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Da Liberdade aos Dias que CorremPor Cláudia Russo
Barreiro

Que juntos somos mais fortes. Que o pão, a saúde, a educação e a habitação são direitos. Que não têm de ser alimentados em troca da submissão ou do silêncio.
Não temos de deixar andar. Esperar que outros façam por mim.
Somos tantos. Um mundo cheio de gente sem nada. Que não tem nada a perder.

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Da Liberdade aos Dias que Correm Por Cláudia Russo Barreiro

Por Jornal Rostos

Não podíamos falar. Já podemos.
Não nos devíamos juntar. Agora é imperativo!
Não podíamos, em determinados cargos ou tarefas, profissões e afins, casar, ter filhos, constituir família, falar abertamente sobre o que pensávamos e o que nos preocupava, usar esta ou aquela roupa e, mais uma série de coisas.
Não podíamos nada.
Hoje fala-se muito e faz-se pouco. Fala-se de futilidades e pensa-se pouco na mesma.
Os programas de TV transformam-se na vida de cada espectador. Espectador. Da vida alheia. Sem intervenção na sua própria vida, mas comentando a de personagens ocas. Que não contribuem em nada para a formação pessoal de quem os observa vivamente. Não são exemplo de nada, nem de ninguém.
Antes, dois eram muitos. Três eram demais.
Hoje, casas cheias de gente vazia é permitido e são o reflexo do que atrai a nossa sociedade. Vidas sustentadas pela ignorância e pelo desespero de que a fama os salve.
Estávamos cercados na nossa existência. Afastados dos outros. Do todo.
Limitados no pensamento e na aprendizagem. Privados de saber, ao ponto de pensar que não existia. “Dantes não existia nada disto”, nem destes nem daqueles.
De facto, gente pouco instruída dá menos trabalho. Falam menos e não se opõem.
Não há juízo crítico nem vozes que não cantem os ditames de outros. Dos que mandam.
Dos que têm mais.
Abriram-se as portas. Soltaram-se as vontades.
Mas o que fizemos?!
Apostámos no facilitismo. Em dar o que não se teve.
Demais. Mais que as necessidades. Mais material e menos estrutura de pensamento. Menos sabedoria. Menos conhecimento e menos consciência. “De mim e do outro”. De nós.
As crianças já não trabalham, é um facto. Mas também não querem estudar. Ou será que não querem este modelo de escola???
Os modelos educativos e o sistema não acompanharam os avanços que fomos vendo chegar. Instalar-se. Não se ensina a pensar, mas a reproduzir temas que não lhes interessam.
Quando as crianças têm acesso a uma mão cheia de tecnologia que fala com elas, como achar que podem estar sentadas numa sala fechada, sentados lado a lado, sem comunicar. Escutando e observando o que não lhes dá qualquer prazer.
Porque não se aproveita o que de bom as “máquinas” nos trouxeram?
Se por um lado, poupámos as crianças e os jovens das agruras da vida e lhes demos o que não tivemos, não tivemos o cuidado de lhes dar os valores morais e o saber que muitos recebemos e valorizamos.
Demos-lhes uma existência solitária e sem cuidados de proximidade. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Em troca um jogo ou uma consola.
Não ensinámos às crianças que as escolhas têm consequências. Não lhes dissemos que a procura de saber é necessária. Não estimulámos o pensamento. Não brincámos na rua.
Hoje temos uma sociedade amorfa. Que não pensa. Que não sabe o que quer. Ou se sabe, acha que não deve transmitir porque isto é assim e não vai mudar.
Mas é possível.
É possível alterar este pensamento. É necessário mostrar mais caminhos.
Que juntos somos mais fortes. Que o pão, a saúde, a educação e a habitação são direitos. Que não têm de ser alimentados em troca da submissão ou do silêncio.
Não temos de deixar andar. Esperar que outros façam por mim.
Somos tantos. Um mundo cheio de gente sem nada. Que não tem nada a perder.
Mas que se fica. Que espera simplesmente que não “venha para cima de mim”.
Espero. Aguardo a mudança. Ela há-de vir.
Não vem se não fizermos nada para que venha.
Se juntos não encontrarmos a resolução para isto. Para isto que é a vida de todos.
A subsistência de todos.
A terra de todos. A Terra.
Uma esfera, redonda. Mas que não nos coloca de cabeça para baixo.
Manter a cabeça erguida é imperativo. E… contar com o outro.
Nem que para isso tenha que despertá-lo.

Cláudia Russo

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