CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema»Cerimónia dos Óscares da Academia Americana de cinema»
Por Diogo Coelho

Por Jornal Rostos
Em preparação para a "grande" cerimónia dos Óscares da Academia Americana de cinema, decidi reunir duas análises referentes a dois filmes que constam na lista de nomeações e que, ao mesmo tempo, parecem filmes completamente destabilizadores do que é considerado o status quo das listas anuais desta famosa e relevante cerimónia. Falo portanto de Birdman e Whiplash. Esta crónica não tem como temática a comparação directa entre as duas obras mas antes uma observação geral sobre ambas dentro daquilo que, a meu ver, pode ser catalizador para o público em geral ter interesse em vê-los em detrimento de outros filmes que possam estar também em exibição.
Ora bem, falemos de Birdman: este projecto do realizador Alejando Iñarritu é, apenas e só, o melhor filme "realizado" do ano. Porquê realizado e porque não o melhor filme do ano? Porque estariamos a pôr de parte outro filme fantástico e merecedor de tal distinção chamado Boyhood. O filme de Iñarritu é uma viagem ao interior da mente de um ator (Michael Keaton) em falência emocional e artistica que se vê na possibilidade de reactivar a chama da sua carreira com um espectáculo baseado numa peça de teatro de Raymond Carver, à qual ele próprio escreveu a adaptação e protagoniza a mesma. Logo aqui, podemos observar que se trata de um filme de um homem só e, embora seja totalmente merecido todo o tipo de prémios que Michael Keaton possa ganhar, a força do filme prende-se mais com a visão do realizador, com a forma como faz todo o filme parecer um enorme "take" sem corte e como incorpora elementos visuais e sonoros para compôr um quadro de loucura crescente nunca destoando do tom inicial de comédia negra levada ao seu extremo mais ridiculo. O elenco adicional serve para dotar o filme de personagens que entram em conflito com o protagonista e, noutro filme qualquer, seriam só isso mesmo "adições" mas em Birdman são absolutamente basilares para a narrativa envolvente. Falo de Edward Norton, da surpresa de Emma Stone e do talento inegável de Naomi Watts. Trata-se de um filme dificil de agarrar à primeira mas assim que se consegue é possivel admirar e entender que podemos estar perante um filme importantissimo na sociedade actual e sobretudo na forma como a tecnologia e o consumo de cultura deixou de ter uma importante marca e selo de qualidade para ser apenas mais um "produto" entre tantos outros.
Whiplash trata-se do filme indie do ano, aquele filme que Hollywood gosta de nomear para mostrar a diversidade de géneros que dispõe. Felizmente neste caso, trata-se de um filme incrivel. A narrativa fala de um jovem baterista bastante dotado que é levado ao limite psicológico e fisico pelo professor e condutor da sua banda de estúdio do Conservatório. Nada de original aqui, certo? Verdade. Não é no argumento que reside a magia do filme, essa está inteiramente devota à realização pulsante, ao ritmo de edição intenso e frenético e às actuações memoráveis de Miles Teller e JK Simmons que dão ambos, e aqui a palavra chave é "ambos", performances dignas de Óscares e outros prémios similares. Estamos perante um filme que não se desculpa perante o baixo orçamento e antes absorve o mesmo para despir o filme de "manias" e de exageros trocando-os por uma emotiva viagem, dura de ver às vezes mas sempre recompensadora aos limites do desejo do sucesso e da dificuldade de viver com um talento que precisa de ser trabalhado. Mais do que um filme sobre devoção ao Jazz ou a um sentimento de dever cumprido perante o potencial de cada um, está um filme sobre descobrir um talento em qualquer um de nós e massacrá-lo até conseguir dominar o mesmo. Senti-lo a ser devorado e sobretudo a nunca ser desperdiçado perante toda e qualquer adversidade que possa aparecer. Uma luta da qual o cinema sempre fez parte e poderá, se quiser, continuar a fazer. A luta pela integridade artistica e por uma vontade de fazer aquilo que achamos que deve ser feito, independentemente dos riscos e dos falhanços. Também eles são parte do que mais tarde pode ser um caminho trilhado pelo sucesso.
Diogo Coelho













