GuerraPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras”. Assim descrevia a guerra o Padre Antonio de Vieira, numa das suas peças clássicas.
Assunto recorrente de todas as culturas, a guerra tem sido analisada, dissecada, estudada, elogiada, difamada, abominada. Mas sempre presente, mau grado todas as tentativas para a eliminar. Alguns pensaram que era possível exterminá-la, tal como se fez com o vírus da varíola, através de vacinação. Era esse o objetivo da Organização das Nações Unidas (ONU), mas parece que não resultou em pleno. Por falta de vacina, ou por falta de adesão ao programa de vacinação.
Tocaram de novo as trombetas da guerra, desta vez com o ataque de três aliados (Estados Unidos, Reino Unido e França) em terras da Síria. Guerra mais ou menos anunciada, mas com contornos interessantes.
Em primeiro lugar, a própria Síria (note-se que não lhe chamo a vítima). Após 2011, este país viu-se envolvido no que deveria ter sido um movimento libertador, mas que derivou para o mal até mergulhar a Síria numa catástrofe sem precedentes. Sobretudo porque os estes e outros aliados têm variado nos seus apoios, e o líder hereditário do que devia ser uma república agarrou-se ao poder com a determinação de um cão de fila ferrado a um osso. Compreensível, de certo modo: não tem cotação no mercado de trabalho.
Daí a lançar mão a todos os meios, e a todos os eventuais aliados, foi um passo. E assim se viu o que devia ser o Pai da Pátria chacinar os seus compatriotas “sans état d´âme”, como dizem os franceses. Inclusive recorrendo a armas químicas, que, diga-se de passagem, estão ao alcance de qualquer fabricante de pesticidas.
Os americanos, presentes nessa guerra desde a primeira hora (2011) não conseguiram dominar os acontecimentos desta “Primavera Árabe”, como também doutras (Líbia, Egito, etc.). Em contrapartida, os russos empenharam-se a fundo, e o resultado está à vista.
De modo que Donald Trump anunciou já a retirada da Síria, embora de forma diferida, bem se vê. Mas seria sempre uma saída “de cauda entre os quartos traseiros”, forma eufemística de dizer “com o rabo entre as pernas”, coisa inaceitável, bem se vê. Ora, uma operação militar retumbante vinha mesmo a calhar para dourar a pílula.
Por outro lado, as coisas andam a correr mal por Washington. De despedimento em despedimento, de escândalo em escândalo, a solução ideal seria desviar as atenções para um inimigo externo. Assim foi com os coronéis gregos com a invasão de Chipre, e com os generais argentinos com o ataque à Malvinas. Ambos os casos correram mal, e foi o fim desses regimes. Pode ser que a sorte mude, terá pensado o Grande Decisor.
Na Inglaterra, as embrulhadas do BREXIT exigem também algo que distraia os ingleses. E o fantasma da “Dama de Ferro” percorre de noite os corredores do n.º 10 de Downing Street, assombrando Theresa May, e impelindo-a para a ação.
Emmanuel Macron, a braços com greves variadas, precisava de um derivativo para os comboios, os aviões, os funcionários, os professores, os alunos e outros que tais. E também pelo saudosismo de uma certa França, a de Charles de Gaulle.
Angela Merkel está manietada por duas questões: as recordações da II Guerra Mundial, condicionadoras de qualquer ação militar externa, e a implementação da Göeringontza, forma de governo apenas ensaiada em Portugal, sob o nome de geringonça. Diluída a Ameaça de Leste, é tempo de voltar à Östpolitik dos velhos tempos.
A Rússia continua no rumo de voltar a ser uma Grande potência, e aparentemente com bons resultados. Daí empenhar-se com um aliado tradicional, ainda por cima bem situado no plano geoestratégico.
Depois da declaração tonitruante de Presidente dos EUA sobre a retaliação ao ataque com agentes químicos de Bashar el-Assad, algo teria de ser feito. O problema era quando.
Juntos os três interessados (América, Inglaterra, França) havia que passar ao ataque. Mas com ressalvas, como convém numa uma guerra limitada, de modo a evitar escaladas.
Assim sendo, os alvos deveriam ser bem delimitados, garantido não haver danos colaterais, sobretudo entre a já martirizada população civil. Escolheram-se três objetivos, ligados à produção e armazenamento de armas químicas. Segundo a Ministra da Defesa da França, avisaram-se os russos, para não haver azar.
As instalações bombardeadas deviam estar evacuadas, porque não houve baixas; , de fato, foram referidos apenas três feridos, entre a população civil.
Segundo as imagens da TV, os ingleses atacaram com caças-bombardeiros Tornado, e os franceses com Rafale; ou seja, com aviões tripulados. Os americanos dispararam pouco mais de cem mísseis de cruzeiro Tomahawk, não tripulados. Não há notícias credíveis de abate de meios aéreos, nem sobre eventual ação dos temíveis mísseis antiaéreos russos S-400. As notícias surgidas variam entre 100% de eficácia a 70% de abates, conforme a origem. Nenhuma das partes está interessada a revelar, quer a eficácia, quer o insucesso.
Assim se desenha uma atuação que podemos chamar de civilizada: não se abate nenhum avião, não se matam pilotos, não há danos colaterais, destroem-se objetivos desertos, que, a bem dizer, nem deviam existir.
Como cereja no bolo, o ataque deu-se de sexta-feira para sábado, com as Bolsas fechadas. Houve assim tempo para fazer assentar a poeira, e o resultado foi bom: os preços do petróleo não subiram, contrariando a tendência anterior; o ouro e a prata baixaram; só o alumínio continuou a subir, mas essa é outra guerra…
Tal como diria Pangloss, do Candide de Voltaire: “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”.
Ainda bem que sim.
Mas, por mim, lembra-me a Guerra de 1908, do saudoso Raúl Solnado.
Nuno Santa Clara













