Obrigada, AvôPor Manuela Fonseca
Barreiro
O avô Fonseca, o único que, como sabem, conheci, homem indomável contra o fascismo, físico imponente, chamava-nos para nos sentarmos à mesa da casa-de-jantar – a avó, a tia Conceição, o marido, tio António, a minha mãe, o companheiro ausente nas viagens – para a audição de programa da BBC contra a ditadura (se ouvia, também, a Rádio Moscovo, ignoro-o): a bengala apontava o órgão de comunicação social britânico que correspondia às suas expectativas, bem como às de tantos compatriotas, ansiosos por Liberdade.

Por Jornal Rostos
Infância na Rua Dr. António José de Almeida, onde nasci e vivi até ao primeiro ano do meu filho mais velho; lá moravam os parentes mais chegados; dividia-me por seis casas, inclusive as da Maria João e João Manuel, irmãos de criação.
Subindo e descendo a cobertura do poço, o João Manuel, miúdo já com jeito para os sons musicais que, posteriormente, desenvolveu com o hoje célebre António Manuel Pinheiro da Silva, Tó, eu em escuta quase religiosa. E havia o Mimoso, cão que a D. Ludovina tão bem tratava; num estranho dia, o maroto ferrou-me sem nada lhe ter feito.
Geminada, a norte, outra habitação: às vezes, a Maria Arminda e o Joaquim António iam para junto de nós e a diversão aumentava. Como era bom termos os quintais!
Um pulo: três portas depois, a Maria João, com competências certamente herdadas da mãe, em belos trabalhos manuais que, pouco dotada nessa área, lhe admirava. Outras vezes, à janela da rua, olhávamos as carroças puxadas pelos animais do Cuca, muitas vezes em sofrimento provocado por ele e os ajudantes, o primeiro infligido a quadrúpedes que nos chamou a atenção.
Ao lado, a Josélia, Zelinha, e os teatros que criava, integralmente, a que já me referi, no rostos.pt, um espírito de condução notável para a idade. As residências de ambas eram servidas por um pátio, “o patinho”, e ali nos juntávamos à Elsa e à Marta (a Maria Guilhermina ausente), em figuração de mães e filhos, escassos os bonecos que levávamos; meus, a Orquídea Maria, a Fi-Fi, o ursinho de peluche, conseguido pelo pai, na Baixa, em Lisboa.
Quanto àquele, um dia, o lojista fez ao papá um grande desconto para, feliz, dar-me tal miminho, o profissional emocionado com as vezes que o via a olhar para ele – sempre que tinha o descanso semanal, rumava à capital para olhar para o brinquedo, pouco dinheiro para o comprar.
Muito chorei quando, sei lá como e porquê, empurrei os olhos de uma delas, caídos para o interior da “menina”, já sem graça após o arranjo – nunca mais se mexeram.
E assim andou o tempo, na primeira metade da década de sessenta: pais, avós, tios, primas-irmãs / madrinhas sempre cuidadosos e exigentes – se aborrecia uns, fazia queixas deles aos outros, em alarmantes, aflitivos e manhosos gritos.
O avô Fonseca, o único que, como sabem, conheci, homem indomável contra o fascismo, físico imponente, chamava-nos para nos sentarmos à mesa da casa-de-jantar – a avó, a tia Conceição, o marido, tio António, a minha mãe, o companheiro ausente nas viagens – para a audição de programa da BBC contra a ditadura (se ouvia, também, a Rádio Moscovo, ignoro-o): a bengala apontava o órgão de comunicação social britânico que correspondia às suas expectativas, bem como às de tantos compatriotas, ansiosos por Liberdade.
Colocava-me debaixo do móvel citado e ele, de imediato: “A miúda tem bicho-carpinteiro…” (Parece-me que sofri sempre do mal.)
Homem exemplar e multifacetado, aqui o homenageio, mestre de vizinhos nos acordes de bandolim, instrumento herdado pelo filho mais velho e homónimo, autor dos meus dias, no Bilhete de Identidade a designação, acrescida de Júnior, colega da profissão que a família Fonseca conhecia de cor e tanto prezava.
O bandolim está comigo: embora ignorante musical, amo Apolo e recordo, amiúde, excertos das “Czardas” de Monti que o progenitor tocava.
Para concluir a evocação de Cristiano da Fonseca, Homem que um dia, furioso contra uma injustiça de um director, engenheiro – cujo nome não registo mas sei –, postado à sua frente, disparates na boca, saltou da locomotiva, no Depósito de Máquinas – ignorado e desprezado de modo ignóbil depois de muita vida e trabalho dados ao Barreiro –, o martelo que utilizado na mão, atónitos o superior hierárquico (porventura ciente do disparate cometido) e os camaradas de trabalho, um pequeno texto, quase integral, colocado em página pessoal do “Facebook”, no dia 18 do corrente:
“No início dos anos 60, o meu avô Fonseca saiu para a última ida à rua, ao Manuel de Melo (Barreirense-Olhanense), campo cheio, silêncio, respeitoso, quando entrámos. O espírito de luta contra a ditadura e a doença (…) o mesmo com que foi Barreirense. Que chegou até hoje e trouxe os diplomas e emblemas dos 25 anos como associados dos meus filhos. Os Drs. José Paulo Rodrigues, ao lado do meu marido (o pai pelo Filipe), (…) Victor Castro Nunes, ao lado do Rui Sérgio, respectivamente presidentes da Direcção e Assembleia Geral, deram-nos a honra desta foto Sousa Pereira (…), como figuras, maiores, do Clube. Obrigada, avô. Viva o Barreirense!”
Manuela Fonseca
Subindo e descendo a cobertura do poço, o João Manuel, miúdo já com jeito para os sons musicais que, posteriormente, desenvolveu com o hoje célebre António Manuel Pinheiro da Silva, Tó, eu em escuta quase religiosa. E havia o Mimoso, cão que a D. Ludovina tão bem tratava; num estranho dia, o maroto ferrou-me sem nada lhe ter feito.
Geminada, a norte, outra habitação: às vezes, a Maria Arminda e o Joaquim António iam para junto de nós e a diversão aumentava. Como era bom termos os quintais!
Um pulo: três portas depois, a Maria João, com competências certamente herdadas da mãe, em belos trabalhos manuais que, pouco dotada nessa área, lhe admirava. Outras vezes, à janela da rua, olhávamos as carroças puxadas pelos animais do Cuca, muitas vezes em sofrimento provocado por ele e os ajudantes, o primeiro infligido a quadrúpedes que nos chamou a atenção.
Ao lado, a Josélia, Zelinha, e os teatros que criava, integralmente, a que já me referi, no rostos.pt, um espírito de condução notável para a idade. As residências de ambas eram servidas por um pátio, “o patinho”, e ali nos juntávamos à Elsa e à Marta (a Maria Guilhermina ausente), em figuração de mães e filhos, escassos os bonecos que levávamos; meus, a Orquídea Maria, a Fi-Fi, o ursinho de peluche, conseguido pelo pai, na Baixa, em Lisboa.
Quanto àquele, um dia, o lojista fez ao papá um grande desconto para, feliz, dar-me tal miminho, o profissional emocionado com as vezes que o via a olhar para ele – sempre que tinha o descanso semanal, rumava à capital para olhar para o brinquedo, pouco dinheiro para o comprar.
Muito chorei quando, sei lá como e porquê, empurrei os olhos de uma delas, caídos para o interior da “menina”, já sem graça após o arranjo – nunca mais se mexeram.
E assim andou o tempo, na primeira metade da década de sessenta: pais, avós, tios, primas-irmãs / madrinhas sempre cuidadosos e exigentes – se aborrecia uns, fazia queixas deles aos outros, em alarmantes, aflitivos e manhosos gritos.
O avô Fonseca, o único que, como sabem, conheci, homem indomável contra o fascismo, físico imponente, chamava-nos para nos sentarmos à mesa da casa-de-jantar – a avó, a tia Conceição, o marido, tio António, a minha mãe, o companheiro ausente nas viagens – para a audição de programa da BBC contra a ditadura (se ouvia, também, a Rádio Moscovo, ignoro-o): a bengala apontava o órgão de comunicação social britânico que correspondia às suas expectativas, bem como às de tantos compatriotas, ansiosos por Liberdade.
Colocava-me debaixo do móvel citado e ele, de imediato: “A miúda tem bicho-carpinteiro…” (Parece-me que sofri sempre do mal.)
Homem exemplar e multifacetado, aqui o homenageio, mestre de vizinhos nos acordes de bandolim, instrumento herdado pelo filho mais velho e homónimo, autor dos meus dias, no Bilhete de Identidade a designação, acrescida de Júnior, colega da profissão que a família Fonseca conhecia de cor e tanto prezava.
O bandolim está comigo: embora ignorante musical, amo Apolo e recordo, amiúde, excertos das “Czardas” de Monti que o progenitor tocava.
Para concluir a evocação de Cristiano da Fonseca, Homem que um dia, furioso contra uma injustiça de um director, engenheiro – cujo nome não registo mas sei –, postado à sua frente, disparates na boca, saltou da locomotiva, no Depósito de Máquinas – ignorado e desprezado de modo ignóbil depois de muita vida e trabalho dados ao Barreiro –, o martelo que utilizado na mão, atónitos o superior hierárquico (porventura ciente do disparate cometido) e os camaradas de trabalho, um pequeno texto, quase integral, colocado em página pessoal do “Facebook”, no dia 18 do corrente:
“No início dos anos 60, o meu avô Fonseca saiu para a última ida à rua, ao Manuel de Melo (Barreirense-Olhanense), campo cheio, silêncio, respeitoso, quando entrámos. O espírito de luta contra a ditadura e a doença (…) o mesmo com que foi Barreirense. Que chegou até hoje e trouxe os diplomas e emblemas dos 25 anos como associados dos meus filhos. Os Drs. José Paulo Rodrigues, ao lado do meu marido (o pai pelo Filipe), (…) Victor Castro Nunes, ao lado do Rui Sérgio, respectivamente presidentes da Direcção e Assembleia Geral, deram-nos a honra desta foto Sousa Pereira (…), como figuras, maiores, do Clube. Obrigada, avô. Viva o Barreirense!”
Manuela Fonseca














