AutomatismosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Durante a sua viagem para o Perú, o Papa Francisco não deixou passar a oportunidade de se referir ao ambiente tenso que hoje se vive, em todo o Mundo. E disse-o através de uma frase demolidora sobre as circunstâncias que podem fazer deflagrar de uma guerra: “tudo o que é preciso é um acidente para a iniciar”.
Lido assim, parece-nos termos voltado aos anos mais críticos da Guerra Fria, no tempo da qual foram criados conceitos como “Ataque Nuclear Preventivo”, “Destruição Mútua Assegurada”, “Resposta Flexível”, “”Equilíbrio do Terror”, “Megamortos” (um milão de mortos) e mais outras dezenas de conceitos que a atual geração felizmente desconhece.
Nesses tempos, a questão do deflagrar da guerra por acidente ou por ação deliberada de um louco era um tema recorrente, tratado através de livros e filmes, que disso se alimentavam e contribuíam para o clima de tensão que então se vivia. Talvez os melhores exemplos de filmes dessa época sejam “Dr. Stangelove” (Dr. Estranho Amor), de Stanley Kubrick (1964), e “The Day After” (O Dia Seguinte), de Nicholas Meyer (1983.
A redução sistemática e progressiva do tempo de reação a um ataque levou a uma automatização das respostas. Assim como numa armadilha eletrónica: se passas esta porta, morres de imediato. Só que, em vez de um fait divers local, teríamos uma guerra global, sem vencidos nem vencedores (o que haveria a ganhar no fim?).
Sinal dos Tempos? Apenas uma questão de Tempo. Há muitos exemplos históricos de conflitos que se deram porque foram desencadeadas ações tidas por irreversíveis.
Talvez o mais flagrante seja o da I Guerra Mundial. O plano alemão de von Schlieffen, iniciado em 1893, era derrotar a França em poucas semanas, tratando depois dos russos e ingleses. Foi várias vezes revisto, e era tão meticuloso e preciso que não podia ser alterado; ou seja, depois de dada a ordem de mobilização, era andar para a frente até ao fim da guerra. Parar as operações lançaria o caos completo. Nem mesmo o Imperador da Alemanha poderia inverter o rumo dos acontecimentos, o que significava uma inversão de valores: os políticos ficavam subordinados à decisão dos militares. Os planos dos Aliados seguiam um esquema algo semelhante, embora não tão rígido.
Este automatismo desencadeou a guerra numa ocasião em ela que parecia improvável. Na semana anterior à primeira declaração de guerra, tudo parecia calmo, exceto nas Balcãs. Mesmo em Belgrado, em 25 de Julho, o embaixador inglês estava ausente, o russo tinha morrido recentemente e ainda não tinha sido substituído, e o francês tinha acabado de se apresentar. A 25, o Kaiser da Alemanha estava no seu iate, tendo a partir daí ordenado à frota alemã que rumasse a Kiel; ele e os seus chefes militares, que estavam também de férias, só se reuniram em Berlim a 27. Este ambiente de aparente descontração mudou em 1 de Agosto, com a declaração de guerra à Rússia, seguida da França, a 3. O automatismo das alianças fez alastrar a guerra a toda a Europa, e depois ao resto do Mundo.
A lembrança destes casos como que transparece agora nas primeiras páginas dos jornais e nos telejornais, sobretudo após o chamado “falso alarme” que foi lançado pelas autoridades do Havai no passado dia 1 de dezembro. Um alerta de ameaça de um míssil nuclear foi emitido, fazendo soar as sirenes e enviando mensagens para todos os telemóveis, mandando as pessoas procurar abrigo e explicitando que “não era um exercício”. Cerca de quarenta minutos depois foi emitido novo comunicado, cancelando as instruções e esclarecendo que se tratara de um falso alarme. Neste intervalo de cerca de 40 minutos, os residentes reagiram como souberam e puderam.
O Governador do Havai, David Ige, declarou que teria sido um funcionário que, ao carregar no botão errado, desencadeara o alerta. A ser assim, parecíamos ter voltado à guerra por engano. E se, em vez de um alerta, se tratasse do disparo de mísseis como retaliação?
Num ataque real, vindo da Coreia do Norte, estima-se que um míssil poderia atingir o Havai em vinte minutos. Isto dava às autoridades até cinco minutos para emitir o alerta, e quinze minutos para a população se abrigar – se houvesse abrigos. O “falso alarme” teve a vantagem de testar o sistema…
A Coreia do Norte tinha feito um ensaio de um míssil tipo Hwasung-14, dito intercontinental, a 29 de Novembro; percorreu uma trajetória de 620 milhas (993 km), caindo no mar. Os mísseis intercontinentais (ICBM – Intercontinental Ballistic Missile) têm um alcance de 3.500 milhas (5.600 km), portanto cinco vezes mais do que a distância atingida pelo Hwasung-14 em Novembro. Claro que no teste pode não ter sido utilizada toda a capacidade de alcance do míssil, talvez porque a Coreia não tem meios para rastrear toda a trajetória. E também nada se sabe (oficialmente) sobre a precisão dos mísseis norte coreanos. Mas “atirar à zona”, acertando onde calhar, no deserto ou no mar alto, não parece remunerador, a não ser por efeito psicológico, com a agravante de poder provocar uma retaliação.
Certo é que o sistema de alarme do Havai vinha sendo a ser reconstituído, mesmo sem certezas quanto ao alcance e precisão dos mísseis do Sr. Kim Jong-un, o que parece uma medida preventiva acertada. Mas o sentimento de segurança que adviria do sistema de alerta perder-se-ia no caso de falta de confiança no sistema, ou por efeito de reações dúbias das altas instâncias.
Ora o Presidente dos EUA, durante a fase crítica do alerta, estava na Florida a meio de uma partida de golfe, desporto em já suplantou, em custos e assiduidade, o muito (por ele) contestado Barack Obama: até novembro, os contribuintes americanos pagaram mais de 81 milhões de dólares para viagens e segurança nas partidas de golfe de Donald Trump…
Talvez para evitar o desaproveitamento dessas despesas, Donald Trump não interrompeu a tal partida de golfe – isto enquanto os havaianos corriam em busca de um hipotético abrigo.
De onde se pode concluir que: ou o Presidente é mesmo genial (ele mesmo o disse!) e sabia que o alarme era falso – mais um caso de “fake news” – pelo que nem tinha de se preocupar; ou o Presidente sabia que não havia motivos para alarme, e continuou paulatinamente até ao 18.º buraco.
Os críticos irredutíveis diriam que ligou tanto às potenciais vítimas de um anunciado ataque nuclear, como aos desalojados porto-riquenhos a quem atirou pacotes de toalhas de papel (tipo milho aos pombos), ou como ligou aos enregelados cidadãos do Leste dos EUA, a quem recomendou usar o aquecimento global para o conforto dos seus lares, isto enquanto gozava o sol na Florida. Pura maldade: não se brinca com armas nucleares, porque estas não são de efeito local e limitado.
Sendo assim, a displicência de Trump terá outras origens. Provavelmente, o conhecimento prévio de que tal ameaça era irreal – a Coreia do Norte não disporia, para já, de arsenal apropriado. Outra hipótese seria pior: ter conhecimento prévio do incidente. Com uma nota picante: o Governador David Ige (chefe máximo de quem carregou no botão) é do Partido Democrata…
Tudo isto levanta uma questão, a das declarações pomposas de destruição assegurada, feitas por ambos os lados. Ninguém duvida que o botão de Donald Trump é maior do que o de Kim Jong-un (e deixemos as comparações por aí); mas qual é a dimensão real do botão coreano? Espalha-se um sentimento de “déjà vu”, comparável com o caso das armas de destruição maciça de Saddam Hussein.
Corre-se portanto o risco de ter, por um lado, um automatismo que pode levar à guerra, e por outro, a uma desvalorização das ameaças. Mas também a uma desconfiança nos sistemas de alarme, ao estilo daquele velho conto do pastorinho que gritava aos lobos para se divertir; quando eles de fato vieram, ninguém levou a sério os seus gritos.
Será que vamos enveredar pelo ceticismo automático?
Nuno Santa Clara













