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Empurrá-los para trás!Por Nuno Santa Clara
Barreiro

A iniciativa e capacidade de intervenção de Vladimir Putin só podem surpreender os distraídos. Há muito se vinha notando a ascensão do nacionalismo russo. Como demonstram alguns dos escritos de Svetlana Aleixeivich, Prémio Nobel de Literatura de 2015.

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Empurrá-los para trás! Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Que a memória dos homens é curta, sabemos nós de ciência segura e ancestral. Já quase ninguém se lembra do que foi a chamada “Guerra Fria”, que no entanto marcou profundamente a segunda metade do século XX. Por isso, convém recordar alguns do métodos e táticas desse período. Não por um exercício de erudição, mas porque não aprender com a História é caminho certo para repetir os mesmos erros – e é isso que convém evitar.
A geração da Guerra Fria deixou de contar politicamente. Isto porque há muito está retirada dos negócios públicos – falo dos mais resistentes, os que ainda sobrevivem, porque os outros (a maioria) pertencem, definitivamente, ao Passado. Paz às suas almas, já que Paz foi o que mais desejaram, quase nunca o conseguindo de forma completa. E isso contribui ainda mais para o processo de esquecimento.
Decerto o sistema de dissuasão pela destruição mútua assegurada a que se chamou a Guerra Fria evitou um conflito das dimensões da I e II Guerras Mundiais. Mas, se somarmos as vítimas dos conflitos regionais e locais (Coreia, Indochina Vietname, Argélia, só para referir as mais sonantes) chegaremos a números de mortos, desaparecidos, refugiados e realojados que não ficam a dever às duas Guerra Mundiais.
Sendo o confronto uma realidade, tornada impossível a ação direta, sobrou o recurso ao conflito indireto: os dois blocos apoiavam (quando não provocavam) crises e guerras em países periféricos, tentando ganhar espaço, não se empenhando diretamente contra o adversário, mas contra um aliado dele, procurando subverter orientações políticas e inverter as alianças. Acima de tudo, deixou de ser possível a existência de vazios de poder, e a neutralidade passou a ser coisa precária, para não dizer utópica: ou se caía para um lado, ou para outro.
Foi o período das guerras fundamentadas na imposição de uma ideologia – coisa que os jovens de hoje têm decerto dificuldade em compreender. Mas talvez esse alheamento não seja novo. Houve um político francês que escandalizou meio mundo, ao perguntar publicamente: quem, em Marselha, quer morrer por Berlim? E, do mesmo modo, quem, agora, quer morrer pelo Iraque, ou pela Síria?
A oposição dos Blocos levou a manobras de contenção, ou seja, a procurar formas de manter o status saído da II Guerra Mundial, não como objetivo estratégico, mas como ponto de referência.
Mas, como no futebol, jogar para o empate pode levar à derrota. E daí que o Presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, lançasse a ideia de “empurrá-los para trás” (eles, os soviéticos e seus apoiantes). Foi esta ideia que levou às guerras acima citadas, com resultados variados, desde a vitória (Grécia), ao empate (Coreia), e à derrota estratégica (Vietname).
A Implosão da União Soviética foi considerada a grande vitória do Bloco Ocidental. E foi-o, de fato, e obtida pela aplicação da estratégia indireta, essa forma sublime de atingir objetivos com economia de recursos (e um dos recursos são os soldados).
Mas houve algo que não correu bem, no seguimento dessa vitória. Segundo o velho aforismo, o inimigo de ontem é o cliente de hoje e o aliado de amanhã. Basta lembrar a Alemanha e o Japão após 1945 para confirmar esta tese. Então, o que não correu bem quanto à Rússia?
A Alemanha e o Japão estavam virtualmente destruídos em 1945; a Rússia apenas beliscada no seu amor-próprio – e é onde dói mais.
