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Até ao fimPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Diz-se que os países democráticos não iniciam guerras. É verdade, se forem mesmo democráticos, ou seja, se o debate público não estiver viciado. Se a histeria de massas andar à solta, o resultado pode ser fatal, como nos ensina a História.

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Até ao fim Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Este é o título (português) de um livro recente (2011) do historiador inglês Ian Kershaw, em que o Autor procura responder a uma pergunta de fundo: por que razão se bateram os alemães até à destruição completa da sua pátria, quando toda a gente tinha já percebido que a guerra estava perdida?

Com efeito, com a exceção de alguns atos de resistência interna, e do atentado contra Hitler de Julho de 1944 (um mês depois do dia D), os alemães caminharam para a catástrofe final com uma apatia (a par também de alguma determinação, em alguns casos), que nos deixa perplexos. Nada disso se tinha passado na I Guerra Mundial: o Marechal von Hindenburg, instado pelo Kaiser, perante a situação desesperada das forças alemãs e o desmoronar da economia interna, e de acordo os principais chefes militares, sugeriu a capitulação. E ainda conseguiu repatriar todas as suas tropas, poupando-as ao cativeiro.

Isto teve dois efeitos. Um foi poupar o território alemão de uma invasão e ocupação. Outro foi criar o espírito de “traição” ou de “facada nas costas” por parte dos chefes políticos e altos comandos, sentimento que esteve na origem da ascensão do nazismo.
A guerra é um dos fenómenos mais estudado ao longo dos anos. Durante muito tempo, a História pouco mais era que uma descrição de batalhas e campanhas – como se toda a envolvência social e política dos conflitos fosse mero cenário de uma peça mais importante.

Foram surgindo inúmeros tratados sobre o fenómeno guerra, dos quais talvez o mais conhecido (ou, pelo menos, mais badalado) seja o Vom Krieg, (Da Guerra) de Carl von Clausewitz, que inspirou tanto os generais prussianos como Lenine e Mao Ze Dong. O livro foi publicado em 1832, um ano após a morte do Autor.
Esta tão larga difusão entre leitores e comentadores tão díspares elevou Clausewitz quase ao nível da Infabilidade Pontifícia.
Não faltaram discípulos que pretenderam empregar soluções militares pelo método das receitas de cozinha: tanto de infantaria, uns pós de cavalaria, uma colher de artilharia, serviços q. b., todos ao ataque e fé em Deus.

Ora, Clausewitz foi um homem do seu tempo, um produto do século das luzes, do primado da lógica, do Estado-Nação, da razão de Estado. Embora apontasse já novas formas de conflito, como ele vira na Rússia, na Alemanha e sobretudo se assistira na Península Ibérica, guerras em que o lado social e a participação direta das populações tiveram um peso importante.

Daí que hoje surjam autores que se reclamam de uma estratégia não-clausewitziana (um pouco como a geometria não euclidiana), considerando que alguns dos antigos postulados já não são aplicáveis.
Voltando à Alemanha, diríamos que o fim da I Guerra Mundial se deu num universo clausewitziano, e o da II Guerra Mundial num pós-clausewitziano. No primeiro caso, dobrada a vontade do adversário, foi atingido o fim do conflito; no segundo caso, foi-se, irracionalmente, até à destruição total.

Quando vemos as guerras travadas após 1945, temos como objetivo recorrente a destruição do inimigo (que não do adversário), a limpeza étnica, a imposição de uma crença. Não se trata de razões de estado: são guerras totais e biológicas, que passam pela eliminação do outro. E não só nas paragens distantes da Ásia ou da África, mas também na Europa Central.
Por isso é cada vez mais imperativo evitar a guerra. Como?

Segundo a receita habitual, pelo esclarecimento e educação das massas; pela audição sistemática dos antigos combatentes; por medidas dirigidas ao afrouxar de tensões; pela cooperação internacional. Estes e outros propósitos são excelentes, mas lembram aquela teoria surgida no virar do século XIX para XX, segundo a qual as economias dos diversos países estavam de tal modo evoluídas e interligadas que tornavam a guerra absurda, logo impossível. Seria verdade; mas não evitou a I Guerra Mundial, com os seus 20 milhões de mortos, entre civis e militares, em que só houve perdedores (embora houvesse quem cantasse vitória).

Uma das formas usuais de dobrar um adversário belicoso (mas ainda não um inimigo) é através de sanções, desde morais a económicas. Aparentemente, não têm funcionado. As elites no poder não são atingidas, e, como diz a canção, “o povo é que sofre”.

A industrialização apressada e forçada de Estaline ou de Mao Ze Dong causou milhões de mortos à fome; decerto na Coreia do Norte não terá sido diferente. Não se passa do arrozal ao míssil sem enormes sacrifícios.
Mas um regime não democrático, ferreamente controlado, pode obter obediência total. Assim foi na Alemanha de Hitler. Não o foi no Vietname, porque a sociedade americana teve acesso à informação e capacidade de influenciar o governo sobre o rumo da sua política.

Diz-se que os países democráticos não iniciam guerras. É verdade, se forem mesmo democráticos, ou seja, se o debate público não estiver viciado. Se a histeria de massas andar à solta, o resultado pode ser fatal, como nos ensina a História. Por exemplo, a Guerra Hispano-Americana deflagrou após uma cerrada campanha de imprensa, tendo por casus belli a explosão e afundamento do couraçado americano Maine no porto de Havana, apregoada como um atentado, que hoje se reconhece ter sido acidental.

Cortar o fornecimento de matérias-primas (incluindo petróleo) ao Japão foi uma das causas próximas do ataque à base de Honolulu, iniciando uma guerra que ele pretendia preventiva. As sanções não impediram o conflito – anteciparam-no.
No afrontamento direto EUA- Coreia do Norte as sanções parecem não estar a resultar; apenas fizeram deslocar os principais interlocutores de Washington e Pyong Yang para Moscovo e Pequim (o que constitui um revés estratégico).

E a subida de tom, até ao absurdo não-clausewitziano de Donald Trump, também parece não resultar.
Melhor seria recorrer à estratégia indireta, tão querida de Liddell Hart, ele mesmo não muito admirador de Clausewitz. Como a neutralidade da Espanha na II Guerra Mundial, comprada com petróleo e trigo.
E por iniciativa dos próprios interessados, antes que tenha de ser solicitado a terceiros.

Nuno Santa Clara

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