A esquerdaPor Nuno Cavaco
Moita

Por Jornal Rostos
Nos nossos dias são cada vez mais aqueles que afirmam que as diferenças entre esquerda e direita estão esbatidas, que essa grande separação ideológica não faz qualquer sentido. Curiosamente esses são os mesmos que se afirmam europeístas. Segundo estes democratas só poderá haver um projeto, uma única Europa e todos nós devemos aceitar tudo e mais alguma coisa para não amedrontar os nossos parceiros e os mercados.
Acontece que a realidade supera quase sempre a ficção. Nos últimos dias o país percebeu que as eleições legislativas são para eleger deputados e não para eleger um primeiro-ministro. Os portugueses perceberam também que é possível fazer diferente, que poderão existir vários projetos e que as propostas de todos os quadrantes políticos têm validade. Significa isto e na prática, que existe esquerda e direita e que nem todos temos a mesma ideia de Europa, do mundo, de Portugal e até da nossa Freguesia.
Uma outra nota vai para a Constituição da República Portuguesa que tão mal tem sido tratada e que é usada muitas vezes quando dá jeito e quando não dá fica na estante. A Lei Fundamental, a mãe de todas as leis, é o garante da democracia e não tem escrito em nenhum artigo que qualquer direito ou dever fundamental deve ser subjugado aos interesses de outro país ou dos mercados.
Ora bem, a esquerda e a direita, a afirmação destas diferenças, só poderá contribuir para o enriquecimento da nossa sociedade e assim contribuir para o enriquecimento do debate Europeu e da democracia, se este mesmo debate for feito segundo a lei e a decência.
Uma linha que defenda o trabalho, o emprego com direitos, os serviços públicos como modo de alcançar a a igualdade de oportunidades, a justiça, a justiça fiscal, a saúde, o ensino, a proteção social e consequentemente a soberania nacional é uma linha de esquerda, que poderá assumir algumas variantes como aquelas que tocam na produção nacional como base da soberania, passando assim a ser uma política patriótica e de esquerda. Esta linha é compatível com a Europa, com uma outra Europa, uma Europa dos povos, uma Europa de justiça. Esta esquerda distingue-se claramente da direita, que nos últimos anos assumiu uma postura de ataque à política, materializada com a célebre frase “Quem paga, manda”. Para a direita a economia está acima da política e os mercados devem ditar as regras da política. E é precisamente esta política de direita que está a matar a Europa. Uma Europa desequilibrada pelos mercados e pelas políticas que os beneficiam e que em termos do cidadão se traduz por um salve-se quem puder contrariando os princípios fundamentais da Constituição da nossa República Portuguesa.
Em Portugal está cada vez mais claro que a política é o palco de todos, o fórum da discussão dos nossos problemas e que esta discussão mostra claras diferenças entre a esquerda e a direita, entre o continuar abanar a cabeça e a austeridade e a criação de uma rutura, de uma viragem. A política deve ser exercida por todos e deve criar espaços conscientes de participação aos cidadãos. As pessoas devem participar na construção do seu futuro. E foi esta Europa que os afastou. Que não lhes perguntou se queriam uma moeda única ou se aceitavam regras impostas por fora à sua terra e às suas vidas. Uma Europa que exclui incluindo não pode ser uma Europa de todos e muito menos uma Europa Democrática.
A esquerda hoje tem a oportunidade de construir os alicerces de um mundo melhor. Um mundo para as pessoas assente na justiça e na participação. A esquerda por oposição à direita deve criar as condições para que todos possamos participar na construção do futuro.
É portanto urgente debater e construir uma política de esquerda, um novo caminho, um caminho diferente no sentido de trabalharmos para a melhoria das condições de vida do nosso povo e de forjarmos uma nova Europa, uma Europa dos povos, que terá de ser reconstruída em cima das cinzas desta Europa dos Mercados e dos Diretórios.
A Esquerda tem muito a fazer e a direita muito a explicar!
Nuno Miguel Fialho Cavaco
Militante do Partido Comunista Português
Membro da DORS do PCP













