Saltar para o conteúdo
Colunistas

CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema»O erro da Academia atribuir prémios a filmes que lidam com biografias
Por Diogo Coelho

Colocando de parte toda a teatralidade em si, falemos então de Cinema: nesse espectro apenas refuto duas decisões que, a meu ver, foram incrivelmente desapontantes. A primeira, e a menos chocante, terá de ser a vitória de Birdman sobre Boyhood na categoria de Melhor Filme do Ano.

4 min de leitura
CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema» O erro da Academia atribuir prémios a filmes que lidam com biografias Por Diogo Coelho

Por Jornal Rostos

O mês de Março chegou e com ele, a famosa e épica ressaca dos Óscares 2015. Cerimónia inundada de valores de produção, espectacularidade, grandeza, visuais e glamour impressionantes e...pouco cinema. Analisemos primeiro o apresentador: Neil Patrick Harris. De todo, não merece ser ridicularizado pois trata-se de um excelente artista e demonstrou bem a versatilidade que lhe é reconhecida. No entanto, o guião para o próprio evento, tal como para inúmeros filmes do ano passado, está repleto de piadas faceis, pouco imaginativas e, despindo a questão totalmente, sem qualquer tipo de humor no seu núcleo. Foi um pobre espectáculo que apenas nos traz à memória os mais recentes falhanços de Ellen DeGeneres no ano passado ou o mítico (no pior sentido) ano de James Franco e Anne Hathaway.
Colocando de parte toda a teatralidade em si, falemos então de Cinema: nesse espectro apenas refuto duas decisões que, a meu ver, foram incrivelmente desapontantes. A primeira, e a menos chocante, terá de ser a vitória de Birdman sobre Boyhood na categoria de Melhor Filme do Ano. Não tenho qualquer problema em consagrar Birdman como o melhor filme "realizado" do ano, a sua cinematografia é das melhores dos últimos tempos e trata-se de um filme arriscado tematicamente com excelentes performances e um tom critico do próprio sistema de Hollywood que agradará a qualquer pessoa que aprecia a arte visual pura do Cinema. No entanto, o filme de Richard Linklater intitulado Boyhood é um marco em si na história desta arte. Trata-se de um filme original tanto na execução como na abordagem sequencial da sua narrativa e na maneira como transporta para o grande ecrã a realidade da vida sem adicionar qualquer pózinho mágico para destoar o filme do seu objectivo central: representar a vida, os eventos e o encadeamento de emoções no seio de uma familia. Transparecer a realidade é das coisas mais dificeis de traduzir em Cinema e este filme conseguiu isso mesmo. Juntando a isso, a excelência dos seus atores, a banda sonora rica e uma edição fantástica de condensar 12 anos em 3 horas e temos um filme que perdurará na memória de quem o viu e de quem ainda o vai visionar pela primeira vez.
Posto esta questão, vamos à verdadeira decisão errada da Academia: O prémio de Melhor Actor Principal. Colocando já a questão sucintamente, Michael Keaton seria o único possivel vencedor do prémio. O mérito de Eddie Redmayne é inquestionável na sua interpretação de Stephen Hawking, no entanto, o erro da Academia em atribuir prémios a filmes que lidam com biografias, com problemas sociais, com doenças terminais e com histórias de superação irrealistas persiste ao longo da sua história. Não se trata de menosprezar Eddie Redmayne pois este tem imenso talento e o seu lugar ao sol seguramente estaria para breve, apenas não este ano e muito menos em detrimento de uma performance rica, complexa e única de um actor que merece algum tipo de reconhecimento há décadas. Este era o momento de Michael Keaton, o seu prémio de carreira através de um filme de qualidade assinalável e de risco imenso como o é Birdman.
A questão final que nos devemos colocar é apenas uma: Porquê continuar a assistir à cerimónia com todos estes problemas que já foram reconhecidos e estudados? Porque ainda assim, trata-se da suposta celebração desta arte no seu espaço/evento mais reputado e porque existe sempre, bem no íntimo, alguma espécie de esperança que um dia as coisas deixem de ser como são. Talvez um dia, sim.

Diogo Coelho

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção