Dos segadores aos tratoresPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Para o comum dos portugueses, isto de “segadores” não significa nada. Não pela etimologia: segador, em bom português, é alguém que ceifa trigo, centeio ou outro cereal. Talvez, no Sul, a expressão “ceifar” seja mais corrente que “segar”, mas, lá para o Norte, é mais corrente dizer “segar o trigo” do que “ceifar o trigo”.
Deixemo-nos de etimologias e de semânticas. Interessante foi ver, no meio deste imbróglio da Catalunha, uma concentração de tratores em Barcelona.
À partida, nada de novo. Sabemos bem que, em França ou em Espanha (para não referir outras paragens), quando há manifestações de professores, dá-se porrada; se for de enfermeiros, dá-se cacetada; se for de metalúrgicos, vai de gases e balas de borracha. Mas, quando se trata de agricultores, escolta-se e canaliza-se a manifestação, para não haver problemas. Claro que os agricultores, habituados a enfrentar intempéries, secas, intermediários e burocratas, quando perdem a cabeça, vai tudo à frente. Daí o cuidado das Forças da Ordem.
Teria sido esta a origem da concentração de tratores? A meu ver, não. É preciso recuar até ao século XVII para encontrar a explicação.
Em 1618 teve início a Guerra dos Trinta Anos, em que a monarquia de Filipe IV (III de Portugal) se envolveu. Em resultado da decadência económica e social do século XVII, o conde-duque de Olivares, valido do rei, apertado pela falta de recursos, impôs em 1626 aos vários reinos da Península, então unificada, a Unión de Armas, segundo a qual o esforço de guerra, até aí suportado quase só por Castela, passaria sê-lo por todos os reinos. Assim, caberiam a Castela 44.00m mil soldados, a Portugal, Catalunha e Nápoles 16.000 cada reino, além de outras contribuições menores, até um total de 140.000 homens.
Como se vê, Filipe IV era rei de muitas coisas, mas não de Espanha; necessitava de pedir a cada reino uma contribuição para a estratégia global, o que por vezes contrariava os interesses locais. Portugal, por exemplo, tinha laços seculares com os Países Baixos, com quem Filipe IV estava em guerra.
Em 1640, as coisas agravaram-se nos dois extremos da atual Espanha. A guerra com a França corria mal, e o concurso da Catalunha foi sabotado por Richelieu, que apoiou os catalães, e por Portugal, que aproveitou o ensejo para declarar a sua independência. A conjuntura foi-nos favorável, mas não tanto aos catalães.
Tudo começou por altura da festa do Corpo de Deus, depois apelidada de Corpus de Sang (em catalão). A reação da população ao comportamento das tropas do rei, que incluiu o saque a povoações na região de Gerona, degenerou numa insurreição popular, ao estilo das antigas guerras camponesas. Só que, na mesma altura, convergiram para Barcelona os segadores, conforme era hábito, para serem contratados para as ceifas. Juntando o fogo à palha, seguiu-se uma semana de desordens que nada tinham a ver com o estatuto político da Catalunha.
Naturalmente, houve quem tirasse dividendo da desordem, encaminhando-a politicamente. Daí que a Revolta dos Segadores entrasse para a mitologia catalão como um dia especial, com direito a hino, quadros alusivos, e tudo o mais.
Para estabelecer um paralelismo com a revolta portuguesa, podemos acrescentar que, se duquesa de Mântua, vice-rainha de Filipe IV, regressou em paz a Espanha, já o vice-rei da Catalunha, o conde de Santa Coloma, foi morto numa praia de Barcelona, quando tentava fugir; partilhou assim a sorte de Miguel de Vasconcelos, atirado por uma janela do paço.
De modo que a entrada em Barcelona dos tratores conduzidos pelos agricultores nada tem de espontâneo: é apenas um regresso às origens, ao profundo sentimento dos catalães, mesmo que não corresponda em 100% à verdade histórica.
Segadores ou tratores, mudam os tempos, mudam os utensílios, mas o fundo cultural é o mesmo.
Nuno Santa Clara













