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Fait diversPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Resumindo: em dois massacres de civis inocentes, um foi cometido por um animal degenerado, outro por um doente mental; o “animal” estava armado com uma carrinha alugada e pistolas de brinquedo, o “doente mental” com armas de guerra e munições à descrição.
Se o “animal degenerado” for levado para abate, como propõe Trump, resta o “doente mental”.

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Fait divers Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta expressão francesa ganhou mundo, com o significado de assunto corriqueiro, não merecedor de especial atenção. No fundo, representa a aspiração de qualquer político: fazer passar uma situação embaraçosa à quinta página dos jornais.
De modo que um mesmo caso pode ser tanto um escândalo político como um fait divers: se o marido espanca a mulher, o tratamento depende da qualidade do casal. Pode ficar na modesta coluna dos casos de polícia, ou passar para o telejornal das oito, as primeiras páginas dos jornais e as capas de revistas cor-de-rosa.
Assim é o Mundo. E vale a pena analisar a manobra da promoção ou despromoção de um assunto, conforme as conveniências.

A 31 de Outubro, um uzbeque chamado Sayfullo Saipov atropelou propositadamente os ocupantes de uma ciclovia em Nova Iorque, matando oito pessoas e ferindo doze. Depois tentou fugir, acabando derrubado a tiro e detido por um polícia. Estava armado (?) com uma arma de paintball e uma pressão de ar. Motivos? Atacar os cruzados cristãos na sua própria terra. Ainda pediu que lhe colocassem uma bandeira do DAESH no quarto do hospital.
Sobre ele, Donald Trump tweetou (passe o neologismo) “Há também algo apropriado acerca de mantê-lo no local do horrível crime que cometeu. Devemos andar depressa. PENA DE MORTE” (maiúsculas dele). E ainda: “ O ISIS proclamou que o Animal Degenerado que matou e feriu gravemente a maravilhosa população de West Side era um soldado deles”.
Saipov era um refugiado de um país que não estava na Lista Negra dos promotores do terrorismo, o que não o impediu de fazer o que fez…

A 5 de Novembro, um atirador entrou numa igreja, durante o serviço religioso, e matou a sogra e mais 25 pessoas, ferindo ainda mais 20. Foi identificado como sendo Devin Patrick Kelley, um texano, aparentemente um WASP (White, Anglo-Saxon, Protestant), ou seja, um americano típico, segundo os padrões correntes.
Kelley, de 26 anos, serviu na Força Aérea dos EUA até ser expulso das fileiras por conduta imprópria, há cerca de três anos. Nas Forças Armadas dos EUA existem Tribunais Militares de várias instâncias, dos quais só o General Court Marcial tem poderes para aplicar a pena de exclusão por desonra ou má conduta de pessoal contratado (enlisted men), como foi o caso de Kelley, por agressões à mulher, ao enteado e à sogra. Ou seja, não houve condenação por crime, mas expulsão por má conduta; resta saber porque não foi comunicada a sentença à administração civil. O que teria efeitos no futuro: Kelley esteve à vontade para comprar uma arma automática de calibre de guerra, e três pistolas.
Kelley também pareceu ter-se dedicado a estudos bíblicos; dado o seu comportamento, seria interessante averiguar por que Bíblia estudou, para ver se será a mesma edição citada por aquele juiz…

Mas afinal, como foi detido o assassino em série? As primeiras notícias falavam sobre a pronta reação das autoridades.
Só depois se descobriu que o atirador foi atacado e perseguido por dois cidadãos comuns, levando-o a despistar-se e acabando por morrer, ao que parece por suicídio. Só então foram buscar a polícia.
This is Texas! E no seu melhor: muita Ordem, pouca Lei. E para a National Rifle Association e seus apaniguados, haverá sempre duas leituras. Se, por um lado, Kelley não devia ter tido acesso a armas de guerra, por outro lado não faltaram armas em boas mãos para perseguir e deter o assassino. Empate técnico?

Sobre este acontecimento, Donald Trump disse: “Isto é um caso de saúde mental ao mais alto nível. Temos muitos problemas de saúde mental no nosso país, como noutros, mas não é um assunto de armas…”.
E assim ficou assente que num caso se tratava de terrorismo, e no outro de um fait divers, e que as armas não tinham nada a ver com o assunto.
Resumindo: em dois massacres de civis inocentes, um foi cometido por um animal degenerado, outro por um doente mental; o “animal” estava armado com uma carrinha alugada e pistolas de brinquedo, o “doente mental” com armas de guerra e munições à descrição.

Se o “animal degenerado” for levado para abate, como propõe Trump, resta o “doente mental”.
E aqui há uma réstia de esperança: se, como disse o Presidente, “temos muitos problemas de saúde mental no nosso país”, não seria de rever a política de destruição do Obamacare?
Pelo menos, quanto à saúde mental?

Nuno Santa Clara

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