GeraçõesPor Manuela Fonseca
Barreiro
Em conclusão: tratemo-nos bem e à Humanidade (que tanto necessita disso). E arranjemos um tempo de atenção aos animais.

Por Jornal Rostos
O Luís Manuel Carvalho vivia no primeiro prédio da nossa rua, na vivenda da avó materna, D. Ana. Os tios, talhantes, utilizavam o pátio para actividades profissionais e as peles de bovinos eram escorregas que inventávamos – quantos banhos nos deu a mãe, a inesquecível D. Maria Luísa, por causa da sujidade e odor arranjados na brincadeira?
Estragava alguns brinquedos ao rapazinho; assim, conhecedor do meu toque, quando eu batia à porta, chamava a mãe para esconder os restantes (três dezenas de anos depois, Filipe, o benjamim, repetiu-me até o travarmos). Fomos, talvez duas vezes, entreter-nos com a Rosa Dulce e Celso António – uma bóia, colocada na banheira, meia-cheia, fazia-nos passar as horas.
O Ivo morava ao lado da tia Bárbara, Bá – se nos vemos, voltamos à infância. Ao virar da esquina, o João Alberto, na Avenida da República, levava-me, amiúde, à fábrica dos pais, D. Patrocínia e senhor José Gouveia, onde bebíamos deliciosos pirolitos. E ficávamos, que bom, com o berlinde da garrafa.
Cinco dias mais velha do que eu, a Maria José; não morávamos muito perto mas as mães davam a volta à distância entre as Ruas António José de Almeida e Joaquim António d’Aguiar (onde a Zezinha nasceu e da qual só saiu no dia do casamento, cerimónia íntima e bonita).
Manuel (duplo primo da minha, ambos muito orgulhosos do facto) e Hermínia, autores dos seus dias, eram oriundos da Corte do Pinto, aldeia dos avós maternos, por terras de Mértola, a Mina de S. Domingos quase ao lado. Chegaram ao Barreiro, na sequência de linda história de amor que os norteou e ainda agora me comove, os protagonistas ausentes para sempre.
Carpinteiro, brilhante, na Companhia União Fabril, detentor de preciosas mãos, volto a evocá-lo quando vejo / vemos o Paulo André, neto, arquitecto, a produzir beleza no Dubai.
Zezinha: a minha antítese, característica que temos mantido. Tranquila, tratava, na mesa da cozinha, das bonequinhas de cartão, quase planas, em cujas embalagens havia os atavios para a tarefa (facto já referido em página própria do “Facebook”). Suponho que cheguei a levar-lhe as minhas, triste com os recortes executados.
O grande dia chegou ao meu quintal: o inesquecível Chico, cágado-ídolo da miudagem, antracite com pequenos laivos amarelados na carapaça e nas patitas, unhas engraçadas, côncavas. Comia insectos, pedaços de carne crua de bife, passeava, impante, na terra. Tomou banho no tanque da roupa – era colocado lá – até à obtenção de um pequeno recipiente, a piscina; ficou autónomo. Em tempo quente, descansava à sombra do limoeiro ou do pessegueiro; no Inverno, embora convivesse, mexia-se menos. Um precioso entretenimento (a Zezinha recorda-o, de modo fílmico), de que fruíram os que estavam quase sempre comigo, mais a Fernandinha e Rui Horta, Abílio José, Bilocas, e Jorge Filipe, Joca, Fonseca.
Os dois últimos do ramo paterno, em férias, provenientes de Angola (que viu nascer e falecer, muito precocemente, o mais novo), na África que o Abílio José adoptou e o adopta.
O pai tinha trazido o simpático réptil do Alentejo. Eu, que não queria mais animais desde os sete anos por causa da partida do gato Tareco, na casa da Bá, encontrei no Chico o lenitivo para a contrariedade. Encantou-nos até ao falecimento daquele e desapareceu.
Houve mais dois, Ernesto (em homenagem a “Che” Guevara, imaginem!) e Bolota; Hélder João e Luís Fráguas brincavam com eles e considerei-os donos de um. Também o quintal os teria tragado. Ou talvez não…
Correram os anos, muitos. Há alguns, o João Manuel viu, estupefacto, um, na antiga residência. Levou-o para habitação actual, bom local para o neo-aparecido andar. Como teria ultrapassado o poço, fechado, que nos dividia?
Os meus filhos encantaram-se com peixes e tartarugas (uma delas denominada Vítor Baía) pequenos, os possíveis num apartamento, gosto que a Ana Filipa, a neta, experimenta, com as segundas.
Em conclusão: tratemo-nos bem e à Humanidade (que tanto necessita disso). E arranjemos um tempo de atenção aos animais.
(Nota: agradeço à Maria José Horta a partilha de memórias.)
Manuela Fonseca













