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Sweet bird of youthPor Nuno Santa Clara
Barreiro

O triste Chance, militar humilhado, ator falhado, acaba por exercer a mui antiga profissão de chulo de uma atriz em decadência. Nessa qualidade, volta à sua terra, aparentemente de passagem, mas no fundo com a vã esperança de reaver a sua amada, a quem entretanto estragara a vida.

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Sweet bird of youth Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Todos guardamos na memória livros e filmes que nos marcaram. Por uma razão ou por outra, muitas vezes sem motivo aparente ou visível, mas sempre de forma indelével. O porquê disso, deixamos aos psiquiatras e psicólogos, grandes exploradores dos mistérios da alma humana.

Um desses filmes foi Sewet bird of youth, que na tradução portuguesa se chamou Corações na penumbra, vá-se lá saber porquê. Lembrando a fórmula prática do saudoso Raul Solnado, seria o equivalente ao câmbio da moeda: um dólar, trinta escudos. Mas, como o número de palavras era quase o mesmo, nem mesmo essa explicação pode ser invocada neste caso. Adiante.
Esse filme, baseado numa peça de Tennessee Williams (de quem havia de ser?) narra uma história de personagens não muito recomendáveis, qual deles o pior.

O protagonista (não se pode chamar o herói), Chance Wayne, encarnado por Paul Newman, tenta singrar na vida de modo a poder aspirar a casar com a filha do senhor político e económico do condado, Tim Finley, representado por Ed Begley. Notável representação de um grande ator: ele passa perfeitamente a imagem do cacique corrupto até à medula, manipulador de tudo e todos, grande patão na sua coutada. O espertalhão consegue afastar Chance através de várias artimanhas, inclusive recorrendo a um apelo irresistível: o american dream. Hoje não és nada, amanhã, quem sabe…
Só que a passagem de Chance pela vida da filha de Finley tinha deixado rasto.

O triste Chance, militar humilhado, ator falhado, acaba por exercer a mui antiga profissão de chulo de uma atriz em decadência. Nessa qualidade, volta à sua terra, aparentemente de passagem, mas no fundo com a vã esperança de reaver a sua amada, a quem entretanto estragara a vida.
Desta vez, não haverá happy end.

Mas não estamos aqui para contar a história, ainda que valesse a pena, poe edificante para as gerações mais jovens.
O que me marcou não foi o enredo, o romance em si, ou mesmo o descalabro moral dos principais personagens.
Foi a figura de Tom Finley, o DDT, o Dono Daquilo Tudo, e a sua forma de manipular tudo, até conquistar apoio popular, recorrendo a truques variados e a atividades pouco ortodoxas, como a desempenhada por uma organização de juventude (com o seu nome), chefiada naturalmente pelo seu filho, cuja tarefa era calar e intimidar os (poucos) recalcitrantes, além de organizar ações políticas.

O píncaro da atuação de Ed Begley/Finley é, para mim, um momento alto do cinema americano. Em clima de campanha eleitoral, anunciado estrondosamente pela tal organização de juventude, Tom Finley sobe ao palco. Só, sob o jorro das luzes. Sem casaco, segurando os suspensórios em jeito de labrego, faz um sorriso de buldogue, projeta o ventre já de si proeminente, e nada diz. Apenas sorri.
Nos altifalantes, alguém diz: Isto é o que nós gostamos, o nosso Finley!
Delírio na multidão: é um javardo, mas é nosso!
Compreendem a minha fixação nessa cena?

Mais de meio século passado, a história repete-se. Só que, de ficção, passou à realidade, por incrível que pareça.
É certo que a massa dos americanos não se identifica com Tennessee Williams, e que os filmes dos anos cinquenta hoje pouco lhe dizem.
Mas será que não se aprende nada?
Sweet bird of youth, sweet bird of my youth…

Nuno Santa Clara

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