…and the winner is…Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Este introito ficou consagrado pelo anúncio da entrega da cobiçada estatueta do Oscar aos vencedores do prémio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Dado o impacto da cerimónia, a expressão ficou, e fez escola.
Outro grande espetáculo teve lugar no do 28 de Abril de 2018. Os líderes das duas Coreias, Moon Jae-In e Kim Jong-Un, inimigos jurados, encontraram-se em Pan Mung Jong, o único ponto de contacto da fronteira (artificial) dos dois países, trocaram sorrisos, registaram imagens, saltaram a linha de demarcação nos dois sentidos, assinaram solenes declarações.
Decerto que, na ótica tradicional vinda dos tempos da Guerre en dentelles (Guerra de rendas) do século XVIII, o inimigo de ontem é o cliente de hoje e o aliado de amanhã. Não se passou isso com a Itália, a Alemanha e o Japão?
Só que o tempo das guerras por questões dinásticas, ou pela reclamação deste ducado ou daquele condado, já passou.
As guerras do século XX tiveram, primeiro, um pendor nacionalista, para depois passar a ideológico. A Guerra da Coreia (1950-1953) foi talvez a mais típica da motivação ideológica, sendo anterior à Guerra do Vietname, ainda enredado no colonialismo. Ambas guerras tiveram intervenção externa, e com os mesmos atores: EUA, URSS, China.
Com muito de comum: coreanos e vietnamitas acabaram por ser a bola num jogo de confronto além-fronteiras (como os angolanos vieram a descobrir). E a oposição entre internacionalismo (importado) e nacionalismo (endémico) acabou sempre por fazer a sua aparição, de forma resiliente.
Os alemães, por exemplo, estão gratos aos americanos por terem ajudado a reconstruir o seu país, a reintegrá-lo na sociedade das nações e ter contido a ameaça soviética. Mas, para quem conhece o sentir das gentes, as forças americanas foram sempre um exército de ocupação, o que se pode constatar, de forma mais visível, por alguma literatura e por surtos de contestação.
Passado o folclore, e como avisadamente escreveu um comentarista, nas Coreias os problemas começam agora. Decerto a Alemanha foi reunificada, mas as diferenças entre os dois lados eram menos profundas do que entre as duas Coreias. As duas Alemanhas não teriam o mesmo desenvolvimento económico ou tecnológico, tinham sistemas políticos diferentes, mas também muito em comum – a ponto de, poucos anos passados, uma cidadã de Leste ter sido eleita Chanceler.
Com aquela gota de veneno de um político de Oeste: nós não reunificámos a Alemanha; nós absorvemos a Alemanha de Leste…
O caso das Coreias é diferente, e a vontade de reunificação depara-se à partida com muitas oposições.
Em primeiro lugar, a dos fundamentalistas de ambas as partes. Já houve manifestações de repúdio no Sul (obviamente que não no Norte). O termo repúdio não é inocente: a minha geração lembra-se decerto de outras manifestações de repúdio…
Em segundo lugar, dos protagonistas externos, China e Estados Unidos. O pragmatismo chinês pode levar a alguma abertura (além do apoio discretamente mantido), mas a China jamais abdicará dos seus interesses. As guinadas tuiteiras (se aceitarem o neologismo) de Donald Trump, indo do insulto à calorosa saudação a Kim Jong-Un, no espaço de meses, não dão grande confiança no resultado das futuras conversações.
Logo à partida, por um ponto que parece pacífico: a desnuclearização da Península Coreana. Pode bem argumentar-se que as armas nucleares de Kim Jong-Un são armas de “não uso” (como todas), e que os mísseis eram “tigres de lata”, já que ninguém provou que poderiam chegar aos EUA e que, se chegassem, acertavam no alvo. Portanto, apenas moedas de troca em eventuais negociações.
O que não impede que, quer a Coreia do Sul, quer o Japão, quer ainda os demais países da região e do resto do mundo, se sintam aliviados pela desmantelar do arsenal nuclear norte-coreano.
E do outro lado? O Japão tem uma política anti-nuclear irredutível, até porque é o único país que conheceu os seus efeitos. Nem permite o trânsito de tais armas pelo seu território nacional. Sendo assim, resta a Coreia, como ponto de apoio para tal armamento, já que mais ninguém da região está interessado em ser ponto de armazenamento ou de passagem de bombas atómicas, tal como aconteceu com a Espanha após o incidente de Palomares, em 1966.
A desnuclearização da Península pressupõe o acordo de ambas as partes. Tal como sucedeu na Europa nos anos 80, com o problema dos mísseis de alcance intermédio americanos Pershing e os mísseis russos SS-20 Saber, que terminou com a assinatura do tratado Intermediate-range Nuclear Forces Treaty (INF), ou na crise de Cuba de 1962, que terminou com a retirada dos mísseis soviéticos de Cuba e dos mísseis americano da Turquia. Na altura. John Kennedy e Nikita Kruschev deram provas de responsabilidade e bom senso.
E agora? Se as posições se extremarem, voltamos à casa de partida, como no Jogo da Glória. Só que não haverá grande glória. As situações não se repetem, e os EUA não terão a apoio incondicional dos próprios aliados, e ainda menos de terceiros suficientemente fortes e autónomos para poder fazer pressão e seguir políticas distintas.
De modo que, nesta política de showbiz tão querida a Donald Trump, estamos para ver quem será anunciado na fórmula consagrada:
…and the winner is…
Nuno Santa Clara













