VIAGEMPor Kira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Pedro preparou as malas e vestiu o fato de todos os dias. Quando fechou a janela do quarto soube que as estrelas já estavam longe levadas pela brisa fresca da manhã. Desceu as escadas com os passos suficientes para a rua e tomou o rumo da estação. Os barcos e a voz grande de muita gente dissolveram Pedro. Era o tempo de passagem nas ondas do rio. Em breve a cidade grande e Inês.
O sol voltou as costas a Pedro quando este chegou e, na cidade uma gaivota riscou o céu deixando cair um girassol. Pedro encostou-se a um candeeiro e espetou os olhos por cima dos ombros de toda a gente à procura de Inês que estaria ai, decerto â sua espera.
Na praça as mulheres da fruta enchiam por completo todo o barulho da manhã. Os vendedores ambulantes – outros – esticavam os fios do megafone e davam início à venda de rádios e revistas: é o Terreiro. Os guardas ainda não vieram, estão à vontade os vendedores de banha da cobra, enquanto um cigano tenta vender o seu primeiro par de sapatos. Os olhos de Pedro estão nisto tudo e tão longe…Inês !
Inês aparece dois anos depois. Traz nos braços um ramo de rosas vermelhas: foi o tenente na reserva que lhas deu pelas calças ,ancas apertadas que Inês costuma usar, ainda ontem.
-Gostas? perguntou. E do um vestido de bolas, estreei-o hoje mesmo. E dos meus olhos pintados como querias ? Estou bonita para ti ? Toma Pedro estas rosas são para ti.
- Inês !
- Tambem gostas de me ver com o anel que me deste ?
…Inês, olho-te na cor imensa do céu do sol sei todos os segredos da luz no teu rosto. Salvé, amor!
E beijaram-se.
-Estou contente por ti Pedro. O tenente da voz grossa de muitos anos não sabe que vim! E pediu a Pedro UMA ESTRELA. Pedro estendeu o braço a agarrou a estrela atrasada daquela manhã, e ofereceu-lha. Inês segredou-lhe que o amava. Pedro riu-se !
-Gostaria de viajar até um planeta onde exista apenas uma velha. Gosto de velhas e da sua longa idade, sabes ? Nunca denunciam ninguém! Uma velha habituada a musas e poetas…
Lembro-me tão bem…do Fernão Capelo Gaivota e da estrela, da viagem nas asas e da distancia tão longe, do planeta da velha de 180 anos! Lembro-me de termos tocado a campainha, a medo e da porta se abrir de súbito. Lembro-me da Inês me apertar o braço, nervosa, das luzes da sala e da penumbra do quarto, de uma vez no leito descerem do teto odaliscas de vermelho e azul e cítaras de longos e ágeis dedos em música de flores…e dos peitos nus de Inês, dois girassóis de veludo, da paisagem penetra nos nossos corpos quentes em remoinhos de repetição e suspiros. Hoje, amanhã, depois…tantas vezes.
Lembro-me de lhe ter dito que um dia escreveria nos meus versos o poema do seus olhos agora húmidos de mim, do seu vestido vermelho de bolas e que os seus beijos roubados seriam o fim do meu livro.
Que tonto ! Apenas sei consultar o relógio por causa dos barcos que trazem os namorados a horas certas de chegada.
Nunca mais a vi!
Disseram-me que tinha casado com um passageiro.
kira













