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A nova ponte do Seixal (conto)Por Jorge Fagundes
Barreiro

"Sou o génio da garrafa de vidro escuro e, como recompensa de me teres libertado, tens direito a me formulares um pedido, um só, que eu cumprirei integralmente”.
“Tenho mesmo? Então vou pedir-te, em nome dos barreirenses que por tal anseiam há muitos anos, que construas uma nova ponte ligando o Barreiro ao Seixal”.

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A nova ponte do Seixal (conto) Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Tobias Agapito, viúvo de certas posses, tem o hábito de, quase todos os dias, fazer uma caminhada desde a Rua Miguel Pais, onde reside, até aos moinhos de Alburrica.
Para o efeito utiliza os passadiços que ligam aquela rua aos citados moinhos, e, ali chegado, instala-se o mais confortavelmente possível, olhando a tão bonita estação que já foi dos barcos e dos comboios, e, como barreirense que se preza, bem lamenta o estado de degradação a que a mesma está sujeita.
Esta manhã, enquanto reparava num corvo marinho que mergulhava e reaparecia uns metros depois, deu conta da incidência de um raio de sol sobre qualquer coisa que brilhava, ali bem perto das areias da praia.
Intrigado, descalçou os ténis e entrou na água para ver do que se tratava.
“Olha, olha, é uma velha garrafa de vidro muito escuro. E está ainda bem rolhada. Será que ainda tem vinho?”
Apanhou a garrafa e voltou para a praia, curiosamente deserta àquela hora. Com o seu canivete made in China lá conseguiu abrir a garrafa e apanhou um susto tremendo.
Na verdade, da garrafa saiu uma figura hercúlea, de longa barba branca como neve e envolta num túnica que em tempos deveria ter sido amarela.
“Não tenhas medo! Acabaste de me libertar de uma longa reclusão de muitos e muitos anos”.
“Mas quem és tu?”
“Sou o génio da garrafa de vidro escuro e, como recompensa de me teres libertado, tens direito a me formulares um pedido, um só, que eu cumprirei integralmente”.
“Tenho mesmo? Então vou pedir-te, em nome dos barreirenses que por tal anseiam há muitos anos, que construas uma nova ponte ligando o Barreiro ao Seixal”.
“Uma ponte? Não deves estar bom da cabeça! Terei de movimentar toneladas e toneladas de lamas, quiçá poluídas, de ver onde instalo as fundações, de medir a largura e a altura dessa ponte. E pior do que tudo, terei de conseguir ultrapassar a enorme burocracia existente. Mesmo encerrado na garrafa sempre ouvi, em tempos, uma conversa entre dois fulanos, pelos vistos entendidos, que referiam a quantidade de entidades que mandam nestas coisas dos rios Tejo e Coina. Não, mesmo não! Peço-te para substituíres esse pedido por um outro que eu possa cumprir”.
“Assim sendo, lá vai o novo pedido. Quero que me expliques como entender as mulheres, em geral, e, em particular, aquela tão bonita viúva de quem eu tanto gosto, mas que não me liga nada!”
“Bolas para esse teu novo pedido! Assim não vale. Como queres a ponte: pedonal, ferroviária ou rodo-ferroviária?!

Jorge Fagundes

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