Prestígio e desprestígioPor Nuno Santa Clara
Barreiro
Ora, o fenómeno do reconhecimento público é muito complexo. Com as técnicas atuais de comunicação de massa, passou a ser uma mercadoria – como disse um publicitário, vende-se um presidente como se vende um sabonete.

Por Jornal Rostos
Qualquer instituição que se preza tem a preocupação do seu prestígio. E como se pode atingir esse desiderato?
Numa definição tirada dos dicionários, prestígio é a “influência, importância decorrente de algo ou alguém tido como admirável”; segundo outro, é “uma avaliação que normalmente descreve reputação”. Mas a origem latina da palavra é praestigium, de prae (pré) e stringere (apertar) [os olhos], referindo-se ao efeito provocado nos espetadores por um ilusionista, como agora se diz.
Pela simples comparação destes conceitos se vê a diferença entre o significado atual, ligado à influência, à importância e à reputação, e a origem latina, ligada às artes de circo, com o objetivo de iludir os incautos.
Contradição? Talvez, mas há aqui como uma sabedoria subliminar, ligando os dois conceitos, o atual e o latino. Não porque eles se confundam, mas porque na prática há quem recorra a truques variados para obter o tal prestígio.
O prestígio pode estar ligado a um indivíduo ou a uma instituição (alguém ou algo), sendo que carece de reconhecimento público para que tenha efeito.
Ora, o fenómeno do reconhecimento público é muito complexo. Com as técnicas atuais de comunicação de massa, passou a ser uma mercadoria – como disse um publicitário, vende-se um presidente como se vende um sabonete.
Nada de novo, exceto na escala. Decerto que hoje se leva menos tempo a levar uma notícia a todo o Mundo do que a espalhar um mexerico numa das nossas remotas aldeias. Mas, insisto, é uma questão de tempo e espaço – o fundo é o mesmo.
Desde sempre, associar um comportamento a um grupo social, a uma profissão ou a qualquer outro agregado é uma coisa tão constante que pode ser considerado como norma.
Por exemplo, se um padre faz algo de impróprio, o comentário mais ouvido é que “os padres são todos assim”. Deste modo, os padres tanto são todos mulherengos, como todos pedófilos, como ainda todos gananciosos – todos e não alguns, ainda que algumas acusações sejam contraditória.
Os militares são quadrados, violentos e incompetentes e até corruptos, mesmo quando se trata de um reduzido número devidamente identificado e responsabilizado.
E assim os médicos são desleixados, os funcionários públicos preguiçosos e absentistas, os polícias abusadores, os motoristas assassinos, os peões idiotas, e por aí fora até ao limite de todas as profissões, associações e atividades.
Claro que isto tem uma vantagem: facilita o raciocínio (?) uma vez que nos permite arrumar tudo e todos por gavetas. Fenómeno global: quando um japonês louco matou e comeu a namorada às postas foi preciso explicar quase a todo o Mundo que os japoneses não eram canibais. Pessoalmente, tive dificuldade, quando residia em França, em explicar que não era pedreiro, nem a minha consorte mulher-a-dias.
Coisa estranha: estamos naquilo que se pode chamar a “civilização do indivíduo”, em que os laços sociais se atenuaram e em que a solidariedade, base de toda a nossa civilização, se encontra ameaçada, apesar de todas as campanhas em sentido contrário. Mas o nosso subconsciente não renunciou ao coletivo, reagindo a uma ameaça através de uma reação instintiva de agrupamento – “nosso” e “deles”. Recordando o filósofo e sociólogo Émile Durkheim, existem duas espécies de solidariedade: por semelhança e por divisão de trabalho (ambas levando à segurança coletiva). Assim, a defesa contra o elemento perturbador passa por uma identificação coletiva, desencadeando um mecanismo de defesa que a mera ameaça individual não garantiria.
Ora, a coletivização da culpa (ainda que como política deliberada, como já se viu e voltará a ver) tem com resultado a diluição da culpa individual, pervertendo, quer o fundamento do nosso ordenamento jurídico, assente na responsabilidade pessoal, quer mesmo o fundamento religioso, ao diminuir a livre escolha entre o Bem e o Mal, atributos do Homem, segundo a religião cristã.
É corrente e recorrente assistir a movimentos de apoio, mais ou menos organizados, em defesa de alguém preso nas malhas da Lei. Haverá decerto um lado de solidariedade com o indivíduo; mas o que mais transparece é a defesa do grupo, ainda que tal por vezes não transpareça. Defender o clube, a profissão, ou o partido político, pode parecer uma boa causa: o problema está em distinguir entre essa solidariedade de grupo e o apagamento da culpa individual. E é por vezes difícil distinguir entre as boas intenções e as manobras de retaguarda, congeminadas para ganhar na praça pública o que não pode ser ganho em tribunal.
E aqui regressamos às raízes latinas do prestígio. Orquestrar uma campanha para desvirtuar um processo judicial cai precisamente no praestigium, a arte de iludir as audiências. Mas que daí advenha prestígio, parece duvidoso.
Nenhuma profissão, ou grupo social, está ao abrigo de prevaricadores, por mais venerável e considerada que seja. Sabiam-no bem os nossos antigos sábios de aldeia, quando criaram o provérbio “no melhor pano cai a nódoa”. Os mais solenes juramentos de fidelidade não garantem que não venha a haver desvios ou traições – a História está cheia desses casos.
A defesa das instituições não pode passar pela ocultação ou, como se costuma dizer, por “varrer para debaixo do tapete”. Que o diga a Igreja Católica, com o problema da pedofilia. Passa por assumir e por responsabilizar alguém que destoa do conjunto, por atos ou omissões ao arrepio do seu estatuto e contra a Lei. De outro modo, lá temos a tal reação coletiva, branqueadora de uns, conspurcadora do coletivo.
Ao assumir o mau comportamento de alguns dos seus elementos, uma instituição não sai diminuída. Pelo contrário, sai prestigiada: nela não cabe alguém que não merece fazer parte, ou que, para continuar pertencer-lhe, tem que assumir as suas responsabilidades. Nas Forças Armadas assistimos a alguns desses casos, e não parece ter havido dúvida sobre o caminho a seguir – e só quem tenha um “raciocínio por gavetas”, ou use de reserva mental, pode tirar outras conclusões.
Assim se obtém um prestígio duradouro, porque assente em critério de exigência que, regressando às definições acima transcritas, fundamenta a “influência, importância decorrente de algo ou alguém tido como admirável” e “uma avaliação que normalmente descreve reputação”.
De outra forma, torna-se difícil distinguir entre prestígio e desprestígio…
Nuno Santa Clara













