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FestivaisPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Em termos de organização do espetáculo, foi algo de muito bem conseguido. Para calar as vozes que nos acusam de incapacidades variadas.
Em termos de resultados, Portugal passou de bestial a besta, no espaço de um ano e de uma votação. Nem mais: de primeiro a último.

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Festivais Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Foi levado a bom porto o Festival Eurovisão da Canção, estreia absoluta para a cidade de Lisboa.
Talvez pareça insólita esta minha inabitual intromissão pelas Artes, ainda por cima nas musicais e de palco. Mas escrevo como mero espetador, e não – graças a Deus! – como crítico. Assim, tudo o que escrever me será perdoado, porque não sei o que faço.
Em termos de organização do espetáculo, foi algo de muito bem conseguido. Para calar as vozes que nos acusam de incapacidades variadas.
Em termos de resultados, Portugal passou de bestial a besta, no espaço de um ano e de uma votação. Nem mais: de primeiro a último.

De onde se pode inferir que da glória à desgraça vai um passo, como bem sabiam os Romanos, que criaram o célebre aforismo: “é curto o caminho do Capitólio à rocha Tarpeia”. Era esta um penedo com uma altura equivalente a seis andares, de onde eram lançados os criminosos. Rápido, eficaz e económico, sem salpicar magistrados e algozes. Embora a sede do poder romano estivesse no Palatino, o Capitólio, pela sua fortificação e seus templos, era um local emblemático, e daí que fosse o ponto de partida para a última viagem dos desgraçados.

Mas houve outro aspeto curioso. Ao fim da votação dos países, Israel, tido por favorito, estava em quinto lugar, e a ponta final parecia vir a ser entre outros concorrentes. Mas entrou a votação do júri – e Israel acabou por ganhar com uma votação confortável.
Não havendo recurso… para o ano há mais.

Mas esta história tem um certo sabor a “déjà vu”. Se fizermos a comparação entre esta votação e o sistema eleitoral americano, notamos uma certa semelhança. Equiparando o voto dos países ao “voto popular” (o total dos votos expressos) e o voto do júri ao do Colégio Eleitoral dos EUA (os votos dos delegados, por Estado), caímos numa situação análoga.

Foi assim que George W. Bush ganhou em 2000 a Al Gore por 271/266 no Colégio Eleitoral (abstraindo da questão da recontagem), embora o voto popular fosse de 48,4% para Gore e 47,9% para Bush.
Foi assim que Donald Trump ganhou em 2016 a Hillary Clinton por 304/227 no Colégio Eleitoral, embora o voto popular fosse de 48,1% para Clinton e 46,6% para Trump.

Para nós, portugueses, esta expressão “colégio eleitoral” traz à memória a apressada revisão da Constituição de 1933 (que consignava a eleição do Presidente da República por sufrágio universal e direto). O risco corrido nas eleições de 1956, em Humberto Delgado provocou um terramoto político, levou Salazar a rever a Constituição, tendo sido criada essa coisa de Colégio Eleitoral., como garantia antecipada de resultados.

Não vamos esperar que os EUA façam uma revisão constitucional; nem tal se poderia fazer numa constituição fixa, mas pode-se sempre recorrer a um Amendment (aditamento, ou emenda). Mas, afinal, com esta são já cinco eleições com situação igual – mais votos populares e derrota no Colégio Eleitoral - e ninguém parece seriamente empenhado nisso.
Nem vamos comparar o comparável com o incomparável ou seja, a eleição de um Presidente com o Festival da Canção. Mesmo sendo a atual Presidente um fanático dos media para uso próprio.

Mas existindo em Washington um Capitólio, onde estão sedeados o Senado e a Câmara de Representantes, a imagem do caminho até à rocha Tarpeia volta-me sempre à mente, se bem que agora alongado com o percurso da Casa Branca até ao Capitólio, assim tornado escala em vez de casa de partida, num cenário surreal.
Tudo no sentido figurado, entenda-se…
De qualquer forma, mesmo não sendo Donald Trump europeu, de à uma geração pela mãe e de duas pelo avô, deve estar duplamente satisfeito.
Está (re)justificada a sua eleição.
Ganhou o seu país de eleição.

Nuno Santa Clara

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