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Os burros não têm nomePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Segundo os nossos hábitos, as pessoas dariam tudo para integrar uma “Lista VIP”. Teoricamente, constar nessa lista seria fazer parte de uma espécie de “Almanach Gotha” dos contribuintes, em que qualquer um gostaria de ser incluído; seria mesmo como que o reconhecimento público de um estatuto elevado, ou o culminar de uma carreira.

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Os burros não têm nome Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Uma das minhas queixas recorrentes é o clássico desconhecimento que temos da língua e cultura espanhola. Da questão da língua, até se compreende: sendo tão próximos, o português e o castelhano, nem vale a pena aprender formalmente a língua de “nuestros hermanos”; para quê perder tempo que pode ser dedicado a línguas mais necessárias, como o inglês ou o francês? Para mais, o “portunhol” basta para ir às compras nas terras fronteiriças…
Outro tanto não se passa na cultura. Mantemos uma ignorância olímpica sobre tudo o que é espanhol; bom, bom, é a literatura francesa ou tecnologia anglo-saxónica. Até esquecemos que Camões também escreveu em castelhano (como Fernando Pessoa em inglês).
E assim vamos vivendo, de costas voltadas para grandes figuras da cultura europeia e do Mundo, como Cervantes.
E foi precisamente Cervantes que inspirou esta prosa. Revendo as aventuras de D. Quixote e seu companheiro Sancho Pança (hoje e sempre fascinando os amadores dos clássicos), constatei algo de curioso.
Segundo o imortal Cervantes, o não menos imortal D. Quixote levou quatro dias a encontrar um nome apropriado para o seu cavalo. Foi obra: não se podia chamar Ruço ou Gingão à montada de um herói. E assim veio a encontrar o nome de Rocinante, palavra composta que nos escusamos a decompor e analisar, deixando tão delicada tarefa para os eruditos.
Não menos relevante foi ter levado oito dias a encontrar o próprio nome, D. Quixote de la Mancha, o que dá uma proporção de dois para um em tempo consumido – nada mal quanto à importância do cavalo.
Sancho Pança teve de se contentar com o próprio nome e alcunha, prova da sua condição de plebeu, se bem que, por obra e graça do Cavaleiro Andante, tivesse sido promovido a escudeiro.
E o burro?
Sim, porque o burro também entrou na História, mas aparentemente sem direito a nome. Era apenas o burro de Sancho Pança, animal manso, pacato, obediente, frugal, discreto e acima de tudo anónimo.
Isto trabalha na consciência de cada um. Então, quatro dias para o Rocinante, e nem um minuto para o jerico? Nem Ruço, nem Mimoso, nem sequer Orelhudo?
Rebuscando as minha memórias, tentei lembrar-me de nomes de burros que conheci, em andanças pelo Portugal profundo da minha juventude. E aí se foi confirmando a minha suspeita sobre a grande injustiça cometida quanto aos burros.
Por mais que me esforçasse, não me lembrava do nome de burro algum. A vaca era a Mimosa, o cão era o Fiel, o gato era o Faísca, até a cabra era a Farrusca – mas o burro era o burro, sem mesmo direito a maiúscula.
Se, por um lado, isso explica a omissão de Cervantes – compreensível, dada a proximidade de ambas as culturas ibéricas – não apaga a ingratidão, quase o insulto, feito aos burros. Séculos de dedicação e proximidade daquele animal, consagrado até na Bíblia, são assim apagados por um anonimato que nada justifica.
Ora, o anonimato é algo a que o comum das pessoas procura fugir, a todo o transe. Veja-se, a título de exemplo, as figuras que se fazem para aparecer na Televisão, quer em manipulados inquéritos de rua, quer em concursos de qualidade duvidosa, quer ainda como figurantes ou mesmo intrometendo-se na captação de imagens, com os efeitos ridículos que se conhecem. Talvez haja aqui uma forma subliminar de fugir ao destino os burros, ou seja, de escapar à apagada e vil tristeza de não ser ninguém.
Sejamos realistas e modestos: o destino da esmagadora maioria da Humanidade é permanecer no anonimato (fora, naturalmente, os de um círculo restrito). Mas é algo que custa a aceitar.
Disso vive a chamada imprensa cor-de-rosa, passerelle de eleição para quem pretende, por essa via, se ir ”da lei da morte libertando”, come escreveu Camões. Há mesmo quem pague para ver a sua imagem divulgada por quantos cabeleireiros e consultórios de dentistas há no País.
Não pertencendo a nenhuma profissão com acesso direto à fama (ator, político, futebolista, etc.), nem tendo tido a sorte de ter sido selecionado ou simplesmente abordado para uma oportunidade mediática de sair da penumbra, o destino da maioria é lançado ser lançado nas trevas exteriores, onde por vezes nem falta “o choro e ranger de dentes.”
Por isto é muito estranha a recente questão da “Lista VIP”. Segundo os nossos hábitos, as pessoas dariam tudo para integrar uma “Lista VIP”. Teoricamente, constar nessa lista seria fazer parte de uma espécie de “Almanach Gotha” dos contribuintes, em que qualquer um gostaria de ser incluído; seria mesmo como que o reconhecimento público de um estatuto elevado, ou o culminar de uma carreira.
Mas não! Aparentemente, ninguém quer fazer parte da lista, contra tudo o que seria de esperar. Até se nega que a lista exista, com a mesma veemência com que se negou que a Terra girava em torno do Sol, atitude acompanhada de ameaça de excomunhão e mesmo de ir parar à fogueira.
Perante este caso insólito, há que procurar uma explicação. De onde vem esta nova apetência pelo anonimato? Sabendo quão insondáveis são os desígnios dos que se movem pelas esferas superiores (nova alusão à astronomia clássica), será melhor deixar isso para os iniciados, limitando-nos aos efeitos práticos.
Não podendo eu integrar uma “Lista VIP” de contribuintes, por razões que os leitores decerto compreendem, estaria neste caso também condenado ao anonimato, ou seja, a partilhar o destino dos burros. Como fugir a este destino?
Talvez insistindo em afirmar o que se nega, o que pode ter por resultado vir a ser integrado numa lista – se não na “Lista VIP”, pelo menos numa lista negra. E assim, pelo menos, fugir àquela praga ancestral que foi lançada à espécie asinina.
Serei talvez mais um dos afogados no oceano do controlo dos contribuintes, tão generalizado, anónimo, abstrato, quanto informático e preciso; talvez venha até a ser objeto da atenção especial de algum zeloso sistema, que nada terá de aleatório.
Serei tudo isso; mas burro, não.

Nuno Santa Clara

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