From Kibera With LoveSer mãe 24H por dia...
Por Marta Baeta
Só me apercebi desta situação recentemente quando um destes dias a Sarah escrevia uma composição sobre a Kibera e fez referência a isso.

Por Jornal Rostos
Nunca imaginei como seria ser mãe de uma criança, muito menos de 7 crianças quenianas a tempo inteiro. Desta vez aluguei uma casa, na Kibera, na verdade eu sempre quis viver numa favela e é aqui que vivo com eles.
Estes miúdos têm família mas encontram-se numa situação de saúde mais debilitada daí ficarem comigo enquanto cá estou.
Lembro-me que no primeiro dia comeram o jantar com as mãos, deitavam o lixo para o chão dentro de casa, não sabiam para que servia o pijama e não se limpavam depois de ir à casa de banho. Nenhuma destas crianças tinha dormido numa cama a sério antes de virem viver comigo.
A maioria das famílias da Kibera (sobre)vive em condições desumanas e dentro das suas casas que normalmente têm apenas 5 metros quadrados há espaço para um cama, a dos pais, os miúdos dormem no chão, em cadeiras ou em cima de mesas.
Ser mãe nunca é fácil, na Kibera então muito menos. Durante o dia sou responsável por 50 crianças e no final do dia cabe-me a mim tentar educar, da melhor forma possível, 5 meninas e 2 meninos adoráveis, fora os outros que vão aparecendo e vão ficando.
Preocupo-me em ferver água para os banhos e tenho de lavar os dentes à Mildred, a mais pequenina. É raro o dia em que algum deles não está doente, a verdade é que alguns deles são portadores de HIV e requerem ainda mais cuidados de saúde. Há medicação para fazer 3 vezes ao dia, há feridas para desinfectar todos os dias.
Enquanto estou de volta do jantar e dos banhos os mais velhos ajudam-me nas tarefas domésticas, pois cada um tem a sua função e isso é realmente uma enorme ajuda.
Pelo meio os trabalhos de casa ficam feitos e aprende-se sempre uma nova dança ou cantiga. Há episódios memoráveis, como quando na primeira noite da Susan cá em casa me acordam a meio da noite a dizer que ela tinha feito xixi na cama ou quando o Jacton partiu a cabeça a tomar banho no primeiro dia sem luz.
São momentos que na altura provocam vários tipos de sentimentos em mim mas que no fim acabam sempre por me fazer sorrir.
Há situações engraçadissímas como quando ofereci umas bonitas sandálias cor de rosa da branca de neve à Molen e ela queria dormir com elas calçadas à força toda.
Para além das crianças temos muitos animais em nossa casa, um gato que vem todos os dias de manhã dar-nos os bons dias, muitas lesmas e baratas.
Ainda não consegui criar uma relação saudável com as baratas mas quando percebi que os miúdos tinham medo era das lesmas, decidi "adoptar" uma delas e dar-lhe um nome - é a Mary!
Expliquei-lhes que ela tinha muitos filhos e que vinha alimentar-se das ervas do nosso quintal e hoje em dia são eles que portegem a Mary e que me dizem quando ela aparece.
A Kibera é muito grande e tem muitas pessoas, estima-se que aqui vivam 2,5 milhões de habitantes. Quando escurece, como não existe electricidade escurece a sério e um dia ao anoitecer quando regressávamos a casa, todos juntos,
no meio de uma confusão numa rua, perdemos a pequena Susan. Ela esteve 3 horas desaparecida e foram as piores horas da minha vida. Entre choros e rezas só imaginávamos que poderia acontecer o pior.
Na Kibera existem várias crianças que são raptadas diariamente por estranhos. Umas são vendidas, outras servem de escravas, outras são mortas e outras violadas...
Só me apercebi desta situação recentemente quando um destes dias a Sarah escrevia uma composição sobre a Kibera e fez referência a isso.
No mesmo dia reparo na quantidade de papéis a anunciar crianças desaparecidas e reparo que uma delas é um miúdo que até já veio a uma festa de anos de um dos meninos. E no meio deste clima de sobrevivência constante,
em que os pais não têm dinheiro sequer para levar um filho ao médico quando o mesmo apanha malária e que certamente não irá sobreviver, nós vamos vivendo cada dia de forma única e tentamos ser o mais felizes possível.
E como os miúdos dizem sempre depois de rezar: "God bless Marta", porque enquanto eu cá estiver a vida destes miúdos será como nos contos de fadas...
Marta Baeta













