Dupont & DupondPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Estes nomes podem ser inteiramente desconhecidos para as novas gerações. Não assim para a minha geração: estes nomes correspondem aos dois célebres detetives, figuras incontornáveis das histórias do Tim-Tim. Nessa época, os jovens portugueses (pelo menos os das classes urbanas) dividiam-se em dois “partidos”: os leitores do “Cavaleiro Andante” (onde imperava o Tim-Tim), e os do “Mundo de Aventuras”.
Ora, o traço dominante dos Dupont e Dupond (às vezes também chamados os Dupondt) era a sua estupidez. Repetiam-se, embrulhavam as frases, e exprimiam-se em regra por chavões e lugares comuns. E um deles era a sua receita para a resolução das investigações: cherche le crime à qui profitte, ou seja, procura a quem aproveita o crime.
Apesar deles, o princípio estava correto, e é usado por todas as polícias. Então, onde estava a falha dos Dupondt? É que não basta conhecer as regras: é preciso saber utilizá-las. Se me permitem a comparação, não basta saber a tabuada de cor e salteado para resolver problemas, mesmo na escola básica.
Posto isto, passemos à atualidade. Uma notícia que passou quase despercebida (embora houvesse quem que se esforçasse por a trazer à ribalta) foi a greve dos estivadores, cujo efeito quase imediato foi o anúncio de que um grande armador deixaria de utilizar o porto de Lisboa.
Parece algo insólito: num período de certa acalmia social, natural pelas expectativas criadas pela entrada em funções de um novo Governo, esta greve aparece, de certo modo, em contra-corrente.
A palavra mais invocada nos últimos tempos é estabilidade. A sua necessidade tem sido invocada, tanto pelos defensores de uma solução passando pela continuidade, como pelos que apostam na necessidade de uma inversão de rumo. Notável convergência!
Este fait-divers (chamemos-lhe assim) tem, portanto, algo de insólito.
Fazendo uma nova digressão por outras realidades, vamos tentar encontrar um certo paralelismo noutro fenómeno nacional: o futebol. Ou seja, um dos três “efes” da velha trilogia do antes do 25 de Abril.
Há já muitos, muitos anos, quis assistir a um jogo da Seleção Nacional. Não era espectador frequente dos estádios, mas a fibra patriótica falou mais alto. E assim lá rumei ao estádio, na mira de uma participação mais ativa na afirmação de um certo nacionalismo (penso que saudável). Só que o jogo não era do Estádio Nacional, mas no de um dos clubes de Lisboa.
Eis senão quando me disseram na bilheteira: agora, só temos bilhetes para os sócios do clube. Bem invoquei a minha condição de sócio da Seleção Nacional, exibindo o meu bilhete de identidade. Nada feito: não em deixaram entrar – e nunca mais fui à bola.
Este incidente tem algo semelhante com as querelas que opõem os interesses dos clubes aos da Seleção Nacional. E não vale a pena argumentar: se o clubismo fala mais alto, o coletivo que se lixe.
Voltando ao tal fait-divers, se atentarmos aos prejuízos para o País decorrentes do abandono do porto de Lisboa pelo maior armador europeu, é caso para perguntar quem beneficia com a atitude tomada. É que menos cargas e descargas significam menos trabalho…
Voltando aos inefáveis Dupond e Dupont, e às diligências feitas para que o assunto fosse mediatizado (estranhamente, não foi), se queremos ter uma explicação para tudo isto, o melhor é aplicar o consagrado princípio: cherche le crime à qui profitte…
Nuno Santa Clara













