O espectro do Pactopor Nuno Santa Clara
Barreiro
Aqui estamos todos de acordo. Voltando à sabedoria popular, “o mundo é dos espertos”. Ao que parece, é mesmo verdade, e o exemplo dele é revelador.

Por Jornal Rostos
Em 22 de Agosto de 1939, o Mundo estupefacto tomava conhecimento de uma aliança que tudo indiciava como improvável, ou mesmo contranatura: a Alemanha de Hitler assinava o Tratado de Não Agressão entre a Alemanha e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que passou à História como o Pacto Molotov-Ribbentrop (do nome dos ministros dos estrangeiros das potências signatárias). Dois arqui-inimigos juravam-se mutuamente neutralidade, deixando a cada um as suas iniciativas estratégicas.
O resultado imediato foi a invasão da Polónia, em 1 de Setembro, e o início da II Guerra Mundial.
O recente anúncio do encontro de Donald Trump com Kim Jing-Il, programado para Maio próximo, desencadeou reações algo semelhantes. E com razão: não é vulgar que dois arqui-inimigos, que têm passado os últimos tempos a ameaçar-se mutuamente de destruição maciça, a par de insultos pessoais em que o fundo comum é a insanidade mental, venham de um dia para outro anunciar um encontro, sob os melhores auspícios da Reconciliação, da Paz e da Concórdia.
Decerto se pode relembrar aquele velho princípio, segundo o qual o inimigo de ontem é o cliente de hoje e o aliado de amanhã.
Seria comovente, se não fosse o nosso lado ibérico que inspirou a figura de Sancho Pança, que encontrava resposta para tudo nos ditados populares. Neste caso, “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”.
Ora bem. O mandato do atual Presidente dos EUA tem sido pautado por sistemáticos desaires diplomáticos (a par da fuga dos seus melhores colaboradores – foi Ele que disse que eram!). Não vamos aqui desfiá-los, mas a iniciativa estratégica e diplomática americana tem sido sitematicamente reduzida na Europa, na África e sobretudo no Oriente, seja ele o Próximo, o Médio ou o Extremo.
A telenovela dos Jogos Olímpicos de Pyeong Chang, no que respeita à participação da Coreia do Norte, e sobretudo as negociações à margem da competição, passou além das fofocas jornalísticas. Foi o início de um processo que tudo indica ter passado ao largo da Casa Branca (uma vez mais). O papel do Vice-Presidente Mike Pence (sabem quem é?), repetindo as declarações do seu Chefe, boicotando os Jogos e anunciando novas manobras militares, não pareceu estar de acordo com uma estratégia de aproximação.
Decerto que as duas Coreias, o Japão por tabela, e a China por inerência, não estão interessadas em nova guerra, que seria mais mortífera que a de 1950-53, e que causou cerca de 750.000 mortos militares do lado comunista e 178,244 do lado contrário, sendo destes 36,574 americanos; a estes números há que somar os feridos, na proporção de quatro ou cinco por cada morto (no caso americano 103,284 feridos), muitos deles deficientes permanentes.
E, pior ainda, há a juntar 2,5 milhões de mortos civis.
Se na Europa o espectro da II Guerra Mundial levou à instituição de uma paz que só foi quebrada pelas guerras da ex-Jugoslávia, é natural que no Extremo Oriente uma recordação ainda mais recente da guerra (para não falar das guerras do Vietname) leve à procura dessa Paz a que todos aspiram.
Em 1939, Estaline tentou uma aproximação às potências ocidentais, na constituição de uma frente comum contra o nazismo; porém, o anticomunismo foi mais forte, e a solução encontrada foi o Pacto com o Diabo. Coisa que não é tão má como isso: aquando da invasão da União Soviética pelos alemães, em 22 de Junho de 1941 (dois anos após o Pacto), Churchill solidarizou-se publicamente com o país atacado; e quando alguém lhe perguntou como concebia apoiar os comunistas, respondeu que “se Hitler invadisse o Inferno, teria uma palavra amável para o Diabo”.
Será que o Mafarrico tornou a atacar, ou que o espectro do Pacto ressurgiu das cinzas?
A estas guinadas diplomáticas chamou Bismarck Realpolitik, ou seja, o pragmatismo levado às suas consequências lógicas. Henry Kissinger, seu admirador confesso, usou da mesma técnica para a aproximação à China, com bons resultados.
Será que Donald Trump está a seguir os mesmos trilhos?
Não é provável: Kissinger era um académico, conhecedor da História, com uma apreciável cultura, capaz de passar da teoria à prática (embora tenha falhado em Portugal).
Donald Trump é o oposto, e não sabemos se o seu avô alemão lhe falou de Bismarck. Penso que não: o velho chanceler ganhou três guerras, pela boa razão que estavam ganhas de antecedência. O neto do emigrante alemão fala agora de guerras boas e fáceis de ganhar – o que está longe de ser garantido.
Os modelos de Donald Trump são outros. É ver a inveja mal disfarçada com que se referiu ao fim da limitação mandatos do presidente chinês Xi Jinping. Nada mais natural para quem não tem a garantia de acabar o mandato… Mas igualou ou ultrapassou mesmo Kim Jing-Il, que apenas sucedeu ao pai Kim Jong-Il e ao avô Kim Il-Sung e instalou a irmã Kim Jong-Il no Politburo: Trump nomeou o filho, a filha e o genro para altos cargos na Casa Branca.
No tocante ao substrato ideológico, as declarações do Presidente quanto à sua fuga aos impostos são reveladoras: não paguei porque sou esperto!
Aqui estamos todos de acordo. Voltando à sabedoria popular, “o mundo é dos espertos”. Ao que parece, é mesmo verdade, e o exemplo dele é revelador.
Mas também é certo que, se o Mundo fosse dos inteligentes, em vez de ser dos espertos, estaríamos melhor. E houve épocas da História, infelizmente esquecidas, em que isso aconteceu.
O que faz um esperto quando se vê em dificuldades? Uma fuga para a frente! Com Trump, na sua vida profissional (?) isso resultou sempre – a par do pai milionário para pagar os prejuízos e evitar as falências.
De modo que aí está ele a aplicar a parábola evangélica dos trabalhadores da hora undécima (Mateus 20:1-16): começar o trabalho ao fim do dia e ficar com um salário igual ao dos outros; neste caso, ficar com a fama de apaziguador, quase pacifista, conversão recente, mas bem recompensada.
Na parábola não está esclarecido se os trabalhadores da hora undécima estavam na praça desde manhã cedo. No caso vertente, isso faz a diferença…
If you can´t beat them, join them…
Nuno Santa Clara