Para quem estava habituado a fazer tremer o Mundo, ficar na situação do parente pobre não é fácil. Sobretudo se o seu estatuto de grande potência tem séculos de existência, como é o caso da Rússia. Isto explica os acessos de nacionalismo (com um encapotado revanchismo), primeiro nas camadas mais velhas, saudosistas de um passado considerado heroico, agora na juventude, sedenta de um ideal que ultrapasse a roupa de marca ou o telemóvel última geração.
O renascer da apetência russa por um papel a nível mundial não é mais do que retomar uma velha tendência dos tempos dos czares, de que foi exemplo o “Grande Jogo” no sub-continente indiano durante o século XIX (que deu origem a Kim, o mais famoso livro de Rudyard Kipling). Mais um caso de afrontamento de grandes potências em zonas consideradas estratégicas, especialmente quando nessas zonas existe um vazio de poder, como era, já nessa época, o caso de Afeganistão.
Em tempos mais recentes, a Síria tornou-se um caso complicado: era o inimigo mais figadal de Israel; vinha desempenhando um papel dúbio no Iraque; tinha um presidente hereditário, como os Kim da Coreia do Norte; e era o último aliado da Rússia na região. Portanto, numa repetição da manobra clássica, nada melhor que promover uma revolta para destituir o presidente hereditário e inverter as alianças. O problema foi que ele não quis ir embora (também não tinha para onde ir!), e tinha fortes apoiantes. Resultado: uma guerra civil sem solução à vista.
Eis senão quando surge Putin com uma forte determinação em apoiar Bashar Al-Assad. E sem regatear meios: para já, ataques aéreos; o resto, virá depois. Não lhe faltarão voluntários (e conscritos também) para pôr as botas no terreno. Bem vistas as coisas, sem apoio comparável por parte dos EUA e da CE, a sorte dos insurretos parece selada.
Claro que Bashar Al-Assad não é nenhum santo; mas aqui foi seguida outra norma da política externa americana. Houve um Secretário de Estado que, quando lhe fizeram notar que determinado ditador da América Central era um facínora, respondeu: é um filho da mãe, mas é o “nosso” filho da mãe…
Quanto às populações, estão fora de questão. Foi-lhes dito que, com um pequeno esforço, se livrariam do tirano. Tal como acontecera com os curdos, durante as guerras do Iraque: foram moeda de troca. Como a revolta não venceu, agora terão de escolher entre ficar entre dois fogos ou fugir para a Europa.
Isto significa dividir a Comunidade Europeia, minar-lhe as finanças, perturbar o seu tecido social e diminuir a sua capacidade de intervenção. Para mais ajuda, os americanos avisaram que deixariam de treinar os rebeldes (novo nome dos opositores ao regime sírio).
Em pano de fundo, enquanto a Europa tenta resolver este imbróglio, e a América se retira, a questão da Crimeia passa a fato consumado e o Donbass seguirá o mesmo caminho…
Diga-se, de passagem, que custa a entender por que razão a Crimeia, com mais de 70% de russos, não pode decidir o seu destino, enquanto os independentistas catalães, com menos de 50%, são olhados com simpatia…
A iniciativa e capacidade de intervenção de Vladimir Putin só podem surpreender os distraídos. Há muito se vinha notando a ascensão do nacionalismo russo. Como demonstram alguns dos escritos de Svetlana Aleixeivich, Prémio Nobel de Literatura de 2015. Ou, mais uma vez rebuscando na memória, lembrando que à II Guerra Mundial chamou-se, na União Soviética, a Grande Guerra Patriótica; ou que, quando do ataque nazi de 1941, Estaline, para mobilizar a resistência ao invasor, não se coibiu de evocar os heróis russos (Alexandre Nevski, Mikail Kutusov, Dimitri Donsköi, Kuzma Minine), sem bem que sob a bandeira de Lenine.
Ou seja, existem constantes históricas que determinam as atitudes dos povos, independentemente dos regimes políticos. E não são estes sempre transitórios?
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Mas uma coisa é certa: em várias frentes, Vladimir Putin está a… “empurrá-los para trás”.

Nuno Santa Clara

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