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A facaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Os tempos são outros, mas há algo de semelhante: só há facas de um lado, e gritar que “eles” podem ter uma faca só lhes legitima as facadas, que podem ser dadas sem perigo de resposta simétrica.
As curiosas subidas das taxas de juro e as sugestões de novas alterações ao Orçamento são o resultado disso.

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A faca Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Desde sabe-se lá quando, existe uma tendência nacional: agravar as crises e tensões pela sugestão do pior caso, sugestão essa feita no momento mais inconveniente.
Complicado?
Se, à partida, esta asserção pode parecer desprovida de realidade ou mesmo de sentido, nada melhor que um exemplo concreto para melhor explicitar a ideia.
Sempre que, nas nossas vilas e aldeias, se desencadeava uma rixa (manifestação natural de quem não tinha muitas outras formas de expressão), tomavam-se partidos, tentava-se separar os antagonistas, mobilizava-se a comunidade e por fim todos participavam, desde o simples e pacato testemunho até ao tomar parte ativa na manifestação de violência.
Mas, acima de tudo, havia uma ação, aparentemente inócua, que determinava o desfecho da contenda. Alguém, de entre a multidão, gritava: cuidado, que ele pode ter uma faca!
Era o suficiente: o eventual detentor de uma faca, que até aí nem se tinha lembrado dela, sacava da dita e acutilava o adversário, com uma sanha completamente desproporcionada à questão em jogo; o outro, por sua vez, se não tivesse instrumento cortante, alguém lho providenciaria, e assistia-se, como num cenário de Clausewitz, à ascensão aos extremos, ou seja, até ao píncaro da violência.

E, assim, algo que poderia ter sido resolvido com umas lambadas, seguidas talvez de uma reconciliação abundantemente regada com uns fartos copos (em tudo semelhantes aos que estariam na origem da contenda) passava a ser um crime de sangue, com reflexos na vida de várias famílias, até mesmo para gerações futuras.
Tudo pela sugestão atávica e perversa: ele pode ter uma faca!
De algum modo, na nossa praxis política há sempre alguém que grita, de forma algo semelhante, que “eles” podem dar cabo disto. Com a mesma origem atávica e perversa: no fundo, esperando que “eles” deem mesmo cabo disto, para gerir os despojos da catástrofe.

Não posso deixar de frisar um antagonismo entre os “eles” que aqui refiro e os “eles” de Tartarin de Tarascon, o anti-herói criado por Alphonse Daudet. Os de Tartarin, eram puro fruto da sua imaginação; os nossos, todos os conhecemos, dos jornais, da televisão, dos livros, e são bem reais.
O problema é que “eles” não precisam, à partida, que alguém lhes grite uma sugestão maléfica. Sabem bem o que querem, como magistralmente cantou Zeca Afonso:

“Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada,
Eles comem tudo, eles comem tudo,
Eles comem tudo, e não deixam nada.”

Aqui temos portanto outra referência a “eles”, mesmo com a contenção que a época impunha…
Mas se as tais comadres se encarregam de esganiçar que “eles” podem ter uma faca (embora para outros cortes), isso só serve para legitimar as facadas, mas agora apresentadas – vejam só! – como legítima defesa.
Curiosamente, nada de novo: nos primeiros anos da Ditadura Militar (1927-1928) a Liga de Paris, que reunia algumas das figuras-chave da deposta I República (que ficaram conhecidas como os Budas), fez o que pôde para impedir o empréstimo externo solicitado pelo novo governo em exercício, declarando mesmo que, se os exilados regressassem ao poder, não honrariam o contrato, confundindo assim Estado com Governo; logicamente, perderam toda a credibilidade. Esqueceram-se de que não tinham uma faca.

Os tempos são outros, mas há algo de semelhante: só há facas de um lado, e gritar que “eles” podem ter uma faca só lhes legitima as facadas, que podem ser dadas sem perigo de resposta simétrica.
As curiosas subidas das taxas de juro e as sugestões de novas alterações ao Orçamento são o resultado disso.
Será que, como da outra vez, os modernos “Budas” ficarão desacreditados? Infelizmente, não parece. É que “eles” não só têm a faca, como o queijo, na mão.
E se alguém tem a faca e o queijo na mão, deveria ser do mais elementar bom senso procurar defender o queijo, e não referir a faca.

Nuno Santa Clara

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