Saltar para o conteúdo
Colunistas

IdadePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Decerto que é louvável ser amigo do seu amigo. E mais: é na desgraça que se conhecem os amigos. E ainda mais: uma das Obras Corporais de Misericórdia, mais concretamente a sexta, é “visitar os presos”. Mas a sétima Obra Espiritual de Misericórdia diz “corrigir os que erram”.

4 min de leitura
Idade Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Por Idade podemos estar a referirmo-nos a uma época da vida, ou faixa etária, ou a algo tão diferente como um período da vida da Terra – a idade dos Metais, a Idade do Gelo, etc.

Mas também pode ser um sufixo: adicionando dade ou idade a um adjetivo pode obter-se um substantivo expressando a ideia de estado ou condição. Deste modo, de sereno sai serenidade, claro gera claridade, e assim sucessivamente.
Nota: do alto da minha ignorância, não sei se adjetivo e substantivo ainda existem na língua portuguesa, ou se serão já arcaísmos…
O substantivo idade e o sufixo homógrafo têm sentidos diferentes. Mas vamos demonstrar que podem ter algo em comum.

A “Operação Marquês” arrisca-se a passar à nossa História com um peso semelhante, se não superior, ao processo levantado ao Marquês de Pombal, durante a “Viradeira” – o período de reversão e vingança que se seguiu à morte de D. José e à destituição de Sebastião José de Carvalho e Melo, o seu todo-poderoso ministro.

O tempo decorrido para o apuramento dos fatos no atual processo ultrapassou o que julgávamos razoável, mas a verdade é que neste, como noutros processos do género, “cada cavadela, uma minhoca”, para usar uma expressão popular. Daí as delongas, dilações, campanhas públicas e atividades afins.
E, como seria (infelizmente) de esperar, surgem “cortinas de fumos” em nome de certas solidariedades.

Decerto que é louvável ser amigo do seu amigo. E mais: é na desgraça que se conhecem os amigos. E ainda mais: uma das Obras Corporais de Misericórdia, mais concretamente a sexta, é “visitar os presos”. Mas a sétima Obra Espiritual de Misericórdia diz “corrigir os que erram”.

Posto isto, voltemos ao sufixo idade. Nas ondas causadas pela Operação Marquês têm sido muitos os que têm surfado na prancha da solidariedade; só que as ondas parecem maiores que as do canhão da Nazaré.
Solidariedade é normalmente entendida como um ato de bondade para com o próximo; de forma desprendida, portanto, sem ideia preconcebida de retorno. Mais no sentido de dar do que trocar ou receber.
Mas há também a cumplicidade: é a participação, ainda que secundária, ou co-autoria, em algo; se esse algo for de natureza criminal, temos conivência em algo de ilícito.

De modo que há aqui um aparente conflito de idades: cumplicidade contra solidariedade. Do qual resulta que aquele que, de boa-fé, manifesta solidariedade com quem pratica o ilícito, talvez fique bem visto, segundo alguns usos e costumes, mas incorre em cumplicidade por co-autoria.

Para os menos ingénuos, a solidariedade tem, de fato, dois sentidos, sobretudo quando não se trata de apoiar os sem-abrigo ou outros deserdados da sorte. Solidariedade com os DDT (Donos Disto Tudo) decididamente não cai bem dentro dos conceitos das Obras de Misericórdia.
Ora, os últimos desenvolvimentos deste caso escabroso parecem apontar para uma aceleração do processo. Indício técnico fiável, alguns ratos abandonam o navio. E um clima de resignação parece instalar-se nas hoste dos solidários a l´outrance, como nos soldados das trincheiras da I Guerra Mundial.

Continuo fiel admirador, não de D. Quixote, mas de Sancho Pança. Diria ele, neste caso, citando adágios populares como era seu hábito, que “não se varre para debaixo do tapete”, que “não se tapa o sol com uma peneira”, que “a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima”, e outras citações mais. E porque não? Parafraseando Eça de Queirós, comentando a atividade governativa, “melhor governou Sancho Pança a Ilha da Barataria”.
Voltemos mais uma vez, à idade. Mas desta vez à cronológica.

De regresso a Eça, temos idade para distinguir a nudez crua da Verdade sob o diáfano manto da Fantasia.
Dito de outra forma: já atingimos a Idade da Razão, ou não?

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção