Pensamento NovoPor Cláudia Russo
Barreiro
Mas não basta um dia. Uma noite ou umas horas. Tem de ser um desejo genuíno. De vencer. De batalhar para ser mais eu. Para ser ouvida.

Por Jornal Rostos
Celebramos o novo. Deixamo-nos levar pelo anseio da novidade. Desejamos.
Festejamos com toda a pompa e circunstância o nascimento. Seja do que for.
O nascimento! A vida próspera que terá. Que queremos que tenha.
Deixamos de lado, abandonamos vivamente o pensamento de que um dia tudo termina.
Somos pequenos neste universo. E um dia, tudo termina.
Termina desta forma exacta como conhecemos.
Não, não falo do divino. Sou uma mulher de ciência. Apelo, antes, para pensar no que deixamos e que não morre.
E deste modo... Existo e existirei enquanto uma, e basta apenas uma, pessoa se recordar de mim e da pessoa que fui para ela.
Por isso, a esperança. A esperança de que tudo se renova e renasce.
Todos querem deixar para trás o que está “gasto”. O que já se consumiu e que nada mais tem para dar. Teremos sempre algo para dar. Às vezes, no "nosso" leito de morte.
Essa. Essa que me tira o prazer de cá continuar. E porquê?! Se ela, ela mesma faz parte desta vida. É elemento integrante deste período em que posso abraçar este universo que conheço. Que espero conhecer e de que quero usufruir!!!
Desejo. Preciso. Quero.
Queremos.
Pelo que vejo. Sou atenta.
Pelo que oiço. Diariamente.
Abandonar a insatisfação. Fazer com que o corpo e o cérebro não percorra para sempre, em todo os "anos novos", o antigo software…
Sabemos que vivemos e morremos com a marca das coisas antigas que vivemos. Somos umahistória em tempo real. Escrita até ao último dia... Com certeza, fazendo updates.
Mas não basta um dia. Uma noite ou umas horas. Tem de ser um desejo genuíno. De vencer. De batalhar para ser mais eu. Para ser ouvida.
Porque a minha ideia importa. A de todos. A experiência que vivo e do que sei. Do que experimentei. Tenho direito a partilhar e a dar aos que me querem ouvir.
Não sou resultado do que querem. Não sirvo um objectivo que não o meu. Ou sim.
Da mesma forma que esqueço que a morte é parte da vida. Porque me dói. Magoa. Faz sofrer.
Há uma vida para mudar. Uma estrutura. Um todo que haverá de mudar.
Basta um. E um só. Terá de bastar.
Uma roupagem nova. Um destino novo.
Novidade.
Crescemos e ensinam-nos a valorizar a vida. Cada etapa que começa traz tantas coisas consigo.
A infância. A puberdade e a adolescência. Tanto para descobrir.
Valorizamos um jovem com muita experiência e… muito crescido.
Mas um idoso, já muito crescido… é também, já, muito velho. Não vale.
Não conta. Não terá nada a acrescentar?! Não aprendo eu com aqueles que viveram primeiro?!
O velho cai em desuso. Demasiado poeirento. Conservador por vezes. Mas não o podemos colocar no hoje sem o pensar no “seu hoje”… o nosso dantes.
Nem sempre foi possível a muitos chegar à escola. Pensar os ensinamentos e a evolução da ciência. Perceber que o corpo é um todo e… que a muitos, não “foi um mal que se lhes deu”.
Que a morte tem sempre um culpado já sabemos. Às vezes mais que um. Mais que a verdadeira causa. Morre-se a cada dia que passa.
Por dentro, morre-se e pode morrer-se a cada instante.
A cada dia em que permitimos viver um mal menor.
Não aprendemos também a falar dela. Da morte. Por isso não valorizamos a vida. Parece eterna.
E a efemeridade é o seu lema.
Na cabeça de cada um esta vai surgindo como uma arma que ceifa a vida.
Recordemos, já não se morre em casa. Mas também não se nasce em casa.
Já nada é seguro no meio onde nos encontramos.
Mas é neste meio que vamos preparando as novidades e crescendo como se a vida não fosse um conjunto de acontecimentos, mais ou menos aleatórios, onde a morte é uma certeza. Mas dela ninguém fala.
Pode vir mais depressa. Pode estar o “diabo atrás da porta”. E fecha-se a porta, até para pensar com que dignidade queremos morrer. Onde? Com quem? Podemos escolher?
À beira dos últimos dias da nossa vida, o corpo ressente-se e, ainda assim, tentamos fugir dela. Como se tivéssemos pernas para isso.
Como se fosse possível.
Tentamos fugir-lhe. Tentamos ganhar tempo. Tempo que nos torna velhos e nos coloca com o mesmo medo de quando somos novos. De não ter vivido ainda tempo suficiente.
Mas… quando não vamos de novos, de velhos não escapamos. Nisto somos todos iguais. Sem novidades. Todos efémeros e mais repentinos do que aquilo que gostaríamos.
Mas não decidimos. Não podemos fugir-lhe levianamente. Por vezes, atrasamo-la.
Impedimo-la que chegue tão cedo. Mas, um dia teremos de fazer essa partida.
Deixar os que amamos e aqueles que nos amam.
O caminho é duro. Árduo.
Dissemos tudo? Fizemos tudo? Deixámos claro a quem amamos?
Apaziguámo-nos relativamente às nossas mágoas? Quantos fizemos felizes? Isso importa?
Realizei-me?
Satisfiz-me?
Quantas vezes? Quantos dias me senti e me fiz feliz?
Vou pensar e... começar de novo.
Cláudia Russo
Psicóloga Clínica
Autora do blogue Senso Divergente













