Passantes, migrantes e errantesPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
As imagens transmitidas diariamente pela Televisão da tragédia humana que tem vindo a aumentar de proporções no Sul da Europa têm tido um resultado algo perverso: de tanto repetidas, tornam-se banais. Em consequência, perdem impacto: como a migração anual das aves, torna-se uma coisa natural, quando esta migração de desesperados de natural não tem nada.
Ainda assim, as imagens ficam, mais do que as palavras – sobretudo mais do que as solenes declarações daqueles que talvez pudessem minorar tanto sofrimento.
A deslocação maciça de seres humanos não é novidade. Essas movimentações são até recorrentes na História da Humanidade. O que foram as invasões bárbaras, senão isso?
Os povos continuam circulando, entre passantes, migrantes ou errantes, conforme o objetivo da sua deambulação. Mas quase sempre numa base involuntária: por pressão de outros povos, por pressão da fome, ou por megalomania ou cobiça dos seus chefes.
No século XX – o século de todas as conquistas sociais e humanas – assistiu-se, por diversas vezes, à transferência de populações. Nunca de livre vontade, e esse é talvez o único ponto comum entre elas. Nas guerras balcânicas, durante e após a I Guerra Mundial, assistiu-se, por exemplo, ao genocídio dos arménios ou dos sérvios, e a fugas de populações em que os que puderam escaparam para outras paragens. O acerto de fronteiras após da assinatura dos tratados de paz (que não foi de Paz) desencadeou novas migrações forçadas, no quadro de limites arbitrariamente desenhados dos países criados ou recriados.
Entre as duas Guerras Mundiais, ficaram famosas as transferências de populações decretadas por Estaline, no interior da União Soviética, cujos efeitos ainda hoje perduram no Cáucaso.
A II Guerra Mundial levou a novas levas de milhões de seres humanos, ao sabor dos avanços e recuos dos exércitos em luta; paralelamente, dentro do espaço ocupado pela Alemanha nazi, assistiu-se ao refinamento máximo da desumanidade, atingido pela política friamente concebida e metodicamente executada de exterminação dos untermenshen – os sub-humanos, como os judeus, ciganos, eslavos, não arianos ou simplesmente indesejáveis, fossem eles adversários políticos ou apenas deficientes.
Os novos tratados de paz (que, juridicamente, nunca foram assinados) levaram a novas levas de milhões de deslocados, de acordo com os novíssimos traçados das fronteiras. E, mais uma vez, os visados não foram consultados. Mesmo que, nalguns casos, as coisas tivessem corrido de maneira soft, de modo geral os ressentimentos ficaram. Daí a explosão dos novos nacionalismos, nas áreas mais atingidas por estas convulsões.
Voltemos ao Sul da Europa.
Aquelas cenas de comboios apinhados de homens, mulheres e crianças partindo para um destino desconhecido deve, ou deveria, ter causado em todos os europeus (e não só!) um choque psicológico. São imagens de um déjà vu chocante; dito de outra maneira, é como aquele flashback que tortura as vítimas de stress pós-traumático.
Claro que não estão ali presentes os organizadores do exílio forçado, como os Gauleiter e SS-Führer dos anos da II Guerra Mundial, nem os seus ajudantes locais. Mas fica sempre um travo de semelhança, nos semblantes, nos olhares, naqueles vagões superlotados…
Aquela pobre gente não escolheu o destino: apenas comunga do sentimento de que, para trás, já não há nada…
A Macedónia (eu recuso-me a chamar-lhe FYROM) encontrou a solução ideal para os novos malditos da Terra: transportá-los até á fronteira mais próxima, que é a Sérvia. Esta, logicamente, fará o mesmo: vai transportá-los para a fronteira da Croácia, já que a Hungria está em vias de construir um muro que decerto fará inveja a Donald Trump. Fato curioso: o país que primeiro derrubou a Cortina de Ferro é o primeiro a erguer um muro protetor…
A Croácia, por sua vez, irá pôr os migrantes na Eslovénia, que tratará de os levar para a Áustria, e daqui para a frente será o mundo germânico a resolver o problema… com o concurso dos demais países da Comunidade Europeia.
Ou seja, por ironia da História, temos novamente comboios de indesejáveis a caminho da Alemanha. Só que, felizmente, o destino não são os campos de concentração.
Veremos qual a atitude das autoridades e da população.
Seria interessante que se voltasse ao conhecido slogan Arbeit macht frei (O trabalho liberta) que estava à entrada do campo de Auschwitz, mas desta vez com sinceridade, e não com humor (duplamente) negro. De modo a que aquela gente possa finalmente escolher o seu destino: ficar e integrar-se, ou, restabelecida a normalidade, voltar para onde chamam as suas raízes, mas desta vez de acordo com a sua vontade.
Nuno Santa Clara













