AlternânciasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Uma das questões da semântica moderna é a origem da designação das casas de alterne. Não pela atividade lá desenvolvia – essa, segundo a tradição, é a profissão mais velha do Mundo. Mas a expressão “de alterne”.
Se abrissem dia sim, dia não, ainda se compreendia. Mas estado abertas todos os dias (mesmo os mais santificados!), é difícil discernir as razões do termo.
Ultimamente está em voga o conceito de “verdade alternativa”, mas também é certo que tal conceito emergiu da prostituição das ideias, ou seja, da técnica de inventá-las, torcê-las e vendê-las, conforme dá jeito. O que leva ao mesmo.
Uma das últimas notícias foi a inesperada (ou melhor, repentina) demissão de James Comey de diretor do FBI.
Inesperada não seria: Comey, nomeado em 2103 por Barak Obama por um período de 10 anos, estava na mira de Trump ainda antes das eleições, e por dois motivos:
• Não ter encontrado razões para abrir um processo judicial contra Hillary Clinton no caso dos e-mails;
• Não ter encontrado provas das escutas na torre Trump ordenadas por Obama, segundo o dono da dita, e atual presidente.
Claro que se pode invocar a teoria da conspiração: se foi Obama que o nomeou, o ex-diretor não iria prejudicar o seu benfeitor, nem a sua Secretária de Estado.
Temos assim em confronto o trabalho (que se supõe sério) do FBI contra duas verdades alternativas.
Mas a demissão, lá repentina, foi: ninguém no FBI estava avisado, nem estava preparada a sua substituição. Portanto, o “fired” de Comey foi tão fulgurante como o “fire” dos mísseis “Tomahawk”: caiu com estrondo mundial, causando danos colaterais ainda por determinar. O próprio soube pela televisão que tinha sido despedido, o que faz lembrar os tempos em que (ao que se dizia) os ministros de Salazar sabiam pelos jornais que tinham sido demitidos.
Segundo Trump, o processo de demissão decorreu de uma proposta do Procurador-Geral dos EUA, Jeff Sessions. Este teve quatro anos como militar no Corpo de Reserva do Exército, numa unidade de transportes, tendo chegado a capitão, e foi Procurador e Senador pelo seu Estado natal do Alabama. Pouco mais se sabe dele: a wikipedia dedica-lha algumas linhas. O que contrasta com o longo currículo de James Comey, que também foi procurador, mas esteve também no sector privado e no ensino superior, além de intervenção noutras áreas.
Certo é que, a 3 de maio, depondo perante a Comissão Judicial do Senado, Comey disse que a Rússia é a maior ameaça para qualquer nação do Mundo e que uma das lições aprendidas é que poderia repetir a suas iniciativas, visto que, com as eleições de 2016, o sistema tinha funcionado. Idênticas interferências surgiram nas recentes eleições francesas.
Combinando estas declarações com as investigações, ainda em curso, sobre a ligação dos serviços de campanha de Trump com a Rússia, era de prever o resultado: a 9 de maio era demitido, e da maneira que foi.
De modo semelhante começou o escândalo Watergate, com o resultado que se sabe.
De modo que ficamos à espera da alternância: quem será o escolhido para diretor do FBI? Decerto alguém mais inclinado para as verdades alternativas.
Pode considerara-se uma constante universal a pressão dos dirigentes políticos sobre os serviços públicos em geral, e as informações, a polícia ou o sistema judicial em não escapam a essa tendência. Basta lembrar a tropelias de George W. Bush e Tony Blair e os seus serviços de informação, distorcendo os factos até chegar ao resultado desejado, tendo como resultado a II Guerra do Golfo.
Hoje, dir-se-ia que essa guerra resultou de um acumular de factos alternativos…
Tal como nas casas de alterne se impingem cocktails sabe-se lá de quê, nas verdades alternativas impingem-se políticas sabe-se lá para quê.
Num caso, com perigo para a saúde pública; no outro, com perigo para o Estado Democrático de Direito.
Nuno Santa Clara













