Carta (aberta) ao Menino JesusPor Jorge Fagundes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Meu Querido Menino Jesus:
Ontem, o meu gato Pirolito, talvez em busca de algum ratinho desprevenido, ao apanhar aberta a respetiva porta, enfiou-se nas águas furtadas da minha velha casa, ali bem junto à Igreja da Senhora do Rosário.
E foi ao fechar a dita porta que dei com o gato dormitando num canto e em cima de uma caixa de papelão.
Ao ver-me, o malandrete do bichano raspou-se rapidamente para fora das águas furtadas, mas, ao fazê-lo, a caixa onde estava enroscado, virou-se e dela saltaram fotografias antigas, cartas, postais e outros papéis.
Não resisti à tentação de, antes de tudo arrumar, dar uma vista de olhos , e não é que encontrei cópia de uma carta que o meu avô, então menino Barreiro, te tinha escrito naquela letrinha da época, muito certinha, por ser escrito entre duas linhas paralelas?
Li a carta com muita atenção e, quem o diria, muitos dos pedidos nela formulados continuam atuais.
Assim, meu querido Menino Jesus, também te vou solicitar (já que durante todo o ano não fiz maldades de maior) que aceites estes meus pedidos e, vá lá, que não os ponhas, tal como a maioria dos do meu avô, muito bem arrumadinhos nos celestiais arquivos, sem mais.
A – Não poderás:
1 – dar uma palavrinha ao São Pedro para ter cuidado com as águas das chuvas que manda cá para baixo, muito em especial nas proximidades daquele malfadado túnel antes do Barreiro-A e no Largo das Obras? Volta, não volta, é cá cada inundação;
2 – “assoprar” os senhores que mandam nos correios para, honestamente, reconhecerem que foi um erro mandar fechar algumas estações;
3 – relembrar, a que tem o dever de o saber, que temos um património histórico e cultural a preservar e não a extinguir;
B – Gostava:
4 – eu, e todos os outros meninos barreirenses, de poder nadar numa verdadeira piscina municipal, igual a muitas outras já existentes por esse Portugal fora;
5 – que, tal como nos tempos do meu avô, o nosso Parque voltasse a ter uma ilha, com patinhos e cisnes a nadar nas águas do lago envolvente, e com uma esplanada que me dizem ter sido, outrora, um excelente centro de convívio de jovens e menos jovens;
6 – que, tal como nos tempos do meu avô, o jardim dos Franceses fosse, de novo, o mais bonito deste terra e que o seu coreto tivesse o merecido aproveitamento;
7 – de ver aquela área, no centro da nossa cidade, e onde foi o campo do Barreirense, e hoje é um matagal, abrigo de ratazanas e de cobras, a ser devidamente arranjada,
8 - de ver o monumento, obra do genial Malangatana, e há meses às escuras, de novo iluminado;
9 - de ver, ao vivo e não em fotografias ou quadros de arte, uma nova ponte a ligar-nos ao Seixal.
Menino Jesus: para que a minha lista não seja, como bem o poderia ser, maior do que a “légua da Póvoa”, por aqui me fico.
Teu, de coração
Menino Barreiro













