredo profissional). Mas , é neste caso que conto com o seu engenho,pois só eu e ELA podemos ver a faixa!”
“Conte comigo Dr. Tenho aí um rolo de tela especial para pintar as minhas ilusões artísticas e que serve mesmo os seus intentos! De que cor quer as letras? Azuis?”
“Não Kira,acho que ELA as prefere em vermelho!”
O Kira lá foi cortar a tela à medida, e sem grandes demoras temporais a faixa ficou pronta.
“Dr, pinto ali, ao cantinho, os moinhos de Alburrica?”
“Não, Kira, não pinte! Iam ficar, como sempre, uma obra de arte e ELA não ligava nada à mensagem!”
“Dr, vamos lá meter a faixa. Levo aqui o meu escadote extensível. Mas...já me esquecia: a tela é mágica, mas além de si e de ELA, também os Anjos a podem ver!”
“Ainda bem, Kira, ainda bem. Sendo ELA se o quiser, o meu último Anjo neste mundo cruel, até dá jeito!”
E lá pelas quatro e meia da manhã, naquela rua onde nem sequer um gato vagueava, o Kira encostou o escadote à fachada do prédio e colocou a faixa.
“Então, Dr, o que acha?!
“Julgo que as suas mãos tremeram ao desenhar as letras, parecem-me distorcidas”.
“Dr., se limpar as lágrimas que enchem os seus olhos verá que as letras estão certinhas!”
Levei o Kira ao atelier, arrumei o carro na garagem, e voltei a deitar-me.
Na manhã do dia seguinte fui espreitar a faixa e não é que o maroto do Kira, no canto onde queria pintar os moinhos de Alburrica, colocou,como o tem feito em muitos dos seus quadros, uma pomba branca?
Abalei, pensando : “ainda bem que o fêz. A pomba branca, ave da paz, também representa a pureza dos meus sentimentos!”

Jorge Fagundes

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