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A Propósito de Tornados e Outras CatástrofesPor Cláudia Russo
Barreiro

Há o Natal. O Banco Alimentar. E tantas outras causas que remedeiam, mas que em nada previnem o sistema perverso em que estamos inseridos.
No meio de um altruísmo fantástico e fanático, o oportunismo desmedido de quem lucra com o mal dos outros.

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A Propósito de Tornados e Outras Catástrofes Por Cláudia Russo Barreiro

Por Jornal Rostos

Toda a minha vida achei que somos mais do que vemos. Somos mais do que sabemos!
Temos de ser. Imperativo. Superar-nos a cada dia que passa.
Somos pequenos pontos neste Universo, mas detentores de uma qualquer importância, atribuída exclusivamente por nós.
Que a minha mãe seja a melhor e a mais importante para mim, aceito. Que os pais dos outros tenham essa mesma importância, apenas para eles.
Por isso, partimos de um pressuposto de igualdade. Mentira.
Não valorizo apenas porque sim! Habituada a pensar, ocupo-me de uma matéria complexa, cada vez mais desestruturada e descompensada – das estruturas da sociedade, dos seus elementos vivos, mais ou menos complexos.
Os seres humanos são dotados de uma inteligência excepcional (a esta altura o meu corrector ortográfico está a marcar erros, mas não escrevo com “acordo”, dado que o considero outra catástrofe), capaz de criar tudo a que assistimos e temos acesso neste Mundo. No entanto, nem sempre criamos.
Somos peritos na destruição, muitas vezes maciça de coisas tão fabulosas como a identidade, a identificação e personalidade, das personas que somos.
Insisto. Continuamos a não pensar. A não analisar.
Temos faltas e falhas graves na Educação. Na formação pessoal. Na transmissão de valores e atribuição de responsabilidades.
Minha. De todos.
Resultado: que se lixem as condições de vida, a educação e a saúde. Falemos semanas a fio da transição do treinador, de um clube para outro.
Falemos da vida alheia como se fosse nossa. Dói menos e sabemos sempre o que fazer.
Gritemos “Viva”, saltemos no Marquês e levemos “porrada” de quem nos deve proteger.
Nada disto manifesta os seres inteligentes que somos. Ou então, serei obrigada a inferir que esta, a inteligência, não está ao alcance de todos.
Não. Não se trata da inteligência. A questão está centrada naquilo que fazemos com a matéria-prima. O ser humano.
Perdidos. Sem rumo. Sem objectivo. Saem para a rua e não têm caminho. Falta o chão e as raízes. Os alicerces.
Sou da Terra e do Mar. Sou da Vida. Sou das Pessoas. Por isso, falo tanto em dias e em vidas, tempos e lugares.
Quando uma qualquer catástrofe ocorre, equipas de voluntariado, gente de todo o mundo é chamada a intervir. A força de todos é sempre maior. E vamos. “Até é giro e dá currículo”.
E quando não há tornados? E quando não há cheias? E quando não há sismos?
Há o Natal. O Banco Alimentar. E tantas outras causas que remedeiam, mas que em nada previnem o sistema perverso em que estamos inseridos.
No meio de um altruísmo fantástico e fanático, o oportunismo desmedido de quem lucra com o mal dos outros.
Se por um lado, as catástrofes naturais são a esta altura (porque não prevenimos durante as nossas criações) imprevisíveis, as catástrofes de cada um, as sociais, não têm sido observadas (vistas com “olhos de ver”) por todos os que podem prevenir.
Vivemos a era do subsídio. De inserção, que não insere ninguém. De desemprego… Pois, porque emprego não há.
Dir-me-ão, que estes subsídios foram criados para protecção social. Sim. Porque é preciso proteger do flagelo, quando na verdade não se aposta na prevenção. Mas… deixem-me alertar que teriam sempre um carácter provisório e transitório. Hoje, salta-se de subsídio para subsídio. Tem pois, carácter permanente.
Educamos mal. No tempo, na forma, no conteúdo. Obsoletos. E continuaremos enquanto a mente for pequena. Enquanto a mente colectiva permanecer pequena demais, perante a catástrofe que está instalada.
É assim, dizem. E distraídos seguimos o carreiro.
Olhemos para o real. Sejamos honestos. Sabemos tanto e aplicamos tão pouco.
Modelos ultrapassados para a era que se vive.
E esta… é uma das maiores catástrofes a que podemos assistir.
Todos os dias morremos por dentro. Perpetuamos um sofrimento atroz. De quem pode fazer mais, mas simplesmente conta com a ignorância.
Calados somos mais úteis. Ignorantes somos levados no rebanho.
Quem vier, que venha por bem, diz-se. Mas raramente somos humildes para trabalhar em grupo, quando na verdade, um só é pequeno e frágil demais.
Por isso, orgulho-me quando somos capazes de juntar saberes. Quando somos capazes de criar em conjunto. Quando conseguimos pensar que aquela ideia, não sendo minha, é tão boa e válida como se fosse.
Ultrapassemos a nossa catástrofe colectiva. Porque do tornado já nos safámos.
Do próximo, não sabemos.

Cláudia Russo

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