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A pedra no sapatoPor Jorge Fagundes
Barreiro

“É assim. Segundo li, creio que num semanário de grande expansão, quem manda na cidade de Lisboa quer ver-se livre, à viva força, do seu porto de contentores. A explicação dada é simples. O porto fica numa zona nobre de que os alfacinhas não se podem aproveitar, impedidos, como agora estão, de beneficiar de uma margem requalificada. Para bem deles, claro!”

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A pedra no sapato Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta tarde, após a passagem de costume pelo café do Barreirense, resolvi atravessar aquele que foi, em tempos idos, um dos locais mais apetecíveis e frequentados: o nosso Parque, o qual, independentemente dos nomes que lhe foram dados, os barreirenses sempre chamaram de Parque. Ora, num dos seus bancos, bem à sombra, estava sentado o meu velho Amigo e Colega da Alfredo da Silva.
“Olha, olha, não te esperava ver aqui nestas bandas!”
“Tens razão. É muito raro, mas hoje deu-me saudades dos nossos convívios de outrora, quer sentados nos bancos, quer às voltas, tipo tirar água à nora, com as raparigas sentadas nos bancos a ver-nos passar. E quantos e quantos namoros, muitos deles que deram em casamento, não começaram aqui? E a esplanada da ilha, sempre bem frequentada? E o lago com peixes, patos e cisnes?”
“Tens razão, meu velho Amigo! Mas, agora reparo, tens um pé fora do sapato. Calo incomodativo?!
“Não, meu Caro. Aqui sentado há um bom bocado, além das saudades, não é que fiquei com uma pedra no sapato?”
“Uma pedra no sapato? Explica-te!”
“É assim. Segundo li, creio que num semanário de grande expansão, quem manda na cidade de Lisboa quer ver-se livre, à viva força, do seu porto de contentores. A explicação dada é simples. O porto fica numa zona nobre de que os alfacinhas não se podem aproveitar, impedidos, como agora estão, de beneficiar de uma margem requalificada. Para bem deles, claro!”
“Também li qualquer coisa. Mas, continua”.
“Ora bem, e a margem esquerda (recuso-me a dar-lhe, por modernice, outro nome), não precisa, também de ser requalificada? E usufruída, de pleno direito, pelos barreirenses? Ou isso de se aproximar o povo dos rio só se aplica em Lisboa? Ora, com o tal porto de contentores, ficamos com uma grande frente ribeirinha destinada a ver navios!”
“Acho que tens uma certa razão. Mas esse porto, se vier para cá, não vai, como o publicitam, criar novos postos de trabalho e dinamizar a vida local?”
“Meu velho Amigo: ainda és dos que acreditam no Pai Natal? Quais e quantos postos de trabalho? Li que uma certa senhora, que manda no porto de Lisboa, falou na criação de 800 novos postos de trabalho. E por aqui se ficou, sem adiantar, nem isso lhe perguntaram (pergunta incómoda), quais postos de trabalho eram esses! E o dinamizar o Barreiro será feito à custa de centenas de camiões a atravancarem, diariamente, o trânsito e a poluir o nosso ambiente?”
“Continua a achar-te uma certa razão. Mas...”
“Mas, o quê? Já pensaste que o relativo fracasso que foi e é o parque industrial sito naquela zona, sem novas indústrias e sem criar um grande número de postos de trabalho, poderá vir a ser compensado com o porto de contentores?”
“Como?”
“Como bem o deves saber, como barreirense interessado, como o és, existe um grande plano de urbanização de parte da área desse antigo complexo industrial. E, se for concretizado, quem ganha com o negócio, quem? Por mim – e oxalá esteja errado- parece-me que estarão em jogo fortes e poderosos interesses financeiros e imobiliários! Por isso, enquanto aqui recordava os nossos tempos de juventude, e de frequentadores deste Parque, dei por mim a pensar sobre o assunto do porto de contentores. E, vá lá a saber-se porquê, fiquei com uma pedra no sapato!”

Jorge Fagundes

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