Sociedade DeprimidaPor Cláudia Russo
Barreiro
Mas é imperativo mexer. Sair da inércia que nos consome. Sob pena de nada acontecer.

Por Jornal Rostos
Esta sociedade não tem remédio. Os tempos estão maus. Isto vai de mal a pior. Não sei onde vamos parar. Eles dão cabo disto.
Ouve-se por todo o lado.
Contas, contas e mais contas. O emprego e o dinheiro não abundam.
A paciência também não.
A felicidade menos ainda.
Falta educação, saúde e pão.
Deprimidos. Todos deprimidos e apáticos.
Em baixo. Sistemas falidos. Desprovidos de amor e de razão.
Seres sem expressão. Inertes. Sem sensibilidade.
Ensinam-nos a não sentir! E… a não fazer.
Talhados para seguir em frente, sem pensamento crítico. Construção de seres amorfos e indolentes.
Querem-se autómatos. Assim não maçam. Não saem do carreiro. Manifestamente mais vantajoso.
“Deprimidos”.
A Depressão existe. É patologia.
Gerada. Interna e externamente. Sofremos a influência do que nos dão. Ou do que nos falta.
Gerada pela perda, quase sempre, de alguém que se ausenta. Que quebra os laços e o contacto.
Ou pela perda do “Eu” que conhecemos. Do que éramos e já não somos.
Manifesta-se a perda de vontade. Um abandono da vontade. Do amor por si.
Com o outro, vai uma enorme parte de nós.
O que fica, por vezes, não basta para continuar.
Parados a contemplar os dias que passam iguais. Sem ver além das lágrimas que nos caem pelo rosto. Um dia, já nem caem.
De facto, estamos habituados ou formatados para não sentir. Para deixar passar, sem criticar. Sem falar. Dá trabalho e, há quem não tenha gosto algum em ouvir.
Sociedade Deprimida é diferente de estar Deprimido.
Não confundamos o que de facto se envolve, mas não é por si só absoluto.
Para além de Seres genuinamente Deprimidos, pela força das circunstâncias a que estão expostos, assistimos a uma Sociedade Deprimida.
Estamos a gerar seres deprimidos. Em baixo. Com baixos níveis de energia. Focados em suprir a fome e a fisiologia, as necessidades básicas, pouco motivados para mais do que isso.
Mas é imperativo mexer. Sair da inércia que nos consome. Sob pena de nada acontecer.
Enquanto nos mantêm aqui, não olhamos mais além. Não criticamos conscientemente aquilo que nos rodeia.
Dói ter que expor o que temos e o que não temos. Sobretudo o último. O que perdemos.
Seja real ou sentido.
A nossa integridade. A dignidade, que sentimos que foi embora, levada para parte incerta.
Sem vislumbrar como resgatá-la.
E… Depressão é isso. A perda. Tinha, mas já não tenho. Vinha, mas já não vem.
Depois, ambivalência. Incerteza. Sem confiança. Na corda bamba.
A Depressão, nas suas várias formas clínicas, assume, hoje em dia, proporções incalculáveis.
Números enormes. Estatísticas assustadoras.
Observa-se em maior número nas mulheres, porque estas, para além de estar sujeitas a mais factores de risco, assumem as suas perdas com “menos vergonha”, chegando mais frequentemente ao consultório, médico ou de psicologia. São elas que não temem chorar. E precisam continuar. A educar. A gerir a casa e a família.
Mas talvez não seja bem assim.
Muitos são os casos mal diagnosticados. Uma tentativa de rotular todas as tristezas reactivas a uma situação/experiência vivida, como se de uma Perturbação do Humor se tratasse.
Por outro lado, a tentativa de excluir de forma rápida e, de imediato, qualquer emoção desagradável, definindo essas emoções como patologia, algo que não é saudável, logo está do lado da doença.
Não conseguimos ver chorar. Não aguentamos. A dor do outro ecoa em nós. Processos de identificação. Baixos níveis de tolerância à frustração. A frustração de não conseguir fazer o outro parar.
Empatia, simpatia e compaixão.
Os estados prolongados de tristeza profunda, de incapacidade física, psicológica ou social, alterações no padrão do sono e no apetite, alterações do pensamento e na capacidade de decisão, são sinais frequentes nas Pessoas Deprimidas, desde que estas alterações sejam marcadamente evidentes, face ao estado psicológico normal e anterior da pessoa.
A Depressão não escolhe idade, mas apresenta-se de forma diferente consoante a etapa do desenvolvimento em que o indivíduo se encontra. Para uns a apatia, noutros a agitação e a revolta.
Estamos numa espiral descendente.
Mas convém que analisemos o que estamos a fazer. Onde queremos ir. O que pretendemos das gerações que já fazem parte da Sociedade de hoje, mas que terão intervenção e maior papel a desempenhar amanhã.
Que terão de fazer acontecer.
A Depressão existe, é patologia.
A responsabilidade da Sociedade começa no que pretendemos que esta seja para cada um de nós.
Cláudia Russo
Psicóloga Clínica,
Autora do blogue Senso Divergente.













