YDreams ou o risco de empreender em Portugal!Por Nuno Miguel S. Banza
Barreiro

Por Jornal Rostos
Numa turma com 30 alunos de 18 anos, 29 querem ser empregados de uma grande empresa, e apenas um quer ter o seu próprio negócio ou criar a sua empresa! Eu fui um dos 29 que porém, teve a sorte de conhecer 5 que decidiram juntar-se e dar corpo ao sonho de criar uma empresa! Mas o sonho destes 5 não era um sonho qualquer, eles queriam só transformar o seu pequeno negócio na maior empresa de conteúdos móveis do mundo. Estávamos a meio do ano 2000, comigo recém-licenciado e já a trabalhar, quando recebo uma mensagem com um convite: queres vir trabalhar com o Prof. Câmara e com o José Miguel? Eles acabaram de criar a Ideias Interativas, com o Edmundo, o Eduardo e o Nuno e têm um projeto novo para a Telecel. Chama-se Canal Mapas e é preciso malta para desenhar em SIG, com o MapInfo. Eu respondi logo que sim, só depois me lembrei de perguntar quanto é que se ganhava e se era a tempo inteiro ou não. É verdade que o facto de ter sido aluno do Prof. Câmara e ter já trabalhado com o José Miguel num outro projeto anterior, no Centro de Excelência para o Ambiente, criaram a confiança e a motivação suficiente para o aceitar sem reservas. Estava convicto de que seria seguramente um bom convite, o que eu não sabia era que esta experiência, mudaria de forma permanente a minha perspetiva sobre a vida e sobre o mundo do trabalho. Cheguei em Julho a uma empresa com pouco mais de meia dúzia de pessoas. O Sergio, meu amigo e colega de turma, coordenava as equipas de rua e eu, com outra colega, desenhávamos em digital as ruas de Lisboa. Nomes, sentidos e sinais de trânsito, números de porta, lojas, monumentos, serviços públicos e todas as outras informações que as equipas preenchiam nos inquéritos. Aos poucos, com informação atualizada e fiável, nascia o primeiro sistema de navegação móvel, na era pré-google, que era capaz de calcular percursos no telemóvel, com toda a informação que os utilizadores precisavam, numa altura em que se passava do original GSM para o GPRS e WAP - protocolos de dados móveis na época em que não se falava ainda de 3G, quanto mais de 4G! Com todas as dificuldades tecnológicas da altura, em que claramente o poder do hardware não acompanhava o avanço do software, o Canal Mapas da Telecel tornou-se um ícone. Foi claramente o primeiro sucesso da Ideias Interactivas, que entretanto, num processo participado dentro da empresa, adotou um nome que pudesse ser pronunciado em inglês e noutras línguas - sempre a pensar na internacionalização - sem a dificuldade que o anterior gerava. E assim nascia a YDreams SA. Seguiram-se muitos outros projectos, dos quais eu estou longe de ser a melhor pessoa para falar.
Depois da minha ligação ao Canal Mapas, surge na YDreams a possibilidade de criar para o antigo Instituto da Água, um sistema de informação - que desse resposta à necessidade identificada pela UE de divulgar a Qualidade da Água Balnear - baseado na localização das praias, e que pudesse estar disponível online e no telemóvel. Muito à frente de tudo o resto no seu tempo, em plena era do papel, a YDreams desenhou um sistema que recolhia a informação sobre as análises da água das praias e a colocava acessível a todas as pessoas, quer num portal web, quer através de um sistema que enviava sms´s gratuitas para os telemóveis, sobre as praias preferidas de cada pessoa, sempre que eram realizadas novas análises. E tudo isto sempre com um conceito por detrás - se é informação, pode estar acessível e o telemóvel pode ser o ponto de acesso. Veja-se que estou a falar do ano de 2001, há por isso 14 anos, quando simplesmente não havia conteúdos preparados para telemóvel. Mas trabalhar na YDreams era muito mais do que viver uma realidade paralela face a tudo o resto que se ia fazendo em termos de criação de ferramentas e inovação aplicada a diferentes sistemas. Era sobretudo uma experiência de vida e de partilha de um ambiente criativo e altamente motivador. Não vou falar de detalhes que hoje pareceriam absurdos, como o facto de não haver secretarias fixas, apenas pontas de cabos de rede espalhados por todo o lado, onde qualquer um podia ligar o portátil - sim, porque toda a gente trabalhava em portátil - e sentar-se, nem da troca de e-mails a qualquer hora, com o respeito pelo facto de cada um se organizar em função das suas tarefas, sem a obrigatoriedade de horários rígidos, ou sequer o facto de muitas das conversas serias se fazerem na esplanada e de calções, o que hoje se consideraria algo normal. Também não vou falar na arca de gelados Haagen Dazs, com pelo menos um gelado por dia para cada trabalhador, que estranhamente quase nunca se esgotava. E é também escusado lembrar a tabela de Basket ou a consola de jogos. Mas estes detalhes, que tornavam a experiência de trabalhar na YDreams algo único, eram o enquadramento para lançar mãos