Nostalgia dos ImpériosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
A lógica do Império assenta na expansão, ou melhor, num conjunto de expansões, e na consolidação desses ganhos.
Territorial, pela conquista, normalmente violenta, à custa dos vizinhos, como na Europa Central, ou de povos distantes, como no domínio europeu de grande parte dos outros continentes. Qualquer das duas assentou na superioridade tecnológica e organizacional, apoiada na supremacia militar.
Económica, pelo domínio das matérias-primas e das transações comerciais. Foi a que fizeram os portugueses no Oceano Índico no século XVI, seguidos, entre outros, pelos ingleses, no século XIX, com o domínio dos mares e da comunicação global através do cabo submarino.
Cultural, pela imposição de padrões e valores que acabam por ser aceites pelos povos dominados, num processo de aculturação.
Outras haverá, mas estes três são dominantes. E, deles, duas são perecíveis, mas a terceira deixa marcas indeléveis para o futuro. A título de exemplo, os romanos foram dizimados em Portugal, mas falamos uma língua latina; os muçulmanos foram expulsos pala Reconquista, mas a segunda fonte do português é o árabe. Os povos colonizados livraram-se dos colonizadores, mas adotaram as línguas deles, como forma de integração e confirmação de fronteiras criadas artificialmente - aliás, como na Europa, exceto no caso de séculos de consolidação, como no caso de Portugal ou da Suíça, que constituem exceção.
Desses imperialismos ficam sempre alguns tiques, que poderiam parecer até ridículos, se não fossem os efeitos reais. Quando Mussolini declarou que “Roma será novamente imperial” ninguém o levou a sério – mas levou a Itália para o lado errado na II Guerra Mundial. Um pouco como escarneceu Eça de Queirós, numa das suas “Farpas”, a propósito de um articulista que contraponha às críticas à decadência nacional uma afirmação bombástica: “acaso não dominámos o Industão?”. Essa recordação nebulosa de um passado domínio parecia-lhe um argumento de peso.
A I Guerra Mundial acabou com a dissolução de quatro impérios: o II Reich com a Alemanha reduzida a um estado-nação; o Russo, depois reconstituído noutros moldes, como União Soviética; o austríaco, que implodiu numa fragmentação em pequenos estados inimigos entre si, o que deu origem ao termo “balcanização”; e o turco, com a Turquia reduzida a um estado mediano, e libertando boa parte do Médio Oriente da sua tutela – para cair na órbita de outros países.
Em Portugal muito se tem escrito sobre a perda do Império – mesmo quando já não era chamado Império – não faltando quem continue a carpir as suas mágoas sobre um fim sem glória. Estamos, portanto, bem habilitados a compreender esse tipo de as mágoas, apenas com uma variação de grau.
Sofrem dessa nostalgia os russos, após a implosão da União Soviética. Isso explica o fenómeno Vladimir Putin, o homem que capitalizou esse sentimento, o que lhe permite governar a Federação Russa com poderes que fariam inveja ao Czar Nicolau II. Para o russo médio, é melhor ser temido, ou mesmo odiado, do que desprezado.
Os austríacos parecem conformados com a redução do seu estatuto; em sentido inverso, desenvolveu-se um nacionalismo exacerbado, contrário à secular sua visão imperial e pluriétnica.
A Alemanha e o Japão encontraram numa dinâmica económica, assente num Mundo sem guerra e numa postura de fraqueza militar deliberada, uma forma alternativa para as suas necessidades de expansão. Quer o “Espaço Vital” (Lebenschraum) alemão, quer a “Esfera de Co-prosperidade Asiática” japonesa obtiveram a sua realização, não pela conquista, mas por via pacífica. Uma forma de esquecer as nostalgias do império.
Também os impérios inglês e francês se foram diluindo, mas mantendo esferas de influência, apoiadas nas suas fortes economias, capazes de prolongar as suas influências para além do domínio político direto. Naturalmente, também com a componente cultural presente; veja-se quanto gasta a França a promover a francofonia.
A Turquia, que parecia tão resignada como a Áustria com o fim do seu Império, aparece agora como candidata a potência regional ou talvez mais, mudando de aliados com aparente ligeireza, o que só deveria surpreender os distraídos. A nostalgia do Império tem destas coisas. A própria questão do Curdistão não é bem o que parece: os curdos seriam bem-vindos – se aceitassem a plena soberania turca. Um dos maiores heróis do Império Otomano foi Nácer Salá Adim Iúçufe ibn Aiube, mais conhecido por Saladino (1138-1193), chefe militar curdo que foi sultão do Egito e da Síria, e que reconquistou o reino de Jerusalém aos cruzados.
Algo que faz sonhar milhões de muçulmanos, sobretudo depois dos últimos acontecimentos à volta da Cidade Santa de três religiões…
Esta orientação choca com a vontade de constituir um império: a Arábia Saudita sonha, por sua vez, em congregar toda a Umma (comunidade de todos os muçulmanos) sob a sua orientação, baseada na posse dos Lugares Santos e por estar na origem histórica da sua religião. As diatribes com o Irão, agora com o Qatar, e a guerra no Iémen, têm esse fundo comum.
Constituir, ou reconstituir, um Império, exige meios e vontade para tal cometimento.
O “estádio supremo” da Nostalgia do Império pode passar por querer tornar um país “grande outra vez”, mas esse desiderato não se obtém através de grandes palavras de ordem. Tornam-se necessários os meios, a determinação coletiva, a oportunidade – e a condescendência ou fraqueza dos outros.
Se estas condições não se concretizarem, estaremos perante as fanfarronadas de Mussolini, ou do saudosismo dos tempos em que dominámos o Industão, ou então à espera de D. Sebastião – conforme Fernando Pessoa, “quer ele venha, ou não”.
Nuno Santa Clara













