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A Torre de PizaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

É um mercado difícil: a concorrência é mais que muita, nem sempre leal, nem transparente. Mas os nossos amigos lá conseguiram manter a qualidade do produto, e até aumentaram a frota de motorizadas de distribuição.

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A Torre de Piza Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Foi com este nome que dois amigos relançaram um negócio existente desde longa data, cujo objetivo é fácil de calcular: fazer e distribuir pizas, essa especialidade italiana que conquistou todo o Mundo. O negócio, como se disse, era já antigo, tinha grandes problemas, mas lá ia singrando, ao sabor dos altos e baixos das conjunturas.
É um mercado difícil: a concorrência é mais que muita, nem sempre leal, nem transparente. Mas os nossos amigos lá conseguiram manter a qualidade do produto, e até aumentaram a frota de motorizadas de distribuição.
É certo que tinham problemas laborais: neste mundo cão, já não há fidelidades nem carreiras certas; a empresa é apenas uma entre outras; a ligação sentimental, o sentimento de pertença, que tinha estado presente quando da fundação da Torre de Piza há muito tinha desaparecido.
Aliás, certas atitudes de alguns colaboradores (como agora se diz) levantavam suspeitas. Até se dizia que trabalhavam secretamente para a concorrência. Se sim ou se não, não se sabe; o certo é que a empresa entrou numa espiral descendente, agravando os problemas que já vinham de trás.

Aqui vale a pena recordar António Aleixo:

Vinho que vai para vinagre
Não arrepia caminho;
Só por obra de milagre
Volta de novo a ser vinho.

Assim foi com a Torre de Piza. Se, como a torre que serviu de inspiração ao nome da pizaria, se tinha mantido durante muito tempo, agora ameaçava ruir.
Os nossos amigos procuraram uma solução.
E esta pareceu surgir com a aparição de um novo sócio. Com uma injeção de capital, a coisa resolvia-se. Saneava-se a situação financeira, renegociavam-se as dívidas, aliviava-se a tesouraria, era o renascer da Torre de Piza.
Negócio fechado!
Passados dias, o novo sócio esclareceu melhor o seu projeto. Já que não era possível hipotecar as instalações (porque já estavam hipotecadas), havia outra solução genial. Vendiam-se as motorizadas, e depois arranjavam-se outras (ou as mesmas!) em leasing ou noutro sistema semelhante.
Os dois amigos entreolharam-se. Delapidar um património tão duramente conseguido? E receber de volta os mesmos bens, mas agora sujeitos a pesados juros? E sem garantia de os recuperar?
Porém, não lhe ocorreu melhor solução. E resolveram aceitar a proposta do salvador de circunstância.
Um deles argumentou mesmo que felizmente não havia mais sócios, porque nesse caso seriam decerto acusados de gestão danosa.
E assim se cumpriu a via-sacra proposta. Venderam-se as motorizadas, que depois foram devolvidas, na nova versão patrimonial; passaram a pagar juros sobre o que tinha sido seu; consequentemente, agravou-se a situação da pizaria, até chegar ao insustentável.
Aí, a Torre de Piza ruiu (esperamos que a outra não).
As instalações foram vendidas, as motorizadas entregues ao novo dono, os colaboradores foram para o desemprego.
E assim acabou a história.
Mas com duas notas:
1. Qualquer semelhança com a realidade, nomeadamente com alguma grande empresa portuguesa, é pura coincidência;
2. Miguel de Vasconcelos também era português.

Nuno Santa Clara

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