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The White man´s burden - «O fardo do homem branco»Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Derrotada nas duas guerras mundiais, a Alemanha compreendeu que só poderia retomar ao seu lugar de potência dominante através de alianças com os seus tradicionais inimigos. E foi isso que fez, graças à Guerra Fria, à política de aproximação à França de de Gaule e ao enfraquecimento da Inglaterra.

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The White man´s burden - «O fardo do homem branco» Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

The White man´s burden

Este é o título de um poema escrito em 1899 pelo inglês Rudiard Kipling, que o dedicou a Theodore Roosevelt, o herói da Guerra Hispano-Americana, mais tarde Presidente dos Estados Unidos da América entre 1901 e1909.
A tradução corrente do título do poema é “O fardo do homem branco”, e constitui um excelente exemplo das teorias que justificaram a expansão colonial europeia no final do século XIX. O fardo do homem branco era dominar, enquadrar e educar os indígenas, pela força se necessário, e trazê-los para o seio da civilização cristã e ocidental, fazendo tábua rasa das suas sociedades e culturas. Isso transparece bem num dos versos do poema de Kipling, quando se refere aos “sullen peoples, half-devil and half-child” (povos mal humorados, meio diabos, meio crianças).
Kipling é entre nós mais conhecido pelo “Livro da Selva”, cujo herói, o menino-lobo Mowgli, continua a fascinar as crianças, antigamente quase só nos escuteiros, hoje em quase todos os meios através da televisão. Mas não deixou de ser um construtor e defensor do Império Britânico. O interesse de Kipling por Roosevelt derivava da importância crescente deste na política dos Estados Unidos, resultado da fama da sua atuação na Guerra Hispano-Americana de 1898. Como resultado deste conflito, em troca derrota dos espanhóis e da libertação de Cuba, os EUA impuseram um semi-protetorado naquela ilha (incluindo o aluguer de uma base em Guantánamo, com início em 1903). No Pacífico, os Estado Unidos tinham igualmente expulsado a Espanha nas Filipinas, afrontando depois os alemães, também interessados em alargar as suas colónias naquelas paragens. A solução foi ocupar o país, o que deu origem a nova guerra, desta vez contra os patriotas filipinos, adiando assim a independência das Filipinas até 1946. O tradicional anticolonialismo americano tinha, portanto, exceções…
Ficou deste modo garantida uma nova área para o mundo anglo-saxónico; do mal ao menos, para Kipling: sempre era melhor do que ficar para os americanos do que para os alemães.
A apetência alemã por colónias era, no final do século XIX, um fenómeno recente. Até à década de 1870, o interesse da Prússia era unificar a Alemanha, primeiro à custa do Império Austro-Húngaro, depois da França. Conseguido esse objetivo estratégico, a opinião pública alemã começou a interessar-se pelo mundo extra-europeu. Contra a vontade do Otto von Bismarck, o “chanceler de ferro”, para quem os interesses da Alemanha estavam na Europa Central, essa Mitteleuropa onde se tinham desenrolado quase todos os grandes conflitos, pelos quais a Alemanha tinha pago um elevado preço, sobretudo na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em que um terço da população alemã foi morta, ferida, roubada ou deslocada.
Conta-se que Bismarck, quando lhe foi levantada a questão da necessidade de colónias, apontou para o mapa da Europa Central e disse: esta é a nossa África!
Enterrado o colonialismo alemão com a derrota na I Grande Guerra, outro chanceler voltou à questão da Europa Central: para Adolf Hitler, o Espaço Vital (Lebensraum) necessário à Alemanha ia do Centro da Europa até ao Cáucaso e ao Volga. A teoria não era dele: foi enunciada pelo geógrafo Friedrich Ratzel (1844-1904), para quem era um princípio assente que “toda a sociedade, em um determinado grau de desenvolvimento, deve conquistar territórios onde as pessoas são menos desenvolvidas”.
Não há grande diferença em relação a Kipling: basta mudar o “fardo do homem branco” para o “fardo do homem alemão”, e aplicar os mesmos princípios.

