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Os cravosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Aqui em Portugal os cravos tornaram-se o símbolo da revolução do 25 de Abril. Não por obra de algum criativo, designer ou artista gráfico, mas pela conjugação do gesto espontâneo de uma mulher do povo e de um anónimo soldado, que juntos criaram o ex-libris de uma Revolução que, além de transformar o País, teve profundas consequências além-fronteiras.

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Os cravos Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Desde sempre se recorreu às flores como modo de identificação de uma ideia que, por ser normalmente abstrata, carece de um sinal visível. Na Inglaterra, por exemplo, houve uma guerra civil que passou à História como a Guerra das duas Rosas (1455-1485). Não que tivesse algo de comum com as bem portuguesas “Guerras do Alecrim e da Manjerona”: bem pelo contrário, foi uma guerra sangrenta, no polo oposto aos duelos de sonetos da referida guerra de ervas aromáticas. As casas de York e de Lancaster adotaram, respetivamente, as rosas branca e vermelha com emblemas, e tudo acabou só depois da fusão das duas casas.
Mais recentemente, o Reino Unido, ou, melhor dizendo, a Commonwealth, adotou a papoila vermelha, a Red Poppy, como símbolo da homenagem aos combatentes da I Guerra Mundial. A origem desse culto está num poema, tornado célebre, do médico militar inglês John McCrae, morto em 1918. O poema foi escrito “a quente”, nos campos de batalha da Flandres (onde combateram também os portugueses) e os seus primeiros versos são como se transcreve:
“Nos campos da Flandres as papoilas florescem
Por entre as cruzes, fila após fila,
Que marcam o nosso lugar…”
Poema comparável sobre a guerra, apenas o “Menino de sua mãe”, de Fernando Pessoa, que arrepia o mais insensível.
Pois a Red Poppy passou a ser ostentada por toda a gente, durante o mês de Novembro (o mês do Armistício), desde a família real até ao mais humilde súbdito de Sua Majestade. Ou seja, independentemente da opinião política, é considerado de bom-tom preservar o símbolo do sacrifício dos que tudo deram pela Pátria, pela Liberdade, pela Paz.
Aqui em Portugal os cravos tornaram-se o símbolo da revolução do 25 de Abril. Não por obra de algum criativo, designer ou artista gráfico, mas pela conjugação do gesto espontâneo de uma mulher do povo e de um anónimo soldado, que juntos criaram o ex-libris de uma Revolução que, além de transformar o País, teve profundas consequências além-fronteiras.
Há aqui um certo paralelismo: nem o doutor McCrae escreveu o seu poema a pensar num hipotética glória futura (foi publicado após a sua morte), nem a mulher ou o soldado pensaram que estavam a fazer História.
Os cravos tornaram-se assim o símbolo da Democracia em Portugal. E, nas cerimónias oficiais, era de bom-tom ostentar um cravo na lapela, como imagem de marca da transformação que Portugal registara. Mas, por obra daquelas excentricidades que nos caracterizam, não por muito tempo e não para todos. A partir de certa altura, a ala mais conservadora dos nossos deputados passou acintosamente a não colocar o cravo nas sessões solenes comemorativas do 25 de Abril, deixando esse encargo à ala oposta – que aproveitou o ensejo, reclamando-se de única herdeira da Revolução.
Cumpre aqui referir que houve um deputado da ala conservadora que nunca abdicou do cravo; mas esse tinha um tal ascendente que ninguém se atreveria a interpelá-lo sobre o assunto…
Eis senão quando, na última sessão solene da Assembleia da República, todos os deputados ostentavam os cravos. Aparentemente, o bom senso (o tal inimigo do senso comum) prevaleceu. A Democracia é de todos, logo, os cravos também.
Mas o Demónio não perde pitada. E logo se começou a especular sobre o assunto. A explicação mais fácil é quase evangélica: haverá mais alegria no Céu por um pecador arrependido do que por noventa e nove justos que lá batem à porta. E, se os arrependidos foram muitos, maior foi a alegria no Céu. E eu prefiro ficar por aqui, sem mais especulações, aceitando com candura esta tomada de consciência que só peca por tardia.
Para aqueles de espírito retorcido, adeptos da teoria da conspiração e de outras inspirações que só teriam paralelo nos “versículos satânicos”, resta a explicação mais destituída de base sólida: a conversão aos cravos foi apenas uma mensagem subliminar, do tipo “como vêm, estamos encravados”.

Nuno Santa Clara

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