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Colunistas

«Dezembro»Por Cláudia Russo
Barreiro

Fazem-se jantares de Natal com todos e mais alguns. Com os amigos (esses percebo), os colegas: da escola, do ginásio, do trabalho. Com os daqui e dali. Mais de meio mundo fere-se, não comunica, não se coloca no lugar do outro, não trabalha em equipa… uma panóplia de situações que “cessa” em Dezembro. Dá tréguas.
Em Dezembro o mundo pára. A crise não se faz lembrar até Janeiro do ano seguinte.

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«Dezembro» Por Cláudia Russo Barreiro

Por Jornal Rostos

Mês difícil este! Ambivalente.
Quer queiramos, quer não, o Natal invade-nos o imaginário e reflecte-se nas nossas emoções. Recordações.
Quando somos crianças é mágico. Aguardamos o Sr. das barbas, com o seu fato vermelho e a descida demorada, entre a hora do jantar e a meia noite, pela chaminé. Aguardamos ansiosamente a sua chegada. E que venha com o saco recheado! Resta ver de quê. Somos crianças e, o desconhecido e a história, fazem-nos criar um mundo bonito e surpreendente. Nem sempre.
Desde o mais religioso ao maior ateu, numa sociedade maioritariamente vinculada à cultura do catolicismo, esta época manifesta-se incrivelmente sensível. Pelo menos aos que se auto-determinam Humanos.
Somos invadidos pelo apelo à solidariedade, pela necessidade, pelos apelos hipócritas e pelo oportunismo sincero. Sim! Somos invadidos por sensações de dívida social, por termos família, jantar ou emprego. Somos conduzidos a ajudar o outro, como se o outro só existisse agora. Como se o que lhe dou hoje fosse suficiente para sempre!!! Mas isso, depende do que lhe dou.
E o resto do ano??? Não estarão sós e ao abandono os mesmos que alimentamos em Dezembro?
E porquê nós? Eu e tu. Porque estão estas pessoas à mercê de quem os pode ajudar “muito”, mas com tão pouco? E se outros, aqueles que têm tanto, olhassem de verdade, em vez de virar a cara, para esta realidade?
Dar-lhes-iam o mundo, talvez! Mas apenas se vissem!
De onde provém a insensibilidade daqueles que não olham o outro, não o encaram e, consequentemente, não se compadessem com a sua realidade?! Onde está a compaixão dos que passam alheios aos males que infligem?
De que é feito o rico? De que matéria? Porque lhe dá a sua riqueza um alheamento tão grande do que é ser-se Humano?!
O dinheiro corrói. Mancha a nobreza dos Homens. Torna as boas atitudes em acções voláteis e sem coerência, sem consistência. São mais fáceis, mas não acontecem.
Esta sociopatia a que estamos expostos é a doença da Humanidade.
E por isso, para minorar os danos de 341 dias, eis que por um deles, têm-se 24 dias do ano de vivência humanista e de atitudes compassivas.
Fazem-se jantares de Natal com todos e mais alguns. Com os amigos (esses percebo), os colegas: da escola, do ginásio, do trabalho. Com os daqui e dali. Mais de meio mundo fere-se, não comunica, não se coloca no lugar do outro, não trabalha em equipa… uma panóplia de situações que “cessa” em Dezembro. Dá tréguas.
Em Dezembro o mundo pára. A crise não se faz lembrar até Janeiro do ano seguinte.
Afogamo-nos em coisas. Materialismos. Mas mais felizes, alegamos. Tudo por uma noite de felicidade.
Damos aos “filhos” todas as compensações materiais que possam fazer parecer menor a nossa ausência anual. Satisfazemos desejos. Efémeros. Rasga-se o papel e está tudo igual.
Não aprendemos a amar, a partilhar, a estar juntos, a comunicar. Apenas sabemos que temos mais qualquer coisa para nos encher a casa, mas nunca a alma.
A alma conforta-se com a presença dos nossos. Nesta noite e nas outras todas.
A alma alimenta-se do amor que recebe todos os dias. O “Meu” pensamento simbólico cresce com a experiência vivida e sentida.
O Natal, em qualquer religião (mesmo nas que não celebram “Natal”), ou na ausência de experiência religiosa, não é apenas uma data de solidariedade imposta ou condicionada. Ou altura de esquecer a crise.
O Natal é viver rodeado do que importa. De quem importa. Valorizando mais que as prendas, o presente. Tempo de valorizar quem está connosco. Tempo de perceber que ser Humano dá tanto trabalho como lutar para evitar sê-lo.
O Eu cresce em tamanho e experiência pelo que sente e partilha.
Por isso, "Dezembro" é todos os dias. Só assim fará sentido existir!

Cláudia Russo,
Psicóloga Clínica e autora do blogue Senso Divergente

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