Decerto o leitor começa a sentir aqui um certo desconforto. Mas, para muitos, a geopolítica é uma ciência feita de constantes, mudando apenas o tempo e o modo de prosseguir as grandes linhas determinadas pela Geografia e pela História, como se a vontade dos Homens não tivesse peso na tomada de decisões e na escolha do futuro.
Derrotada nas duas guerras mundiais, a Alemanha compreendeu que só poderia retomar ao seu lugar de potência dominante através de alianças com os seus tradicionais inimigos. E foi isso que fez, graças à Guerra Fria, à política de aproximação à França de de Gaule e ao enfraquecimento da Inglaterra.
Tal como outro derrotado, o Japão, optou por um baixo perfil a nível militar – até pelos traumas externos e internos da II Guerra Mundial (não obstante ter organizado um Exército de doze divisões bem equipadas, uma Força Aérea moderna e uma Marinha a condizer).
No plano económico a coisa funcionou em pleno, a ponto de a Alemanha ter passado a ser indiscutivelmente o motor da Europa, posição reforçada com a parceria francesa, constituindo aquilo que se convencionou chamar o “tandem franco-alemão”. O curioso é que, do lado francês, foi fundamental a ação do general de Gaule – o arqui-inimigo da Alemanha durante a I Guerra Mundial, entre as duas guerras, e durante a II Guerra Mundial. Uma lição de Realpolitik que faria inveja ao próprio Bismarck…
A queda do Muro de Berlim, seguida da implosão da União Soviética, foram um marcos decisivos para a Alemanha, permitindo alargar para Leste a sua área de influência. Talvez valha a pena recordar a expressão de um político alemão ocidental: nós não reunificamos a Alemanha; anexamos a Alemanha de Leste.
O desmoronar do sistema da Europa de Leste abriu novas perspetivas, já que o vazio criado convidava à ação de quem tivesse maior dinâmica. E lá se foi cumprindo o que muitos consideram um destino histórico, o Drang nach Osten, ou seja, a Corrida para Leste, iniciado pelos cavaleiros teutónicos, continuada de certo modo pela Czarina Catarina II (ela própria alemã de origem) com a introdução de colonos alemães no Volga, e com o expoente máximo na invasão da União Soviética em 1941: uma emigração desta vez organizada em companhias, batalhões, regimentos, divisões, e por aí fora.
O problema está em que, se a Europa de Leste já está acostumada a estas andanças, na Europa do Oeste as recordações da Alemanha são mais ténues, e na Europa do Sul mais amargas.
A crise desencadeada em 2008 com a falência do grupo americano Lehman Brothers pareceu o início de uma reafirmação do núcleo duro da Europa, aparentemente imune àquelas traficâncias. Claro que não foi assim: num Mundo globalizado, se a América espirra, a Europa constipa-se.
Mas o pior estava para vir. Avolumam-se rumores sobre a situação financeira do banco de referência da Alemanha > da Europa > do Mundo: O Deutsche Bank está com problemas. A ponto de já ter sido considerado “o banco mais perigoso do Mundo”.
É natural: conforme diz a sabedoria popular, “maior a nau, maior a tormenta”.
Se o caso não fosse sério, daria para fazer humor: ver a Alemanha ter de intervir com dinheiro dos contribuintes para salvar o Deutsche Bank seria fazer engolir aos alemães uma boa dose do remédio que querem administrar aos outros.
Mas o que interessa aqui é a postura dos responsáveis. Quando confrontado com a questão do DB, o inefável Ministro da Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, respondeu que estava mais preocupado com Portugal…
Isto pode ser interpretado de duas formas: ou a importância de Portugal suplanta as questões do DB (coisa que nos encheria de vaidade), ou estamos perante uma forma de transferir as culpas da má gestão do DB para os “povos mal-humorados, meio diabos, meio crianças”.
Mais mal-humorado pareceu o ministro alemão das finanças quando disse ao seu homólogo francês que seria de encarar a presença de uma troika em França. Nos tempos de de Gaule, isso representaria a demissão dele ou a rotura da União Europeia…
Ninguém vai decerto pensar que a preocupação de Schäuble representa uma inversão das prioridades da Alemanha, passando do Drang nach Osten para o Drang nach Westen. Pelo contrário, penso que se poderia citar o título de um autor alemão, Erich Maria Remarque: A Oeste, nada de novo.
Mas a síndrome do “fardo do homem alemão” parece ter tomado conta de Schäuble, a ponto de inverter prioridades.
Eu sinto uma certa afinidade com ele, mercê do meu contato frequente com deficientes. Schäuble foi vítima de um atentado feito por um psicopata, tendo escapado por pouco. À semelhança de Miguel Bombarda, médico psiquiatra, assassinado por um seu doente, na véspera da Revolução Republicana de 1910. Em qualquer dos casos, tem sido levantada a questão: quem armou a mão do assassino?
Nada impede um deficiente motor de exercer os mais altos cargos governativos. Frank Delano Roosevelt foi Presidente dos Estados Unidos da América entre 1933 e 1945, e exerceu o cargo preso a uma cadeira de rodas. Isso não o impediu de projetar a América para o atual estatuto, através de duas ações fundamentais: o New Deal, que relançou a economia americana, e a participação decisiva na II Guerra Mundial. Demonstrando que as Finanças devem estar ao serviço da Economia, e não ao contrário, e que o isolacionismo é uma atitude suicidária.
Mas há várias diferenças entre Schäuble e Roosevelt.
Roosevelt sabia como relançar uma Economia, tinha respeito pelas pessoas, e tinha melhor feitio.

Nuno Santa Clara

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