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De gelar os ossosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

De modo que, no estado atual do mundo, temos de um lado quem invista milhares no que pode ser uma quimera, implicando milhares de kilowatts hora (não de dólares; qual será a moeda do futuro?);e doutro quem precise de um frigorífico de campanha ou de umas pedras de gelo para salvar vidas humanas, e não tenha possibilidade de as obter.

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De gelar os ossos Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Talvez por estarmos já a ficar fartos de Donald Trump (embora nem tivesse começado a governar!) a notícia do dia foi o pedido (atendido) de uma adolescente inglesa para ser conservada a baixíssimas temperaturas, de modo a ser preservada até ao dia (hipotético) em que seria descoberta a cura para a sua doença, quando seria “descongelada” e tratada, podendo dar início a nova vida.
A técnica da criogenia não é nova: calcula-se que existam cerca de 270 mortos (?) depositados em câmaras de nitrogénio, abaixo de 150 graus negativos, à espera que uma nova ciência clínica lhes dê esperança de voltar à vida.
Isto faz lembrar um conhecido conto do escritor americano Washington Irving, que imaginou um homem, Rip van Winkle, um anti-herói perfeito, que adormeceu durante vinte anos, e que quando acordou teve uma série de problemas de adaptação. O maior dos quais foi ter adormecido numa colónia inglesa e acordado num América independente…
Imagine-se a dificuldade de adaptação de 100 anos ao ritmo atual, que para cúmulo deverá aumentar exponencialmente durante esse período!
Deixemos aos teólogos, futurólogos, tecnólogos e outros as questões de saber quantos anos duraria a congelação, se a cura seria possível ou não, se esta ação é legítima ou não, e se os sistemas são fiáveis ou não.
O que agora importa são outras questões. Quem opera estes sistemas são empresas privadas que cobram no mínimo 28.000 dólares para realizar a operação, e manter as câmaras em funcionamento. Há casos em que os valores são dez vezes mais. Ou seja, não recorre à criogenia quem quer, mas quem pode.
Depois, a uma empresa privada podem acontecer várias coisas, uma das quais é fechar, por falência, por decisão dos proprietários, ou outra qualquer. Sendo assim, desligam-se as máquinas e assunto encerrado. De nada vale cobrir o risco por um seguro: a seguradora será por certo uma empresa ligada à primeira, seguindo o mesmo caminho.
Para quem não admite a hipótese, relembro a falência do grupo ENRON, em que não só várias firmas foram reduzidas a zero, como também os empregados ficaram sem emprego e sem poupanças, já que estavam investidas em ações da própria ENRON.
Estando as coisas em mãos privadas, o Estado não pode ser responsabilizado por qualquer desaire – e o Governo dos Estados Unidos não o fez no caso ENRON.
E deveria? Não estão em causa vidas humanas, no caso da criogenia? Tratando-se de uma questão humanitária, diria que sim; mas a decisão comporta encargos que o direito comum não prevê. Ou seja, passa de uma questão jurídica para uma questão política.
Primeira questão: as pessoas estão mortas, e foi-lhes passada certidão de óbito. Se “ressuscitarem”, com que estatuto ficarão? Ressuscitado, renascido, nascido? Uma vez que só “nascido” tem existência legal, seria esse o caminho? Resolvido esse problema, terão direito a reaver heranças? Problema tão velho como a Bíblia: se os herdeiros de Lázaro tivessem feito as partilhas, teria ele direito à devolução dos bens, depois de ressuscitado? E só esteve morto quatro dias; como seria ao fim de 100 anos? No caso de Walt Disney, a herança não é pequena…
Segunda questão: uma vez que só os que têm posses, e dentro destes só uma escassíssima minoria recorreu à criogenia, com que base se pode demandar os poderes públicos no sentido de arcar com as responsabilidades de uma decisão pessoal?
Ninguém, em perfeitas condições físicas e mentais, quer morrer. E evitar a Morte tem revestido, ao longo dos tempos, muitas formas, desde o embalsamamento dos faraós à crença na imortalidade da alma. Só que, se num caso é para todos, no caso dos faraós era só para quem podia recorrer à tecnologia das múmias – tal como na criogenia dos nossos dias. Os felás, camponeses pobres, estavam condenados à morte definitiva no antigo Egipto, como os pobres e descrentes nos dias de hoje. Mesmo em regimes assumidamente materialistas, tem sido norma embalsamar os grandes líderes – uma forma atenuada de iludir a Morte.
Outras formas de evitar a Morte aparecem na nossa Literatura. Como escreveu Camões: “Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, e outros em quem poder não teve a morte”. Outra a que concebeu Ferreira de Castro no seu romance Eternidade: através da descendência.
Outras ainda haverá. Mas torna-se perturbadora a luta extremada contra um determinismo biológico que está inscrito no ciclo da Vida, e que leva à tomada de decisões que perecem contrariar a lógica. São decisões pessoais, e que têm um fundo comum: o egocentrismo.
De modo que, no estado atual do mundo, temos de um lado quem invista milhares no que pode ser uma quimera, implicando milhares de kilowatts hora (não de dólares; qual será a moeda do futuro?);e doutro quem precise de um frigorífico de campanha ou de umas pedras de gelo para salvar vidas humanas, e não tenha possibilidade de as obter.
De fazer gelar os ossos…
Nuno Santa Clara
P.S. 1: Parti do princípio que a ressurreição pela criogenia é tecnologicamente viável, e que o negócio é sério; se não forem, é um problema para os tribunais comuns.
P. S. 2: Não resisto a transcrever a sensação de Rip quando voltou à taberna muito sua conhecida: “Contudo, reconheceu na tabuleta a face vermelhusca do Rei Jorge III, sob a qual tinha fumado tantos cachimbos da paz; mas tudo isso estava estranhamente metamorfoseado. A casaca encarnada mudada para outra em azul e camurça, e segurava uma espada em vez do cetro; a cabeça estava ornada por um chapéu tricórnio, e por baixo estava pintado em grandes letras GENERAL WASHINGTON”. Ou seja, tudo tinha mudado, menos a face da política…

Nuno Santa Clara

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