Um abraço, companheiro Dimas!Por Ricardo Cardoso

Por Jornal Rostos
Numa hora em que a grande roda TUDO silencia cá vai um texto fantástico de Fernando Manuel Pereira oferecido ao Arestas de Vento. Programa de rádio que mantenho no ar há muitos anos, na antena da Pal fm (102.2). Resolvi PARTILHAR convosco este gesto simples e fraternal do autor em causa… para com Dimas Pereira/ Musico e figura impar da cultura Setubalense que, felizmente, teve, com muito SUCESSO, a sua justa festa de homenagem (organizada por um grupo de amigos), no dia 10 de Outubro, no Fórum Municipal Luísa Tody, em Setúbal.
Nunca fui muito bom a chorar as minhas dores. Por isso não há casualidades que envolvam metamorfoses ou desconfortos sem causas aparentes, que acontecem e passam, deixando somente como semente um incerto tédio. Ainda tenho chão para pisar, muito chão mesmo, como saudade, vontade de voltar no tempo, aproveitar melhor companhias, presenças, revoltas e raivas. Mas esta impotência de ver que o tempo não vai voltar, torna a minha vontade independente como fábula portátil de páginas em branco, em mistura com memórias vividas, neste exacto momento onde um pedaço de sol que guardo desde menino me torna resistente a próximos assaltos de promessas vãs.
Não sei se voltar é perder. Se o infinito se alinha nas bússolas das estátuas, como se um rascunho permanente estabelecesse limites, caminhos, pássaros esboçados em nome de rios, de terras, formigueiros que apontam esperanças, conduzindo cumplicidades artesãs, reais, espalhadas, redesenhadas como encontros moldados pelo sonho, sem dia certo para morrer. Como oleiros, deixámos que o tempo viesse vindo, de mão estendida como quem pede esmola, como se ao barro alguma coisa tivéssemos que devolver. Migalhas de abraços no despertar de imagens, sem origem de nomes, tangentes que não se esgotam naquelas noites de luta, canções e poemas, músicas, alguns lirismos, numa enraizada esperança de escaparmos ao abate, arriscando poiso e asas sem pedirmos licença à vida, numa fusão dos ideais de liberdade, ajudando a transformar a própria história da cidade. Sem pretender partilhar falsos paternalismos, reconheço que esse movimento, consistente, emoldurou a urbe, faz parte dela, de nós, contesta, só por si, a censura e a repressão da ditadura que durante meio século nos quis atrofiar. Descobrimos o poder da imaginação na nossa pura inquietação. Ideais de liberdade num movimento cultural de seiva pura, vanguarda periférica, lúcida e livre, existia.
Espartilhos na eternidade dos sentimentos, vácuos sem lacunas onde a amizade é permanente no sangue, matriz de pontos finais, incompletos. E bem queriam amordaçar-nos, barrarem nossos caminhos fraternos, como se a passagem do tempo, afinal, não tivesse ritmo ou ousadia, perfeitamente cristalinos, perigosamente solidários, diferentes. Enganaram-se. Apostámos nos sonhos e alguns se realizaram. Porque resistir é arma para alterar e vencer a tamanha desigualdade que ainda tenta nos derrubar, derrotar.
Neste pretenso colóquio de duplo sentido, com fantasmas nocturnos, em conversas murmuradas enquanto caminhávamos até tua casa, sem camuflados, já a noite tinha ultrapassado o seu fim, guardo grata recordação. E a certeza de que, afinal, nem o tempo nem os ditadores conseguem destruir o nosso antigo, sempre novo, sonho de liberdade.
Um abraço, companheiro Dimas!
Ricardo Cardoso













