As metamorfosesPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Embora este título possa parecer uma introdução a divagações literárias sobre as Metamorfoses, de Ovídio (que viveu entre os séculos I AC e I DC), ou da mais recente Metamorfose, de Kafka (1883-1924), não é disso que se trata. Nem igualmente alguma dissertação sobre insetos.
Primeiro, porque não tenho nem capacidades nem apetências para divagações literárias, nem sou entomologista.
Segundo, porque o que me move são mais as transformações da sociedade, pelo que a alusão às metamorfoses dos insetos (que não às literárias) é apenas um motivo de inspiração.
As transformações da Humanidade constituem um processo contínuo, desde sempre observado, repudiado pelos conservadores de todas as épocas, enaltecido pelos progressistas das mesmas épocas. A análise marxista só é inovadora pela teorização que faz do fenómeno.
O século XX, em que se assistiu a uma tremenda aceleração da História, foi naturalmente o palco de muitas transformações. Vamos centrar-nos numa delas.
O século XIX deixou um legado derivado do progressivo empobrecimento e exploração das classes mais desfavorecidas, se bem que iniciado no século anterior. Chamou-se a essa multidão espoliada e deserdada de proletariado – fórmula que, estranhamente, ficou como neologismo, embora tivesse origem na antiga Roma: proletário era aquele cuja única riqueza era uma prole numerosa. Ter muitos filhos era considerado um bem (é melhor não fazer comparações com os tempos atuais).
E assim surgiram numerosas referências ao proletariado, até que urgiu um novo conceito: o de operário, de opus, obra. Este era alguém ligado à produção industrial, ou mesmo artesanal, mas sempre por conta de outrem. Ou seja, que, na expressão consagrada, alienava a sua força de trabalho em troca de um salaário. Os camponeses, esses, continuaram a ser proletários…
A melhoria das condições de vida dos operários foi obtida à custa de tremendas lutas, a que não faltaram prisões, deportações, mortos e feridos. Até chegar àquele ponto maravilhosa-mente descrito por Vinícius de Morais: o de transformar em operário construído o operário em construção.
A regra da transformação não ficou naturalmente por aqui. A melhoria engendra novas necessidades, que, na proporção da mesma melhoria, tendem a ser mais induzidas que reais. Assim se procedeu vulgarizando o crédito, até ao absurdo de emprestar a que, à partida, não podia pagar. Como dizia a canção: “Que quer o povo? Que quer o povo? Quer dinheiro para comprar um carro novo!”
Ora, isto não estava bem de acordo com os ideais do tempo dos operários. Mas os tempos eram outros.
E assim nasceu um novo conceito: o de trabalhador. Este não tinha a conotação do operário, prenhe de conceitos ideológicos que não agradavam a muita gente. Por outro lado, albergava todos os que exerciam as suas funções por conta de outrem, o que tornava o conceito mais universal, englobando quase todas as profissões.
E assim terminou o século XX.
Mas a evolução não parou. O advento da Crise de 2008, resultado inevitável e até mesmo previsível da especulação financeira desregrada e desbragada que só tinha paralelo com a de 1929, determinou nova mudança.
Parênteses: recomendo, sobre este assunto, a leitura de O Minotauro Planetário, de Yanis Varoufakis, publicado em 2011, antes de ter sido nomeado Ministro das Finanças da Grécia. Depois de o lerem, compreenderão porque nenhum dos intervenientes das negociações em curso (Comissão Europeia, FMI, Banco Europeu e outros) lhe quer falar; é como pôr o diabo a falar com uma assembleia de anjos (ou o contrário, conforme o ponto de vista).
Ora, a Crise (com maiúscula, claro) teve os efeitos que todos conhecemos, e na nossa própria pele; não ficou ninguém imune, e o fim não está à vista.
E nova transformação se deu: o trabalhador deu lugar ao colaborador, e a designação parece ter pegado.
Não se trata de uma mera questão de moda, ditada pela desvalorização (ou mesmo repulsa) por uma designação, como aconteceu com as criadas, transformadas em empregadas domésticas, ou dos varredores, mudados em auxiliares de limpeza.
É que estes mantiveram, e até por vezes melhoraram, o seu estatuto e os seus direitos; enquanto o colaborador, não!
Um colaborador é um ex-trabalhador com o salário diminuído (quando pago), sem garantia de emprego permanente, sem progressão na carreira, com segurança social reduzida (quando a tem) e com um Serviço Nacional de Saúde em vias de extinção. Em compensação, tem as mesmas obrigações fiscais, agravadas em função da Crise.
A transição, como é hábito, tem raízes anteriores. A euforia dos anos 90 levou muita gente a considerar que as conquistas de direitos não eram tanto um bem como um entrave à sua própria realização. Para quem não tem a perspetiva histórica, isso parecia viável; para quem não vai em cantos de sereia, não. Recorde-se as falências de bancos nos Estados Unidos que levaram consigo, não só as poupanças de milhões de americanos, mas também os seus planos de reforma…
Pois em nome do Progresso, aqui temos o colaborador; ou seja, em nome de Progresso inventou-se uma criatura que é o exemplo da regressão.
Com a agravante de que quem nada tem nada compra; quem nada vende nada encomenda; quem não recebe encomendas fecha a fábrica; e quem nada faz não paga impostos sobre essa atividade…
Voltando à comparação entomológica, resta saber em que estado está aquele que trabalha por conta de outrem. Se o proletário evoluiu para operário, e este para trabalhador, parece haver unanimidade que se tratou de uma progressão. Assim, estaria como uma lagarta, ou larva, evoluindo para o inseto perfeito; só que, em vez de uma fase, houve três. Depois vem o colaborador: pelas suas características (confinado, oprimido, contrariado) tudo indica que se trata de uma crisálida (com origem em de crise, ou seja, transformação).
Resta saber se desta crisálida irá sair o inseto perfeito, aquela borboleta com asas para voar e encantar todo o Mundo.
A resposta está nas nossas mãos.
Crisálidas de todo o Mundo, uni-vos!
Nuno Santa Clara













