De Azul e BrancoPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Quando, abruptamente, tive de me aposentar, dei alguns objectos de trabalho, entre eles um belo livro de Jorge Amado para crianças / para todos nós, “A Bola e o Goleiro”, numa história de futebol e amor cativante, inesquecível, acompanhada por um interessante texto em imagens de Kiko Farkas. Na impossibilidade de citar a pequena obra, encontrei um resumo, num sítio da Internet, “Companhia das Letras” (1), que, com o devido respeito, não resisto a transcrever:
“O goleiro Bilô-Bilô era de uma incompetência espantosa debaixo das traves. Jogava num time fuleiro e colecionava apelidos vexaminosos: Mão-Furada, Mão-Podre, Rei-do-Galinheiro. A bola Fura-Redes, por sua vez, era a alegria dos artilheiros. Fazia gols olímpicos, de letra, de bicicleta, de folha-seca. E seus apelidos eram aclamadores: Esfera Mágica, Pelota Invencível e Redonda Infernal.
Nesta narrativa infantil, escrita em 1984, Jorge Amado conta como dois personagens que costumam viver às turras podem se apaixonar. Aqui, a imparcial Fura-Redes encontra o desastrado Bilô-Bilô, e passa a viver um dilema: terá a ousadia de impedir o milésimo gol do Rei do Futebol para aninhar-se nos braços do amado?”
Ao recordar Jorge Amado, um dos melhores cultores da nossa Língua, evoco Pelé, também aludido em “A Bola e o Goleiro”, para mim o melhor jogador que a televisão mostrou. E, entre os artistas do Barreirense, no “Manuel de Melo”,
recordo quatro (três rumaram a Lisboa, Faia a Coimbra, todos para prestígio, ainda maior, da nossa então vila ribeirinha): Carlos Gomes (tão pequena era!), Faia, José Augusto, amigos do meu saudoso tio António Horta, Bento (o fenomenal golo de um guarda-redes à Académica, na baliza junto ao topo sul!).
Perpassam muitos outros de várias agremiações - não explicitados porque seria injusta qualquer omissão.
Caminho até aos dias de hoje e pergunto-me se Ronaldo não ganhará mais “Bolas de Ouro” porque o colectivo do Barça colabora com o outro génio, Messi, de forma fantástica (claro que prefiro o madeirense, mandam intelecto e afectos)? Caminho até aos dias de hoje; fico incrédula com a mestria de tantos e tantos nomes.
Em Portugal, revejo equipas excelentes, como várias do Futebol Clube do Porto que lindas conquistas internacionais deram à instituição nortenha (da qual também sou associada), ao nosso País. Olho para os actuais, quase todos incompetentes, praticantes que nem no Estádio do Dragão se salvam, (antes pelo contrário?), entre um ou outro, raro, melhor; nem quero que volte até mim a tristíssima figura, na Taça da Liga / Lucílio Batista, da penosa época (balnear?) 2015-2016. Perplexa, pergunto-me: - Por aquelas bandas, não há gestão, não há treinadores, não há futebolistas com vontade de mudar? Com talento para mudar?
Como todos os grandes clubes, como todas as grandes formações passam por fases complicadas, aguardo, apesar de impaciente, que a nortada virada do avesso mude, ao invés do gáudio dos meus amigos de cores vermelha ou verde, eufóricos, na expectativa da crise portista levar muito tempo, manter-se.
Se, em Campanhã, escasseia, pontualmente, amor ao Clube, leia-se “A Bola e o Goleiro”, graciosa paixão pelo desporto-rei que talvez desperte mais vontade de contratar melhor, preparar melhor, ser melhor, no rectângulo mágico.
Manuela Fonseca
Referência
(1) www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=40474, consultado em 9-4-2016.













