Construção do «Eu»Por Cláudia Russo
Barreiro

Por Jornal Rostos
Quantos de nós sentimos que somos criativos?
Até que ponto somos capazes de criar? De construir algo novo?
O processo criativo é diferente para cada um de nós. Em relação ao que criamos e, ao que em nós criaram. Uns somos mais práticos, outros mais teóricos. Mas todos somos capazes de criar. De fazer. De construir e concretizar.
Todos possuimos esse "dom".
Todos somos obras da criação de outros seres humanos. Somos uma obra originada em todos os sentidos, pelos nossos pais, pelos nossos educadores.
Uma obra quase perfeita no meio das suas imperfeições. Somos o resultado de toda uma experiência humana, vivida e sentida em tempo real. Experiência, essa, sujeita a sucessos e a insucessos.
Capacidade de imaginar, de criar, de experimentar e deixar experienciar. Dar liberdade de escolha. Opção. Mais do que um caminho, muitos possíveis. Saber que da multiplicidade de experiências se criam seres mais ricos. Humanamente mais experientes. Dar a liberdade de amá-los pelo que são, mais do que pela construção que se fez, à nossa imagem e semelhança. Seres idiossincráticos. Únicos. Com as suas individualidades e características.
Somos mais abertos ao mundo, mais expostos ou mais introvertidos. Vivemos de dentro para fora, ou vice-versa, essas experiências que nos concedem. E crescemos. À mercê dos dias que correm e das transformações que acontecem.
Dia após dia, sofremos a erosão dos tempos que correm quase sempre iguais. Trabalho-casa, casa-trabalho. Pelo meio, essa tarefa de educar. Sem falhas. Sem margem de erro. Com consciência da imperfeição que nos é inerente. Ou não.
Tentamos que nada falhe, muitas vezes sem consciência que também falhamos. Sem saber que nos é dada a hipótese de correcção se, e só se, pudermos verificar e experienciar esse erro.
Vemos os erros dos outros, daquilo que eles constroem, mas nem sempre estamos atentos ao erro da nossa criação. Passamos pela vida sem a crítica necessária para avaliar o nosso comportamento, mas avaliamos o do outro.
Somos naturalmente sãos e doentes. Normais e anormais. Vamos de um pólo a outro, quando se quer equilíbrio. Nem sabemos que podemos ter tudo, ser tudo.
Queremos ser saudáveis. Como se uma dose de loucura não fosse sinal de saúde, e tão necessária, para lidar com a maluqueira e a correria dos nossos dias.
Ser. Ter. Somos e temos tantos papéis e tarefas que nem aprendemos a definir. A definir-nos, a criar-nos. A construir-nos!
Daí surge, também, a dificuldade em definir o que somos ou não somos capazes de criar. De construir. Até que ponto estamos cientes da nossa criação? Até onde somos produto de uma construção, nossa e/ou de outros? Temos isso na mão?!
Temos tantos "Eus" quantas as funções que desempenhamos no tecido social. Uns, tão intrínsecos que nem nos lembramos que também somos. E que também temos, que os devemos desenvolver. Temos o dever de promover o que não existe e potenciar as capacidades existentes.
Somos iguais e diferentes da maioria que define a sociedade em que nos inserimos e, isso faz de nós, também, seres criativos a diferentes níveis.
Seres pensantes, irracionais por vezes. De ideias mais ou menos pertinentes. Coerência e incoerência. Depende do olhar crítico de cada um. Do foco de cada sujeito. Do que importa. Do que temos significado. Não sinto o que não sei. Não penso o que não conheço. Teoria da mente.
Uma amálgama de inputs e outputs. De experiências vividas e sentidas na pele.
Na pele de quem se constrói e se cria. De quem se realiza para criar.
Cláudia Russo
Psicóloga Clínica
Autora do blogue Senso Divergente













