Virado do AvessoPor Cláudia Russo
Barreiro

Por Jornal Rostos
Todos os dias acordo. E... Ainda bem que acordamos.
O despertador toca e começa um novo dia. Seja a que hora for, diferente para cada um, tudo recomeça. Faça chuva ou faça sol, porque não é isso uma decisão nossa.
Um som estridente que nos retira do sono profundo. Do mundo do sonho. Dos desejos.
Um som que nos coloca de novo acordados para a vida. Sensações. Emoções. Sentires e Saberes. Com ele tudo regressa.
Um toque que é, ele mesmo, a rotina. E que nos desperta para ela. A de cada um, na ordem quase sempre igual. Para não esquecer. Para nos focar. Para manter tudo controlado. Na ordem.
Todos os dias este som nos coloca orientados para um objectivo... O de sair de casa para trabalhar. Acto sistemático e mecanizado. Poucas vezes sentido como agradável e desencadeador de momentos felizes e positivos. Frustração.
Pelo caminho, um café. Para acordar. No sítio de sempre. Com "as gentes" de sempre. Damos os "bons dias" como mandam as regras da boa educação.
Diariamente somos "convidados" a conviver e permanecer com um grupo mais ou menos interessante. Sem escolha. Discutimos as questões dos outros como se da nossa vida se tratasse, porque desta sabemos pouco. Decidimos pouco.
Porque, decidem por nós. Seguimos o rebanho. Sem pensar. Sem avaliar se é o que queremos. Enaltecendo a simples existência de pão.
Somos convidados a pensar pouco, porque não nos pagam para isso! Mantendo-nos à míngua, perpetuando a escassez, desviam-nos das decisões. Das possibilidades de escolha.
Somos levados a deixar o nosso espaço de conforto, isso ainda é o melhor, se pudermos criar. Um ambiente nosso. À nossa medida. Mas muito poucos têm essa felicidade.
Somo condicionados. Amestrados. Aprisionados a "missões e visões" empresariais ultrapassadas. Limitadas no seu tempo e nos seus protocolos. Orientadas para o preço e não para o valor.
O valor humano. O capital humano. Tratados como máquinas, nem sempre funcionamos ou damos a produção desejada.
Muitas questões se podem colocar.
Vejo nas notícias que somos um dos países que mais consome medicamentos antidepressivos e ansiolíticos; que os problemas de saúde mental aumentam e, que os trabalhadores são os que mais sofrem de problemas psicológicos e emocionais.
Vejamos.
Com todas as questões económicas e sociais que nos são impostas, se juntarmos a desvalorização dos verdadeiros saberes de cada um, do ser de cada um, temos um grupo de trabalhadores insatisfeitos, puxados pela máquina e, não a puxá-la. Não a fazê-la mover-se. A arrastar-se.
Mas um dia acordamos virados do avesso. Com a força e disposição de mudar o nosso mundo. Começamos em casa. Do mais pequeno para o maior. Certos de que a nossa mudança, altera o que nos rodeia.
Queremos mudar a vida e a insatisfação. Fazer o que gostamos e aquilo para que sentimos estar vocacionados.
Nem sempre fácil. Nem sempre oportuno e exequível. Batalhas. Mostrar o que se vale. Construir uma reputação. Valor de mercado. Para depois existir.
Até porque mais vale cair em graça que ser engraçado. Nem sempre só o talento. Nem sempre apenas o mérito. Mas no meio da força que restabelecemos pelo amor à causa, caminhamos. Em frente.
Virados do avesso, voltados para dentro e exportando para o lado de fora, somos maiores. Mais capazes. Mais realizados. Mais fortes, física e psicologicamente. Menos frustrados. Com menos necessidade de recorrer a elementos externos para equilibrar o estado neurológico, interno.
Sem ter de restabelecer ligações por ingestão de químicos.
Naturalmente sãos. Felizes. Sem batota. Só nós.
O que amamos. O que sentimos. Voltados para as nossas necessidades. Para a nossa realização, a caminho da realização pessoal.
Aquela que nos dias que correm, não se alcança.
Cláudia Russo
Psicóloga Clínica,
Autora do blogue Senso Divergente