à obra e criar soluções sempre inovadoras e orientadas para dar respostas integradas, complexas, inteligentes e sempre com base móvel e georreferenciada. Duas palavras sempre presentes - móvel e georreferenciado! Hoje já toda a gente pensa com este enquadramento. Não é possível imaginar uma página ou um produto que não tenha uma versão mobile, nem mesmo aqueles que não cabem dentro de um telemóvel ou de um tablet. E a localização é hoje a chave de entrada para quase tudo o que fazemos. Abro aqui um parêntesis para falar no tal projeto de qualidade da água balnear. Chamava-se Viv´aPraia e durou entre 2001 e 2006. Quem hoje olhar para trás, vendo o conceito por detrás do projeto, terá uma estranha sensação de já ter visto algo semelhante, e isso é seguramente verdade, mas com uma característica ainda mais estranha, é que está invertido no tempo. Um portal que tinha como conceito uma página para cada praia do país, incluindo as praias fluviais. Em cada página, identificada com o nome da praia e com uma foto de perfil, eram colocadas fotos e vídeos da praia, quer recolhidos pelas equipas do projeto que percorriam todas as praias na época balnear, quer fotos e vídeos que os fãs de cada praia enviavam diretamente com o telemóvel ou do seu pc. Nas páginas de cada praia era possível ler os comentários dos fãs e saber detalhes sobre a existência ou não de parque de estacionamento, restaurantes, wc´s, acesso por transportes públicos, entre muitas outras informações úteis, como a forma de lá chegar. Toda a informação sobre a qualidade da água era colocada em tempo real, assim que eram conhecidas novas análises, tal como os alertas em caso de encerramento por razões de saúde pública. Os problemas relatados pelos utilizadores, em jeito de queixa ou reclamação, eram encaminhados para as entidades competentes, de forma a perspetivar uma mais rápida solução. Ora, pensar neste sistema hoje, com comentários, partilha de fotos e vídeos, listas de fãs e partilha de informação em tempo real, acessível por pc ou no telemóvel (a primeira versão do Viv´aPraia foi preparada para WAP em 2002 e era já de uma qualidade excecional para a época) não vos faz lembrar algo que faz parte da vida de milhões de pessoas pelo mundo fora? E onde talvez todos nós temos um perfil? Pois!!! O Viv´aPraia não era um livro de caras, mas era um livro de praias! Uma verdadeira rede social, com um dos conteúdos que mundialmente mais pessoas motiva em todos os continentes - o turismo de sol e praia! Vários anos antes do Mark, a empresa de que hoje se fala, a propósito do tropeção financeiro - que estou certo não a levará ao chão - criava soluções inovadoras muito à frente do seu tempo. Tudo isto só foi possível porque houve um, diferente dos outros 29 alunos da turma, que se chama António Câmara, que acredita verdadeiramente que os sonhos se podem tornar realidade.
Com a diferença que ele trabalha convictamente para que isso aconteça. Mas como para tudo, incluindo para a sobrevivência das espécies, a escala é determinante, a YDreams tem sido vítima do mercado de pequena escala a que Portugal tem acesso. Ao longo dos anos, de uma forma mais próxima ou mais distante, fui acompanhando a discussão sobre a saída da YDreams de Portugal, apresentada como solução, para a sua sobrevivência. A esta discussão, Antonio Camara sempre respondeu dizendo que Portugal poderia muito bem ser o local de onde sairiam soluções para o mundo. Com isto, António Câmara estava a manter em Portugal profissionais de enorme qualidade e a criar emprego e valor, mantendo o nome do país nas competições mais aguerridas em termos de criatividade e tecnologia. Mas a frieza dos números e a clara falta de visão de quem, podendo escolher, nunca ou raramente escolhe português, nunca ajudou a contrapor as dificuldades inerentes à falta de escala. Seguramente que no caminho que a YDreams fez ao longo dos quase 15 anos de vida, muitas decisões poderiam ser diferentes! Mas se não há dúvidas que avaliar é uma forma de crescer e aprender, é preciso fazê-lo de forma séria e honesta, contabilizando o que os números mostram, mas incluindo na tomada de decisão todas as externalidades que não se registam numa folha em T. E a YDreams tem um capital de conhecimento e inovação acumulado que vai muito para além do que os números mostram. Não será sensato ignorar esta realidade. Porque acima de tudo, é Portugal que perde!
Disclaimer: mantive ligação profissional à YDreams, entre 2000 e 2005, tendo saído por minha vontade para abraçar um novo desafio profissional. Faço uso no meu dia-a-dia enquanto Dirigente Superior na Administração Pública, de muitos dos conhecimentos e experiências que adquiri enquanto trabalhador da YDreams. Fui aluno do Prof. António Câmara, figura que continua hoje a ser para mim uma referência, enquanto profissional, investigador, mas sobretudo enquanto pessoa!
Nuno Miguel S. Banza













