CRITICAS E CRÓNICAS – «Um momento no cinema»O erro da Academia atribuir prémios a filmes que lidam com biografias
Por Diogo Coelho

Por Jornal Rostos
O mês de Março chegou e com ele, a famosa e épica ressaca dos Óscares 2015. Cerimónia inundada de valores de produção, espectacularidade, grandeza, visuais e glamour impressionantes e...pouco cinema. Analisemos primeiro o apresentador: Neil Patrick Harris. De todo, não merece ser ridicularizado pois trata-se de um excelente artista e demonstrou bem a versatilidade que lhe é reconhecida. No entanto, o guião para o próprio evento, tal como para inúmeros filmes do ano passado, está repleto de piadas faceis, pouco imaginativas e, despindo a questão totalmente, sem qualquer tipo de humor no seu núcleo. Foi um pobre espectáculo que apenas nos traz à memória os mais recentes falhanços de Ellen DeGeneres no ano passado ou o mítico (no pior sentido) ano de James Franco e Anne Hathaway.
Colocando de parte toda a teatralidade em si, falemos então de Cinema: nesse espectro apenas refuto duas decisões que, a meu ver, foram incrivelmente desapontantes. A primeira, e a menos chocante, terá de ser a vitória de Birdman sobre Boyhood na categoria de Melhor Filme do Ano. Não tenho qualquer problema em consagrar Birdman como o melhor filme "realizado" do ano, a sua cinematografia é das melhores dos últimos tempos e trata-se de um filme arriscado tematicamente com excelentes performances e um tom critico do próprio sistema de Hollywood que agradará a qualquer pessoa que aprecia a arte visual pura do Cinema. No entanto, o filme de Richard Linklater intitulado Boyhood é um marco em si na história desta arte. Trata-se de um filme original tanto na execução como na abordagem sequencial da sua narrativa e na maneira como transporta para o grande ecrã a realidade da vida sem adicionar qualquer pózinho mágico para destoar o filme do seu objectivo central: representar a vida, os eventos e o encadeamento de emoções no seio de uma familia. Transparecer a realidade é das coisas mais dificeis de traduzir em Cinema e este filme conseguiu isso mesmo. Juntando a isso, a excelência dos seus atores, a banda sonora rica e uma edição fantástica de condensar 12 anos em 3 horas e temos um filme que perdurará na memória de quem o viu e de quem ainda o vai visionar pela primeira vez.
Posto esta questão, vamos à verdadeira decisão errada da Academia: O prémio de Melhor Actor Principal. Colocando já a questão sucintamente, Michael Keaton seria o único possivel vencedor do prémio. O mérito de Eddie Redmayne é inquestionável na sua interpretação de Stephen Hawking, no entanto, o erro da Academia em atribuir prémios a filmes que lidam com biografias, com problemas sociais, com doenças terminais e com histórias de superação irrealistas persiste ao longo da sua história. Não se trata de menosprezar Eddie Redmayne pois este tem imenso talento e o seu lugar ao sol seguramente estaria para breve, apenas não este ano e muito menos em detrimento de uma performance rica, complexa e única de um actor que merece algum tipo de reconhecimento há décadas. Este era o momento de Michael Keaton, o seu prémio de carreira através de um filme de qualidade assinalável e de risco imenso como o é Birdman.
A questão final que nos devemos colocar é apenas uma: Porquê continuar a assistir à cerimónia com todos estes problemas que já foram reconhecidos e estudados? Porque ainda assim, trata-se da suposta celebração desta arte no seu espaço/evento mais reputado e porque existe sempre, bem no íntimo, alguma espécie de esperança que um dia as coisas deixem de ser como são. Talvez um dia, sim.
Diogo Coelho













