ShanePor Nuno Santa Clara
Barreiro
Depois, surgiram afirmações e negações, por vezes com intervalos de poucas horas, que têm espalhado a perplexidade por todo o Mundo.

Por Jornal Rostos
Este é o nome de um filme de 1953, um daqueles westerns que marcaram tanto a história do cinema como forjaram o nosso modelo de herói, naquela fase da adolescência. Um filme violento, como era o velho Oeste, mas com um fundo moral: os maus são castigados e os bons reconhecidos. E, para melhor compor a lenda, o justiceiro desaparece ao pôr-do-sol, recusando recompensas e evitando conflitos familiares.
Perfeito.
Um dos momentos altos do filme é o duelo entre Shane (Alan Ladd) e Jack Wilson (Jack Palance), o pistoleiro profissional. Este tinha um contrato para matar um a um os pequenos proprietários indefesos, sem condições para dar uma resposta eficaz a um profissional do revólver, nos termos das regras e das praxes que no Oeste se consideravam serem as do cavalheirismo: com um duelo, na rua principal, à vista de todos. Tal como nas ordálias, ou “juízos de Deus”, da Idade Média: o Senhor ajudaria o justo contra o pecador… pressupondo que tinham ambos as mesmas capacidades no uso das armas (o que não era o caso do filme).
Shane tinha de provocar o duelo, e fê-lo insultando Jack Wilson: disse-lhe na cara “I hear you´re a low-down Yankee liar”. Independentemente de o insultado ser nortista ou sulista, chamar mentiroso a alguém era caso para duelo de morte. E assim foi, com a vitória de Shane (a ordália, desta vez, funcionou).
Há mentiras piedosas – sem que deixem de ser mentiras. Pode-se considerar que Bill Clinton entrou por essa via, quando negou o seu envolvimento com Monica Lewinsky. Podia estar a defender a honra duma donzela (?), a salvar um casamento, ou a apenas a defender a sua privacidade. Ou apenas a tentar salvar a pele. Certo é que foi fortemente atacado, mais por não dizer a verdade do que por dar facadas no matrimónio, ainda por cima dentro da veneranda Casa Branca.
Aparentemente, a mensagem de Shane mantinha-se no ideário dos Estados Unidos da América: a mentira é algo de condenável.
Friedrich Nietszsche, o filósofo alemão, escreveu um dia que os seus antepassados godos tinham por dever atirar bem ao arco e flecha e dizer sempre a verdade. Ao que parece, alemães e ingleses, oriundos dessas tribos germânicas, mantiveram ter esse fundo cultural, ainda que atualizando ao arco e flecha para o revólver, e daí a condenação pública de Clinton.
Mas, nos tempos mais recentes, muito tem mudado a América. Primeiro, surgiu o conceito de verdade alternativa, o que, para quem partilha o ADN evocado por Nietszsche, soa como uma heresia.
Depois, surgiram afirmações e negações, por vezes com intervalos de poucas horas, que têm espalhado a perplexidade por todo o Mundo.
Que faria Shane, o protetor dos fracos, o desinteressado pelas recompensas e honrarias, o cultor das virtudes da família, o destemido duelista, capaz de arriscar a vida em nome da Justiça?
Decerto desafiaria o mentiroso, o especulador, o açambarcador, o traficante de influências.
E não seria isso, ao fim e ao cabo, uma demonstração do american way of life, do american dream, e do spirit of the frontier?
Nuno Santa Clara













