ParalelismosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Lisboa, 1755. Um megassismo destruiu a grande cidade (e muitas outras povoações das quais pouco, ou nada, se fala). Uma catástrofe cuja imagem ultrapassou fronteiras, com “réplicas” emocionais que se fizeram sentir em toda a Europa. Até inspirou Voltaire, na criação do seu “Candide”, que incluía uma sátira à sociedade portuguesa de então.
Mas o terramoto teve uma consequência inesperada. Como foi muito judiciosamente observado, sem essa catástrofe não haveria Marquês de Pombal. Foram a sua energia, a sua determinação e a sua capacidade de decisão que permitiram de imediato controlar os danos e preparar a recuperação nacional, propósito que foi magistralmente resumido numa curta e célebre frase: cuidar dos vivos e enterrar os mortos.
E assim foi feito, mesmo que ainda hoje se possam encontrar resilientes vestígios daquela tragédia.
Texas e Florida, 2017. Dois furacões assolam o Sul dos Estados Unidos. O Presidente dirige-se à Nação através do tweeter, esse insólito meio de comunicação que se julgava ser a imagem de marca dos adolescentes falhos em vocabulário, sintaxe, ortografia, concordância e outras dificuldades duma língua evoluída.
Nada de novo: julgo mesmo que deve ser aceite e difundido um neologismo perfeitamente consentâneo com a praxis de Donald Trump: a tuitorreia, forma aportuguesada referente a um fluxo desordenado e imparável de vulgaridades (um eufemismo) transmitido por via informática, por analogia com diarreia, menorreia e outros distúrbios algo disgusting.
Ora, as intervenções tuitorreicas do Presidente sobre estes momentos terríveis para o povo americano foram, uma vez mais, insólitas. Nada de concreto foi prometido, mas a proporções das catástrofes foram muito glosadas. A título de exemplo, um tweet de 8 de setembro: “O furacão Irma é de proporções épicas, talvez o maior que já vimos. Ponham-se em segurança e fora do seu trajeto, se possível”.
Boa descrição, mas pouco encorajadora. Como se o Marquês tivesse dito: tivemos o maior terramoto de sempre, organizem-se, se puderem.
Outro exemplo: “Confrontaremos TODOS os desafios, qualquer que seja a força do vento ou a altura das águas. Estou orgulhoso de ficar com os Presidentes para Um Apelo Americano” (#OneAmericanAppeal, no original). Maiúsculas também no original.
O emprego de maiúsculas em adjetivos e nalgumas palavras-chave constitui outra imagem de marca de Donald Trump. Talvez porque os seus fiéis destinatários corram o risco de se perder ao ler mais de duas linhas, pelo que o uso de MAIÚSCULAS os impede de se dispersar.
Noutras mensagens, o Presidente maravilhava-se com as forças da Natureza, como que dando graças de estar presente nesta provação.
Sentido da História? Dadas a suas conhecidas limitações neste ramo da sabedoria humana, não deve ser o caso.
Este distanciamento e esta fixação no lado épico terá outros paralelismos, mas não com aquele que prometeu enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Lembra mais a imagem, que a tradição acolheu, de Nero cantando poemas épicos de sua autoria e qualidade duvidosa, enquanto Roma ardia.
Aquando dos comentários sobre os acontecimentos de Charlottesville, houve quem acusasse Donald Trump de simpatia pelos nazis.
Nada mais falso. Se quisermos um termo de comparação, não é do lado de Hitler que se poderá encontrar alguma analogia.
Examinando e comparando os estilos, os ademanes, as expressões, está muito mais perto de Benito Mussolini. Se não acreditam, façam uma breve pesquisa em filmes da época, e comparem as imagens das duas figuras.
Logo, há que seguir a pista romana, e não a de Berlim, essa capital que rejeitou a recuperação da cidadania alemã ao avô do atual Presidente.
É aí que pode ser encontrado algum paralelismo.
Também é verdade que Donald Trump tinha (e tem) outras prioridades, como negar a 600.000 adolescentes as oportunidades que os seus avós e a sua mãe tiveram.
E aqui não há, definitivamente, paralelismo.
Nuno Santa Clara













